José Miguel Bravo dá vida a Easy B, um artista que começou a fundar a sua génese artística por volta de 2002, influenciado pela nata do hip hop português da altura, como Boss AC, Valete, Chullage, Sam The Kid, Regula, Black Company, entre outros.

Os seus primeiros sons surgiram naturalmente. “Quando comecei a fazer música, a palavra carreira não passava sequer pela minha cabeça. Fazia só para curtir, imitava os meus ídolos, cantava as letras deles, dava uns freestyles no quarto e na rua, e escrevia umas rimas. Era só isso, o gosto, a adrenalina e a emoção que sentia”, explicou à BANTUMEN em entrevista.

Com o passar do tempo, o produtor e rapper que nasceu na Amadora e viveu na Vialonga (ambas as zonas na periferia de Lisboa) acabou por sentir que a música era mais do que um mero passatempo. “A música acabou por ganhar um papel preponderante, no sentido em que foi quase como um escape, uma espécie de porto de abrigo e aquilo que era uma brincadeira passou a ser tudo.”

Hoje em dia, já há outras produtoras a seguir-nos o rasto

Estava assim criada a base para dar os primeiros passos sérios dentro da indústria. Em 2009 criou a label EasyHits. “Na altura eu tinha a ideia e já o nome pensado. Eu e o Aldicelo parávamos cada vez mais vezes juntos, tínhamos ideias muito parecidas e os gostos também e, acima de tudo, tínhamos a vontade de querer fazer as coisas de uma forma mais séria, de ir para estúdio, de descobrir mais sobre o universo da música. Queríamos também evitar depender de outras pessoas para materializarmos as nossas ideias, nem que para isso tivéssemos de ter só no quarto um microfone de 100 euros, um teclado, placa de som e umas colunas. Para nós já era uma conquista.”

Easy B
Easy B | Foto: Miguel Roque / BANTUMEN

Os primeiros sons aconteceram com um microfone de 15 euros. O importante era rentabilizar o talento para poder ajudar a família em casa. “Nem que fosse só chegar no final do mês e pagar duas contas. Queríamos que as pessoas  (sobretudo as nossas mães)  olhassem para o que fazíamos com mais seriedade. Financeiramente também termos algo para nós, pelo pouco que às vezes fosse, mas estando a fazer algo que nos dava prazer, era outro gosto.”

O caminho estava traçado e, o que antes era só um sonho, passou a ser uma realidade. “Felizmente correu bem e fomos muito solicitados ao longo do tempo. Fizemos muita coisa, produzimos projetos até para além de Hip Hop que passaram na TV e rádios, e houve muita coisa que infelizmente não fizemos, por falta de budget, mas éramos muito requisitados, inclusive, até fora de Portugal.” 

A EasyHits seguia os passos dos pioneiros Boss AC e Gutto com a No Stress. “Hoje em dia, já há outras produtoras a seguir-nos o rasto, e isso é gratificante. Ninguém ainda ficou rico, mas é um sinal de que nada foi em vão.”

A produção entrou na vida de Easy B aos 16 anos. “Vejo a produção como uma coisa super tranquila e sem grandes complexos. Comecei a fazer beats desde muito cedo, devia ter uns 16 anos. Não é algo novo para mim. Adoro o processo de estar a criar, samplar, convidar músicos para gravar em beats, de incorporar as influências que tenho na minha música e materializar as minhas ideia, e gosto de pensar que tenho estado em constante evolução, sempre ainda com muito para aprender”, explica-nos.

Mas nem sempre tudo é fácil. A exigência é a sua métrica, o que pode roubar-lhe o foco. “Às vezes tenho os meus dilemas, perco muito tempo com a parte estética dos beats, a pensar para que direcção me irei inclinar. Confesso que às vezes padeço um bocado com o facto de ser muito exigente e perfeccionista. Tens pessoas a dizer-te, “man, isto está incrível!” e tu estás do tipo, “ya, mas podia estar mais assim, mais azul ou laranja” mesmo quando está tudo ótimo e tu deste tudo.”

Easy B
Easy B | Foto: Miguel Roque / BANTUMEN

Questionado sobre o seu ponto forte, ser rapper ou produtor, Easy B não gagueja. “São funções que, embora distintas, eu me empenho da mesma forma em ambas. A entrega é a mesma. Pela percepção que tenho vindo a ter ao longo do tempo, por parte do público e das pessoas que me abordam, acho que desempenho as duas bem, porque oiço muito as pessoas dizerem-me “gosto muito do teu trabalho, e grandes beats.” Fico contente.”

No seu círculo de influências, há dois nomes da velha guarda presentes, Bambino e Gutto, fundadores dos Black Company. “Troco mensagens com o Gutto frequentemente e tento estar com ele sempre que existe oportunidade. É uma pessoa super inteligente, um mentor. Sempre os admirei e continuo a admirar enquanto músicos e, claro, também enquanto pessoas. Deram-me a mão. São uma referência para mim, poder trabalhar com eles, privar e partilhar a minha música é muito gratificante. Até porque estamos a falar de nomes incontornáveis no Hip Hop português. Há uma coisa que é gostar e outra que é respeitar. Não temos de gostar todos do mesmo, mas são sem qualquer dúvida nomes que, independentemente do gosto pessoal de cada um, merecem todo o respeito. Eles abriram caminho, são pioneiros e o Gutto não é só no rap, é também pioneiro no Rnb. Não dá para falar de Rnb [em português] sem mencionar o Gutto, ele foi o primeiro a editar um álbum de Rnb em Portugal.

Se, atualmente, o hip hop em geral, está no seu auge, na Vialonga, a sua zona, não é diferente. “Vialonga é e sempre foi uma zona com imenso talento. Não só na música, mas em muitas outras áreas há potencial. Um dos pintores que tem vindo a ganhar cada vez mais relevância em Portugal, Jorge Charrua, é meu amigo desde infância até aos dias de hoje. Crescemos juntos, é uma pessoa que admiro e que continua a fazer parte da minha vida de uma forma presente, e também vem de lá, é um nome também ligado à cultura HipHop na vertente do Graffiti.

“Quando mandei uma demo ao Gutto para ele ouvir e lhe pedir autorização, o feedback foi incrível”

Para dar mostras desse talento, o rapper lançou recentemente um novo trabalho. “Vales Zero” é a extensão de um single anterior e que contém um sample de Mais Forte”, de Gutto. “Já há algum tempo que eu queria produzir algo para mim que, esteticamente, estivesse na onda de algumas das coisas que o Tory Lanez grava e produz. Por vezes ele pega nos clássicos do Rnb que é feito nos Estados Unidos, de grupos como Destiny Child e TLC. Lembro-me de há uns anos ouvir a faixa em que ele usou algumas vozes do tema “Say My Name” das “Destiny Child” e dá outra abordagem aquilo, numa vibe mais dark, densa, e eu ficar, do tipo “damn, super criativo este gajo, adoro isto.” Uns tempos depois, ouvi uma outra faixa dele, em que ele usa um sample do single “Scrubs” das TLC e disse para mim mesmo, ‘tenho de ter algo com esta estética sonora, que seja actual’, com a cadência e BPM meio Trap, os 808 a rasgar. Mas não quis fazê-lo com samples lá de fora. Queria fazer isso, mas com algo que fosse nosso, com Rnb português, esse foi o maior desafio. Fui ouvir coisas do Gutto e estava a ouvir o álbum dele Chokolate, de 2004, peguei na música “Mais Forte” e comecei a trabalhar as ideias. Já sabia a direcção que queria, o resto foi meter as mãos na massa. Quando mandei uma demo ao Gutto para ele ouvir e lhe pedir autorização, o feedback foi incrível. Fiquei muito contente e tendo em conta que não é um artista desta nova geração, é também uma forma de o homenagear, e desta nova camada jovem saber quem ele é. Acho que saimos todos a ganhar. No último single que editei no final do ano passado, “Lérias”, também fiz esse cruzamento na produção com a música portuguesa. Gosto de o fazer, é desafiante.

Easy B | Foto: Miguel Roque / BANTUMEN

“Vales Zero” fala sobre uma fase atribulada entre duas pessoas que estiveram envolvidas. “Foi uma história que se passou comigo,e que partilho através da minha musica. É sincero.”

E essa sinceridade também se expressa na forma como encara o lado cor-de-rosa da vida de artista. O sucesso é para si o bem estar. “Sucesso é tu estares bem, sentires-te bem contigo próprio, conseguires dormir descansado e acordares feliz. Estares rodeado de pessoas interessantes de quem gostas e que gostam de ti genuinamente. Teres uma boa energia ao teu redor, teres bons amigos, poderes fazer aquilo que amas e te dá prazer, e fazeres a diferença de uma forma positiva na vida de outras pessoas, inspirares os outros, para mim isso é sucesso.”

E há mais. “Não tenho tempo a perder com coisas negativas e que em nada acrescentam valor à minha vida. O porquê? O tempo não pára, e o nosso bem estar é algo precioso e que devemos preservar ao máximo.”

O objetivo é levar a sua música o mais longe possível. “Deixar o meu rasto, e inspirar as outras pessoas a deixarem também o seu. Acredito que todos estamos aqui de passagem e com um propósito. Felizmente creio já ter encontrado o meu e encaro isso como uma bençâo, mas também como uma missão. Acredito no poder que a musica tem, que as palavras têm e na sua transformação.”

Para breve, Easy B está a preparar o EP Rasto.Neste momento estou a finalizar o meu EP “Rasto”. “Há outros projetos em teoria, mas por agora é o EP. Lançar mais música e ir para a estrada, se tudo correr bem. Dia 20 de dezembro vou estar no Lisboa Ao Vivo, o cartaz é bonito e composto por vários nomes, quem quiser aparecer por lá, deixo já o convite aos leitores da BANTUMEN, serão todos bem-vindos.