Como diz o provérbio sueco, “aqueles que desejam cantar sempre encontram uma música”. Com Samir não houve exceção à regra.

Residente em Algueirão-Mem-Martins, na Linha de Sintra (na periferia da capital portuguesa), o rapper faz parte da primeira geração da sua família a nascer em Portugal, mais concretamente em Lisboa. “Os meus pais, e as suas respectivas famílias, emigraram para Portugal aquando do 25 de Abril. Assim como muita gente, vieram à procura de estabilidade e melhores condições de vida.”

Durante a infância, estando num país maioritariamente católico, seguir uma doutrina religiosa diferente revelou-se para Samir uma experiência “bastante complexa”, devido ao choque de mentalidades e também à sua personalidade.

Em conversa com a BANTUMEN, Samir descreveu que quando era miúdo, “não era propriamente uma criança popular na escola. Aliás, nem na escola nem em lado nenhum. Pelo contrário, sempre fui extremamente tímido, pouco sociável, talvez por me sentir um pouco como um outsider em termos de identidade própria. Na altura, eu era um miúdo de fraca figura, com traços indianos”, auto descreveu-se.

Descendente de moçambicanos e uma crença religiosa islamita, Samir é um rapper português que começou a sua trajectória artística “por volta dos 14 anos”.

A paixão pela arte de cantar ou de droppar nasce quando o artista se cruzou com a música do grupo de rap criolo Da Blazz, que iniciou o seu percurso no movimento hip hop há cerca de 20 anos em Portugal. “Naquela altura foi, para mim, o despertar deste género musical. Arranjei uma cassete com as músicas deles e andava para todo o lado com o Walkman (leitor de cassetes portáti).”

Com o passar do tempo, o sentimento que Samir tinha pelo movimento foi crescendo e chegou a altura de gravar a sua primeira música.

Naquela época, ter acesso a um estúdio de gravação era tão ou mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. A minha primeira música era, claramente, má (risos). Gravei-a no meu quarto, com um microfone daqueles que vêem de oferta com o computador e sussurrei o que tinha escrito, para ninguém em casa ouvir.”

Como todo o artista, o conteúdo das suas composições girava em torno daquilo que eram as suas frustrações.

Quando o seu pai se cruzou, pela primeira vez, com alguns dos seus versos, Samir preferiu desvalorizá-los, para não preocupar o progenitor.

Por norma, a cultura muçulmana é muito reservada e rigorosa. Quando percebeu que Samir queria crescer no rap, a sua família (excepto os membros mais próximos) passou a vê-lo de forma diferente e que houve choques. “Vejo pelos olhares indiscretos. Principalmente a faixa etária mais velha. Associando isso às tatuagens, não devo ser propriamente aplaudido (risos). Mas distancio-me um pouco disso, vivo de acordo com o que são as minhas escolhas. No entanto, curiosamente, é na faixa etária mais nova da minha comunidade onde denoto maior resistência em olhar para mim com aprovação” e “aliás, foi a minha mãe que me ajudou a comprar a minha primeira mesa de mistura para começar a gravar.”

Samir além de ser músico, também é proprietário da empresa lx connct que funciona na área áudio visual e fotografia. Mesmo sendo difícil conciliar as três áreas em que atua, Samir encontra motivação na família e, principalmente no seu filho, sua “motivação número um”.

Desde que deu os primeiros passos no movimento, nos anos 2000 até agora, o rapper já trabalhou com Madkutz e João Matos Pereira. Num futuro, quem sabe, próximo, “gostava de trabalhar com a Sara Tavares, com o Matay, com o Valete, Slow J, Lulas (dos Cachupa Psicadélica), tantos.”

Carrego a cultura kimbundu nas veias. A minha angolanidade está presente a cada palavra proferida. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O meu mantra é "o conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, portanto, não seja recluso da ignorância".