E se fosse possível minimizar ou arranjar uma solução para resolver conflitos através de um jogo? É o que Lual Mayen quer fazer, com base na sua experiência como refugiado.

Lual tem agora uma vida estável, trabalha num escritório onde o ambiente é tranquilo e moderno, situado num bairro contemporâneo de Washington, DC, EUA. A paisagem é repleta de verde e de restaurantes Michelin Star, que em nada se assemelham à sua realidade enquanto criança.

Lual Mayen tem 24 anos, passou de refugiado a CEO. Nasceu a caminho de um campo de refugiados, no norte do Uganda, durante um ataque na estrada enquanto os pais fugiam do Sudão do Sul. Perdeu as suas duas irmãs mais velhas na viagem, por motivos de doença. Dessa infância Lual lembra-se que cresceu sem eletricidade e sem condições de vida e que foi um dos mais de 2,5 milhões de pessoas deslocadas pela guerra civil, iniciada em 1983.

Become a Patron!

Lual Mayen – Campo de Refugiados / Foto: Lual Mayen

O jovem refugiado não conhecia outra realidade a não ser a sua, não conhecia o mundo exterior para além das casas de palha, guerra, pobreza e analfabetismo. No entanto, isso não impediu Mayen de sonhar com uma vida melhor. Aos 12 anos de idade, pela primeira vez viu um computador, no campo de refugiados. Mayen tinha fé que consegueria fazer algo com aquilo que vira, pediu à mãe que lhe desse um.

As dificuldades eram muitas e a pobreza não parecia desaparecer, mas Nyantet Daruka, mãe, acreditava no sonho do seu filho. “Este foi um dos sinais que mostrava que o que quer que eu invista, o Lual seria capaz de se concentrar e criar algo com isso”, explicou em entrevista ao The Washington Post.

Daruka trabalhou durante três anos como costureira, conseguiu juntar até 300 dólares para comprar o computador que o filho tanto desejara. “Queria algo que ajudasse o meu filho a aprender e que ajudasse também a reduzir o stress de viver num campo de refugiados”, acrescentou.

Lual Mayen
Lual Mayen / Foto: Sarah L. Voisin/The Washington Post

A falta de eletricidade dificultava o uso do computador, mas Lual não queria desistir do que levou tanto tempo e esforço para conseguir. “Culpava-me, porque não havia como carregá-lo. Não havia ninguém que me ensinasse a usá-lo. Não podia apenas mantê-lo no meu quarto como uma peça de museu. Pensei sobre isso e se minha mãe trabalhou durante três anos para conseguir o dinheiro. Eu tenho de encontrar uma maneira de usá-lo”, explicou Lual.

Foi então que Mayen começou por caminhar três horas por dia até ao cibercafé mais próximo para carregar o computador. No campo, tinha o computador resguardado na mochila que andava sempre com ele, para que não fosse roubado por outros ou confiscado pelos seus professores. Aprendeu inglês através de programas de design gráfico e tornou-se proficiente em programação, graças aos tutoriais que um amigo de Kampala, capital de Uganda, forneceu numa pen drive.

Mayen é agora o primeiro africano à frente de uma empresa de jogos nos Estados Unidos da América, como CEO da Junub Games, que fundou em 2016. A sua empresa emprega cerca de 20 engenheiros, designers e programadores de software – a maioria deles é voluntária no Uganda e no Sudão do Sul.

Become a Patron!

Lual Mayen / Foto: Sarah L. Voisin/The Washington Post
Junub Games / Foto: Sarah L. Voisin/The Washington Post

Baseado na suas experiências como refugiado, Mayen pensou numa forma de restaurar a paz de forma sustentável no seu país, e criou Saalam – palavra árabe que significa paz – um jogo que pudesse passar essa mensagem e no qual as pessoas se sentissem na pele de um refugiado.

Os jogadores devem fugir de bombas que caem dos céus, fugir dos tiros, encontrar água e ganhar pontos de energia para garantir a sobrevivência do personagem. O cenário é de guerra que passa gradualmente para um cenário mais pacífico à medida que o jogo vai avançando. Se o personagem do jogador ficar sem energia, este pode comprar mais comida, água e medicamentos para o personagem com dinheiro do mundo real.

“Eu percebi o poder dos jogos. Percebi também que os jogos podem ser úteis para a paz e a resolução de conflitos. Comecei a fazer videojogos no meu país, para que pudessem jogar e desviar as suas mentes de atividades menos positivas e destrutivas”, disse.

Salaam tem o objetivo de proteger as comunidades de serem destruídas e manter a paz. Na altura quando o criou só era possivel jogar via Bluetooth, distribuído pelo mesmo e por telefones de 10 megabits apenas. O jogo acabou por ter uma boa aceitação dos seus utilizadores e tornou-se viral, altura em que um organizador de conferências do A Maze o convidou para falar numa conferência sobre jogos, na África do Sul.

Lual Mayen
Lual Mayen / Foto: John Lockett

Na conferência, Mayen conheceu Ismail, co-fundador da Vlambeer e um programador de jogos de sucesso com mais de oito jogos lançados desde 2010. Ismail foi também uma das pessoas que incentivou Lual a seguir a sua paixão pela criação de jogos. Mas antes disso tudo acontecer, Mayen fez um jogo de tabuleiro, Wahda, que incentiva a resolução pacífica de conflitos. Wahda foi criado com o objectivo de ser jogado por refugiados sem a necessidade de um computador.

Em 2018, o The Game Awards, assistido por 27 milhões de pessoas, premiou Mayen como “The Game Awards Global Gaming Citizen” em conjunto com o Facebook. Mayen agora trabalha em conjunto com a rede social para publicar Salaam como um jogo instantâneo.

Become a Patron!

Lual Mayen tornou-se finalista de um programa internacional do PeaceTech Accelerator, apoiado, em parte, pelo Amazon Web Services, tendo em conta o que tem feito em prol da sociedade e os “jogos pela paz” criados pela sua empresa.

Neste momento, Lual trabalha com uma equipa para desenvolver um jogo de realidade virtual. “Talvez um dia, o meu sonho se torne realidade, de tornar a Junub no maior estúdio de videojogos, que produz jogos pela paz”, concluiu.

Abaixo podes ver uma breve introdução do jogo e da história de Lual Mayen: