Podia começar este texto com notas musicais e fundi-las com samples de Michael Jackson, Salif Keyta, do Mali, e Youssou N’Dour, do Senegal, que culminaria num house ou afro/deep house com uma melodia vinda da terra de Titina Silá – uma das mais notáveis lutadoras e combatentes pela independência da Guiné-Bissau contra o domínio português.

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Até pode parecer estranho essa mistura de música e luta pela independência da Guiné, mas não. Quando falamos de Buruntuma, o DJ e produtor guineense carrega na sua música a sua gente e a história de um país pequeno que tem muito para dar. Um dos temas abordados pela BANTUMEN neste décimo episódio do podcast O Negócio da Música, que teve lugar no FLUX.

Buruntuma é uma pequena vila na região de Gabú, no nordeste da Guiné-Bissau, nome que o DJ acolheu como seu, tanto pela sua estranheza como pelo seu toque rústico. Citando Fernando Pessoa, o nome primeiro “estranha-se, depois entranha-se”. Este foi escolhido baseado nas experiências enquanto crescia, nos tenros anos da adolescência em Coimbra, a maior cidade da região Centro de Portugal, onde viveu e estudou.

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“Na noite, eu não via DJs guineenses, via angolanos, cabo-vedianos e são-tomenses, e não via guineenses e incomodava-me um bocado. Então, quando comecei a tocar, ainda procurava a minha identidade e nome como DJ. Queria marcar a diferença com o nome, tinha de ser algo original. Escolhi um nome completamente guineense que os próprios guineenses desconhecem como sendo uma aldeia, um nome mais bruto que eu pudesse usar. Quem ouve e é guineense vai saber que quem está a tocar é guineense também”, explicou Buruntuma.

A música que faz e toca é uma fusão desta Lisboa multicultural. É guineense de gema, mas tem Portugal na sua génese, devido à sua mistura de povos, que o influencia de todas as formas, cores e dialectos. A música foi ao seu encontro nos anos ’90, em criança, ao ver videoclipes de grandes nomes da música como Michael Jackson e Salif Keyta, músicas da África do Sul, Senegal e Mali.

Os sets que cria são intemporais e vibrantes, onde as raízes africanas estão bem firmes, numa sinfonia que engloba o Afro house, House Ancestral, e sons Afro deep dos subúrbios de Lisboa para os bairros de Angola, França, Espanha, Alemanha, e recentemente do seu país natal, Guiné-Bissau.

Ao falarmos da sua terra, o sorriso é notório e o entusiamo cativante. “Sinto necessidade de representar a Guiné. A representatividade é algo muito forte. Os portugueses quando veêm o Cristiano Ronaldo lá fora a ganhar sentem que são eles que estão no lugar dele. Eu, como um guineense, se vir um Bruma ou um Armando Cabral a representar [o país] é como se eu tivesse lá. A representatividade é isso e tento transportar um bocado da Guiné comigo.”

Embora existam muitos jovens guineenses a dar cartas pelo mundo fora, ainda falta apoio do próprio país. Para Buruntuma é crucial falar sobre Guiné e representar os seus, pois a falta de divulgação de vários talentos em áreas como artes, moda, desporto e música, é visivel. Talvez pelo tamanho do país, o poder económico e o apoio do governo, são factores que dificultam o caminho e o sonho de muitos.

Através da música, Buruntuma quer mostrar que todos podem chegar onde quiserem, que os sonhos são possíveis de concretizar quando se acredita no que se faz. “É o meu hustle. Eu faço música por prazer e represento a minha terra, sou guineense e preciso de me expressar. Nós não somos só guerras e confusões, não peço nada aos guineenses nem ao governo, eu faço pelo prazer e quero fazer algo pelo meu país.”

A conversa não ficou por aqui, abaixo podes ver e ouvir a entrevista na íntegra.