Com 23 anos, Cynthia Emeline Teixeira Ramos é uma boa surpresa da nova vaga do hip hop cabo-verdiano. Natural da ilha de São Vicente, Nitry oferece a quem a ouve um caldo de irreverência, confiança e palavras afiadas.

Nitry cresceu entre as ruelas de Monte Sossego. Com uma energia inesgotável, a hiperatividade fê-la criar laços de amizade maioritariamente masculinos e foi através deles que acabou por se cruzar com o hip hop.

Foi nas rodas de rap, no liceu, que percebeu que a música corria nas suas veias. Numa dessas rodas, “decidi entrar na onda. Senti uma vibracão muito forte e apercebi-me que eu tinha nascido para o rap”, explicou à BANTUMEN em entrevista.

Daí a nascer a Nitry, como hoje a conhecemos, foi um passo. A nitroglicerina é usada na preparação da dinamite pelas suas propriedades explosivas e foi essa a inspiração para o seu nome de artista. “O nome surgiu quando andava no liceu. Era muito energética, parecia que tinham injetado nitroglicerina em mim. Decidi tornar o nome em algo mais feminino e meu”, então, aos 17 anos, nasceu a Nitry.

Nitry
Nitry | Foto: Miguel Roque

A primeira música aconteceu por inspiração da angolana Eva RapDiva. Estava em casa a ouvir uns freestyles de umas rappers norte-americanas, calhou ouvir um da Eva RapDiva e fiquei muito impressionada. Fiquei motivada e comecei a procurar instrumentais no YouTube. O primeiro que encontrei comecei a escrever. Como não tinha noção do que escrever, comecei por me apresentar e depois a falar sobre coisas que aconteciam no meu dia-a-dia. E assim, surgiu a minha primeira música chamada ‘Hip Heart'”.

Na Escola Técnica de São Vicente subiu ao palco pela primeira vez com o grupo Esposas do Rap. Foi nessa primeira apresentação que fez prova da tenacidade e positivismo pelos quais é conhecida. “Éramos muitos a cantar naquele dia e nós éramos as últimas. Por causa do tempo, quando entrei em palco e comecei a cantar desligaram o som mas mesmo assim continuei e o público vibrou comigo e desde então fomos chamadas para cantar em todas as escolas.”

É de microfone na mão que “sinto que não sou a mesma pessoa. É muita energia e atitude que contagia o público e logo criamos uma conexão incrível. Sinto que é o momento para dar tudo, provar o meu valor e o meu potencial. Coloco a minha alma e o público sente o que eu quero transmitir”, elucida-nos Nitry.

Nitry
Nitry | Foto: Miguel Roque

No seu curto currículo, a jovem artista conta com o nome de Nish Wadada, cantora de reggae, e El Condutor, produtor reconhecido pelo seu trabalho com os Buraka Som Sistema e variadíssimos cantores da cena urbana contemporânea em português. Questionada sobre com quem se vê a colaborar no futuro, Nitry refere nomes muito longe do rap. Primeiro, a compatriota Elida Almeida. “Acho que iríamos fazer algo totalmente diferente.” Em Portugal, “gostaria de trabalhar com a Cuca Roseta, gosto muito do trabalho dela.

“Muitos vão querer parar-te quando comecarem a ver que estás a fazer muito barulho”

Apesar de ter começado a cantar em crioulo, Nitry não sente qualquer barreira a adotar outra linguagem na sua arte. “Sinto vontade de cantar em português e neste momento as minhas últimas composicões foram todas em português, o que, espero, vai dar-me uma projecão  enorme. E gosto de misturar com o inglês, o que dá aquele toque mágico”.

Na sua playlist há dois artistas que não podem faltar, Plutónio (Portugal) e Mark Delman (Cabo Verde).

Do rap feito nos EUA, ouve J.Cole e Kendrick Lamar porque têm uma mensagem que a inspira e despertam nela a vontade de evoluir. No entanto, “neste momento estou numa onde de Travis Scott. Gosto muito das ideias que ele tem, a forma que como faz as rimas, os conceitos do vídeos dele, para mim ele é muito criativo”.

E se o rap continua a ser um meio maioritariamente composto por homens, ainda para mais quando se faz parte de uma sociedade pequena como é Cabo Verde (500 mil habitantes), Nitry não faz cara feia, arregaça as mangas e reclama o microfone, seu por direito. “Quando comecei senti-me bem acolhida sim, mas havia sempre outros rappers que me perguntavam se eu é que escrevia os sons e pude aperceber-me que havia um pouco de machismo nas suas palavras. Mas, com o tempo, vi que o público está cada vez mas receptível a verrem uma mulher no rap, além de haver, cada vez mais, mulheres a apoiarem [outras mulheres].

Nitry
Nitry | Foto: Miguel Roque

Contudo, essa afirmação nem sempre é uma tarefa fácil., principalmente quando há inúmeros eventos de hip hop e a lista de artistas convidados é sobretudo composta por homens, “como se não houvesse mulheres para participar”. Fora o facto de os homens tentarem difamar as mulheres nas letras deles”. No campo pessoal, “o facto de trabalhares só com homens, faz com que, por vezes, não percebam o que queremos transmitir e as coisas nem sempre ficam como queremos.”

Para aquelas que estão a seguir os seus passos, Nitry avisa: “elas têm que ter pulso firme. Ter atitude, expressarem-se sem medo, ter identidade, posicionarem-se neste game e olhar só para à frente porque muitos vão querer parar-te quando comecarem a ver que estás a fazer muito barulho. E isso, é bom sinal, significa que estás a ter impacto.”

E é com essa mensagem de empoderamento que surge Titina Silá, o seu primeiro último, produzido por Condutor. E ainda este ano, Nitry vai lançar um remix da música e mais um vídeo.