Três homens de Baltimore, no leste dos Estados Unidos, que passaram 36 anos na prisão pela morte de um adolescente em 1983, foram ontem declarados inocentes.

“Estes três homens foram condenados quando eram jovens por uma atuação errada da polícia e da Procuradoria”, afirmou ontem a procuradora do estado de Baltimore, Marilyn Mosby, após os três visados terem sido formalmente declarados inocentes por um juiz local e libertados da prisão.

Alfred Chestnut, Andrew Stewart e Ransom Watkins cumpriam prisão perpétua pela morte de Dewitt Duckett, um estudante de 14 anos, na escola Harlem Park de Baltimore. Duckett foi alvejado  no pescoço dentro da escola e o blusão que usava, da Universidade de Georgetown, foi roubado. O blusão acabou por desempenhar um papel crucial na condenação dos três homens agora declarados inocentes, já que a acusação apresentou como prova um blusão idêntico, encontrado na casa de um dos visados, Alfred Chestnut.

A mãe de Chestnut  apresentou o recibo da compra, que foi ignorado pelos investigadores do caso, e sabe-se hoje que o blusão não tinha vestígio de sangue nem de pólvora.

Dewitt Duckett foi  vítima no primeiro tiroteio fatal envolvendo um estudante de uma escola pública de Baltimore.

Inicialmente, as testemunhas apontaram para a existência de apenas um autor do crime, mas, segundo se provou agora,  a polícia terá coagido as pessoas para que denunciassem “os três homens, todos adolescentes negros de 16 anos (…), para montar o caso”.

“Foi um inferno,” afirmou Chestnut, depois de libertado, à saída da cadeia. “Foi miserável”.

Chestnut manteve sempre que era inocente. Na primavera do ano passado fez um pedido de informação sobre o seu processo e descobriu novas provas que tinham sido omitidas ao seu advogado aquando do julgamento. Foi nessa altura que decidiu contactar uma unidade especial que analisa condenações antigas, expondo-lhes o seu caso.

Os advogados envolvidos no caso afirmaram estar “horrorizados” com a quantidade de provas ilibatórias que foram escondidas da defesa e do júri. Os suspeitos e as testemunhas, menores de idade, foram interrogados sem a presença dos pais e outras potenciais testemunhas foram interrogadas em grupo e foi-lhes dito para acertarem entre eles a história que iam contar.

Além disso, chamadas anónimas que identificavam outro atirador foram também escondidas da defesa, indicou a procuradora Mosby. Tratar-se-ia de outro jovem, que terá sido encontrado com o blusão da vítima e confessado o crime, suspeito esse que entretanto morreu.

Na passada sexta-feira, a procuradora reuniu com os três homens condenados injustamente, pediu-lhes desculpa e informou-os que seriam libertados. “Não acho que hoje tenha havido uma vitória, é uma tragédia”, afirmou ontem Marilyn Mosby. “Não há forma de reparar os danos que causámos a estes homens quando 36 anos da vida deles foram roubados”.

“Merecem muito mais que uma desculpa. Devemos-lhes uma indemnização, e vou lutar por eles”, afirmou.

Alfred Chestnut, Andrew Stewart e Ransom Watkins foram presos na manhã do Dia de Ação de Graças, há 36 anos. Este ano, pela primeira vez na vida adulta, voltam a passá-lo em família e em liberdade.