Eliana N’Zualo é uma mulher da palavra, amante de gatos e feminista. A autora do livro infantil moçambicano Elefante Tendai falou para o nosso BANTUMENPodcast, enquanto esteve por São Paulo, Brasil, a convite de um festival de Cinema, Artes e Cultura Africana, realizado pelo Colectivo Raizes. O evento aconteceu à margem do mês da Consciência Negra.

Neste nosso encontro via Skype, falámos sobre como o feminismo está presente na sua vida de uma forma individual e em constante evolução. Primeiro, revelando-se na sua adolescência sem se ter dado conta e, até mesmo, de forma auto-reprimida. Conforme foi crescendo, foi-se cruzando com as ideologias de autoras e ativistas feministas como Simone de Beauvoir, escritora e filósofa francensa do século XX. Já adulta, a maturidade levou-a a conhecer as derivações do movimento, que vai muito além das questões pessoais e que é essencialmente um questionamento sobre o porquê de as coisas serem como são e de desconstrução do padrão.

Nessa senda, no seu Maputo natal, Eliana é a fundadora do Matabixo Feminista, um encontro entre jovens mulheres moçambicanas, que tem como propósito debater e questionar o mundo patriarcal que as envolve. Há a salientar que o seu objetivo não é envagelizar o próximo mas, no dia-a-dia, mudar a forma como vive a sua vida. “Se nesse exercício eu influenciar as pessoas à minha volta, melhor”, afirmou. A título de exemplo, “eu moro sozinha. Para uma jovem mulher, não é muito comum em Maputo. Só o facto de isso existir leva outras mulheres a pensarem ‘por que é que eu não faço isso também?’ Se eu tenho condições para construir o meu espaço, por que não?’”.

Fora do feminismo, a conversa deambulou também pelos meandros do racismo e como este continua ancorado nas ex-colónias; do Afropunk e como este é o extâse da expressão da cultura negra urbana contemporânea; de como um desafio de um amigo a levou a escrever o Elefante Tendai; da literatura africana e de como esta é fundamental para a emancipação da cultura africana dos ideiais ocidentais; entre outros assuntos.

É um podcast de cerca de 48 minutos, onde Eliana despeja a sua racionalidade e sensatez inspiradores e, no final, brinda-nos com sugestões de livros e autores que vão ao encontro da mulher feminista e pan-africana que é.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.