Stélio P nasceu Lúcio Cardoso; em Luanda, vive no Porto, Portugal, é estudante de Economia e é membro do grupo Diversity, que faz parte da nova escola do hip hop angolano. Pela primeira vez, o jovem rapaz de 22 anos, sentou-se com a BANTUMEN para falar sobre o início do seu percurso musical, processo de criação da sua mixtape, inspirações e desejos para o futuro.

E é exatamente de futuro que destacamos em primeiro nesta entrevista. Stélio quer, acima de tudo, “que as músicas em português toquem com a mesma intensidade que as músicas dos norte-americanos e espero poder dar o meu contributo nisso escrevendo o meu nome na história do hip-hop da lusofonia”. É um sonho ambicioso mas alcançável, com muito trabalho.

O rapper começou as suas primeiras experiências ao microfone em 2012 e o seu primeiro trabalho foi lançado no ano seguinte.

Criado no bairro dos Ex-Combatentes, na rua Alameda Manuel Van-Dúnem, até aos seus 17 anos, Stélio depois acabou por se mudar para uma zona mais a sul da capital angolana, no bairro Benfica.

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Desde cedo que Stélio sempre gostou de música. Sendo fã de Michael Jackson, o jovem tinha o sonho de seguir os mesmos passos que o ícone da música pop mas com o passar do tempo foi desistindo dessa possibilidade, motivado pelos pais. Afinal, todo o angolano, ou pelo menos a maioria, acredita que um cargo estatal para os filhos é assegurar um bom futuro. Stélio acabou por se formatar à norma e acabou privado do seu sonho. Até se aperceber que os seus sonhos têm vontade própria. Em 2018, voltou a pegar num microfone. “Agora pretendo levar a música, especialmente o rap mais a sério”, confessou o artista.

Na sua família, Stélio não é o único que tem ligação à arte. O seu irmão mais velho, Tchev Patrão, é cantor e membro do grupo Flava Sava. Foi o seu grande influenciadr: “punha-me a ouvir NGA, Reptile, Abdiel, Kid Mc e outros”, disse-nos.

Os irmão sempre tiveram uma “relação muito fixe” e Tchev acabou por se tornar naturalmente um mentor. Mas a troca de conhecimento era mútua. “Mostrava-lhe as minhas músicas e eu dava-lhe algumas luzes”.

Há quase três anos, isto em 2017, surge a proposta por parte do seu amigo Ney Noody de criar um grupo. O objetivo era juntar artistas de diferentes estilos, desde o kuduro ao afro swing, e até artistas plásticos, designers e fotógrafos. O nome surgiu de forma orgânica: Diversity.

Além de Stélio P, o grupo é composto pelo líder Ney Noody, co-fundadora Tucaiana Cristóvão, Miro “O Fofuxo” e pelos artistas Júnior Stény, Ruben Xtraga, Daley Shine.

No dia do seu aniversário, 19 de dezembro, o rapper lançou a Monografia: Fruto Disto, que é uma exposição do seu percurso.

A Monografia: Fruto Disto teve a duração de gravação de quatro meses. Durante este tempo, Stélio foi trocando de músicas e novas ideias foram surgindo. “Praticamente perdi mais tempo a procurar instrumentais do que a gravar músicas”, frisou o artista.

A capa teve “os dedos mágicos” de KeyB. Estea mixtape transmite tudo o que o rapper já consumiu musicalmente, que lhe inspirou e motivou a cantar, mas com a sua impressão digital. Tchev Patrão é também uma das figuras chave deste projeto.

Na parte técnica, a masterização e mistura foram feitas pelo próprio artista, BiDU, Patrick Drrroy e Júnior Stény.

A necessidade de ver tudo a sair exatamente como ansiava levou-o ao perfeccionismo. Na véspera da gravação da última música, na altura em que ia começar a gravar, algumas músicas não soavam como queria e então foi-se tornando irritante, mas no final, deu tudo certo”.

A mixtape é constituída por 13 faixas e tem as vozes de Daley Shine, Léo Stunna, FreshLife, BiDU, Júnior Stény, Ney Noody e Tchev Patrão.

Quanto ao movimento na música rap, o rapper disse que conhece mais “rappers angolanos do que portugueses”. Uma das intenções do artista é começar a “marcar território” na cidade do Porto que, segundo Stélio tem muitos bons rappers.

Quem é ouvido claramente que também ouve, e com Stélio não é diferente. O rapper tem consumido mais Wet Bed Gang, Plutónio, Bispo, Força Suprema, Deezy, Monsta e ToyToy T-Rex por parte de Portugal e TRX Music, Mobbers, Flava Sava, Projecto X, Phedilson, CFK, Elenco de Luxo, Abdiel, Diversity e tantos outros de Angola. Da cena internacional, acrescentou “inspiro-me no J.Cole e tenho seguido muito Rashid que é do Brasil”.

Sobre o que é ter sucesso, “para mim é quando conseguimos atingir as metas que traçamos, sejam elas a curto, médio ou longo prazo. Mas quanto ao lado mais sentimental acho que é mais quando conseguimos criar um impacto positivo na vida de alguém, fazer a diferença de alguma forma”, exprimiu.

Em 2020, para já, Stélio quer “fazer o vídeo de quatro músicas: “Criei Luzes”, “Rap”, “We Litty” e o “Rockstars”.

Ouve abaixo Monografia: Fruto Disto, disponível no SoundCloud.

Carrego a cultura kimbundu nas veias. A minha angolanidade está presente a cada palavra proferida. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O meu mantra é "o conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, portanto, não seja recluso da ignorância".