Cinco da manhã. A essa hora a minha mãe já está pronta para sair de casa. É nesta altura do ano (Inverno) que lhe custa mais, sempre. Já não tem 20 anos. Está a caminho dos 50, os ossos já lhe doem, sente-os, muitas vezes, a quererem fraquejar. Mas não pode. Tem uma casa e uma família para sustentar.

Arranja-se, põe-se bonita e o casaco tem de ser pesado para aguentar o frio da madrugada. Lá vai ela, pontual para apanhar o primeiro autocarro – a Rodoviária que passa na Apelação às 5h30 da manhã. Às seis e pouco começa a sua rotina. Limpa o chão, desinfeta as mesas dos escritórios, os teclados, os ratos e os computadores. Doem-lhe as costas, mas não se pode dar ao luxo de prestar atenção à dor. Quando batem as dez horas no relógio, acaba o serviço e sai num ápice para começar como ajudante de cozinha num restaurante, onde já trabalha há mais de 15 anos.

Na correria de um trabalho para o outro, muita vezes, esquece-se das suas coisas, como telefone, roupa e até mesmo o passe. Mas voltar para trás pode dar azo a um atraso, que pode custar-lhe uma repreensão ou um despedimento.

É esta a vida da maioria das mães africanas em Portugal, de muitas mães imigrantes no geral.

E há exatamente um ano, no dia 20 de janeiro 2019, falávamos da agressão de agentes policiais a uma mulher, no bairro da Jamaica, Seixal. Uma mãe que cujo crime cometido foi tentar proteger um filho de ser ele próprio agredido. Não importa as circunstâncias que levaram ao ato. É um ato inato, uma mãe corre sempre em socorro do seu filho. Nada foi feito quanto à agressão a essa mãe, além de um beijinho do Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa.

Não houve um pedido de desculpas, não houve medidas efetivas do governo para prevenir e atuar contra o racismo sistémico e institucional existente em Portugal. O caso foi-se arrastando para a borda do prato, como se de um legume estragado se tratasse. #DesculpaMãe

Passou um ano e voltamos ao mesmo.

Passou um ano e Cláudia Simões foi agredida por um agente da Polícia de Segurança Pública, na Amadora, por causa de um passe.

Era domingo, Cláudia Simões, a filha e um sobrinho estavam à espera do autocarro para voltarem para casa. Ao entrarem no autocarro, o 163 da Vimeca, aperceberam-se que Vitória, a filha de 8 anos, tinha-se esquecido do passe num outro casaco em casa.

Para Cláudia, essa viagem terminou com um rosto desfigurado, os olhos inchados e o lábio arrebentado. A sua versão da história foi replicada pelo jornal luxemburguês Contacto, que entrevistou Cláudia no dia seguinte ao acontecido. “Nós entrámos no autocarro e quando a minha filha viu que não tinha o passe com ela, o motorista disse para sair. Eu respondi-lhe que ela tem o passe e que quando chegássemos ao nosso destino que o meu filho ia lá estar com o passe da menina”, explicação essa que o motorista não aceitou.

Ora vejamos. O governo do primeiro-ministro António Costa disse sim à criação do passe único, nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, o que consiste em crianças dos 4 aos 12 anos (inclusive) terem direito a transporte gratuito, desde que sejam titulares do cartão Lisboa VIVA com perfil Criança. Vitória, efetivamente, não tinha o seu título de transporte consigo, logo estava em incumprimento. O motorista foi avisado de que este seria apresentado no fim da viagem. O filho de Cláudia ia ter com elas à paragem de destino com o passe da irmã. O bom senso do motorista poderia tê-lo alertado para três opções: a) levar a família até ao destino e verificar o devido título de transporte à chegada; b) negar o acesso ao transporte público considerando a falta de título válido; c) solicitar o pagamento de um bilhete.

De acordo com o sobrinho, Gerson, com quem a BANTUMEN falou, o motorista exaltou-se e começou a ofender quem estava no autocarro. “Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Estamos fartos de vocês. Vão embora para a vossa terra”.

O destino de Cláudia era a última paragem, no Bairro do Bosque. Chegados, o condutor saiu disparado em direção a um polícia que estava ali perto e foi a partir daí que tudo descambou. Foi-lhe exigida a identificação. Cláudia respondeu que não tinha feito nada de mal. “Vais para a esquadra comigo”, terá dito o agente. E depois é o que se vê nos vídeos que já circulam na Internet.

Cláudia foi brutalmente agredida pelo agente da PSP. Foi “utilizada a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”, explicou o órgão público de segurança. Mas segundo Cláudia, “ele [agente] agarrou-me, fez um mata-leão e caiu comigo de costas”, Cláudia tentou resistir à brutalidade da interpelação, enquanto sufocava e pedia socorro ao sobrinho que nada podia fazer. “Ele vai-me matar”.

Isto, enquanto ouvia a filha Vitória, de fundo, gritar “não mate a minha mãe, por favor”. Cláudia assumiu que mordeu realmente o agente. Porque o mesmo a estava a sufocar e ela pensava que ia morrer.

Vitória tem 8 anos. Alguém imagina o impato que esta cena vai ter na sua vida? De que forma Vitória vê, e passará a ver de agora em diante, estes Polícias de Segurança Pública, cuja missão é servir, defender, cuidar?

Na reportagem “Racismo à Portuguesa”, do jornal Público, podemos ler que os magistrados e outros agentes do sistema judicial reconhecem que há duas justiças em Portugal. Uma para negros e outra para brancos. E que a discriminação racial na justiça traduz-se em outros aspectos factuais. “É preciso menos provas para incriminar um negro”, porque “há uma desconfiança inicial em relação ao negro que não há em relação ao branco”. Em geral, a justiça é “mais dura em relação aos negros”, explicou na reportagem o procurador e investigador Alípio Ribeiro.

Com isto, quero dizer que sim. Portugal é um país racista, a diferença é que esta “condição” está guardada em anexo. Não está à vista de todos. O racismo é ensinado de forma camuflada, assim como o preconceito, xenofobia e homofobia. Começa em casa, pelos valores e educação que são transmitidos. Passa para as escolas e chega à vida adulta, impune.

E assim, vemo-nos chegar a situações como o que aconteceu na Amadora, com Cláudia Simões.

Na comunicação social lemos títulos como “Mulher terá agredido polícia após problemas em autocarros”. O texto, esse, é uma acusação deliberada e premeditada das forças de segurança e do órgão de comunicação que o publicou, a TVI, prevendo o julgamento público deste caso.

Transcrevemos:

 “A cidadã, de imediato e sem que nada o fizesse prever, mostrou-se agressiva perante a iniciativa do Polícia em tentar dialogar, tendo por diversas vezes empurrado o Polícia com violência, motivo pelo qual lhe foi dada voz de detenção. A partir desse momento, alguns outros cidadãos que se encontravam no interior do transporte público tentaram impedir a ação policial, nomeadamente pontapeando e empurrando o Polícia”, descreve a direção nacional. 

“O Polícia, que se encontrava sozinho, para fazer cessar as agressões da cidadã detida, procedeu à algemagem da mesma, utilizando a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”, descreve.

Ora, se a detenção foi devida, por que motivo “outros cidadãos que se encontravam no interior do transporte público” tentariam impedir a ação policial? Estariam de conluio com Cláudia? Por causa de um passe esquecido?

E, como é que se passa de um momento em que Cláudia é agredida com um mata-leão, para o momento em que sai da viatura da polícia com o rosto desfigurado? Algemada, dentro da viatura, uma senhora, de meia-idade tentou agredir os polícias, que lá dentro se encontravam, de tal maneira que não havia outra forma de conter a alegada agressão senão violentado-a com tamanha brutalidade?

Tem de haver um basta. Até quando nós, enquanto sociedade, vamos fechar os olhos? Até quando, se vai permitir que portugueses sejam considerados de segunda categoria? Até quando o governo vai permitir que pessoas sejam tratadas desumanamente de forma tão escancarada? Até quando vamos continuar a ter uma força de segurança pública despreparada psicologica e fisicamente? Até quando vamos deixar a selvajaria continuar, sem chamar à praça pública os responsáveis pela criação de medidas efetivas que impeçam a descriminação de cidadãos não brancos proliferar?

Podia ser a minha mãe, podia ser a tua mãe. Passou-se um ano e nada mudou. Só o cenário onde foi feita a agressão.