“Gosto muito das músicas que o Deejay Telio faz, são todos hits”, parece uma afirmação de um exame básico de português ao qual tens de responder onde está o verbo, o complemento direto e o sujeito, mas não. É apenas o que se lê nas redes sociais do autor de “Que Safoda”, “Happy Day” ou “Não Atendo”.

Desde 2015 que faz músicas que se tornam hinos de muita gente, festas e convívios. Do Vale da Amoreira para o resto de Portugal, do norte ao centro, até ao sul. Das grandes cidades para as pequenas aldeias, com passagem duradoura nos bairros, onde as comunidades africanas são grandes e ouvem em maioria as músicas que este artista faz. Hoje o seu público é variado, está além de Portugal, e os concertos que dá são de extrema energia, paixão e dedicação, junto dos seus.

Telio tem apenas 23 anos mas faz a festa como gente grande e como deve ser. A próxima é já no dia 5 de março. É o seu primeiro grande concerto, numa das casas mais emblemáticas de Lisboa, no Coliseu dos Recreios. Um dos motivos pelo qual quisemos falar com Telio e convidamo-lo a encontrar-se connosco nos estúdios da FLUX, para não só o entrevistar mas também para conversar, conhecer quem é Telio Monteiro para além das músicas e dos videoclipes.

Era cedo, por volta das 17h, quando o Deejay chegou aos estúdios. Vinha acompanhado por um membro da SAF (Somos a Família). Começaram as filmagens aquando da sua chegada, paralelamente com a arrumação da sala, onde o jornalista Eddie Pipocas e eu – Wilds Gomes – já nos encontrávamos à espera que o artista entrasse. Primeiro de mão aberta, seguiu-se o punho cerrado e depois um abraço, o típico cumprimento de irmão para irmão.

Eddie Pipocas & Wilds Gomes
Eddie Pipocas & Wilds Gomes | Fotografia de Pedro Silva/ BANTUMEN

Em off falamos de tudo e mais alguma coisa e a hora de começarmos o podcast já se aproximava. Os microfones e câmaras foram ligados e demos início a este que seria um podcast especial, entre o concerto no Coliseu, novo álbum e um pouco da sua vida. Telio não gosta de falar de si, muito menos de entrevistas, e menos ainda de quem lhe “bate o coro”. Então deixamos a conversa fluir, como três amigos sentados na esplanada de um café.

Neste momento em que estás a ler este texto, já só faltam sete dias para o grande concerto, com convidados como Deedz B, Bispo, David Carreira entre outros. É algo grande, assim como o sentimento que o artista sente. “Ya mano é uma cena bué big um gajo não estava à espera. Se me perguntasses isso há cinco cinco anos quando o “[Que] Safoda” explodiu, é claro que nunca te iria dizer que ia pisar uma cenas dessas e ainda por cima em nome próprio. Deves ter noção da ansiedade toda que um gajo está sentir”, confessou.

Já se passaram cinco anos desde que o seu primeiro hit se tornou hit. “Que Safoda” já conta com mais de oito milhões de visualizações no YouTube. Parece que Telio sabe a forma perfeita para fazer bengas, como diz o artista angolano Preto Show. Só acontece quando existe uma “boa vibe no estúdio, junto da rapaziada”, que só ouvem as músicas depois de estarem feitas. ’’Prefiro gravar sozinho, porque sinto mais liberdade. Depois da cena tar pronta, sento a rapaziada no estúdio e a gente vive ali [a música]’’, explicou-nos.

São 11 faixas que compõem o D’Ouro, primeiro álbum do artista e que vai ser apresentado no concerto. O projeto transmite a atitude e confiança de Telio, não fosse o título uma predição do que com ele irá ganhar. “Resolvi transmitir a confiança ao people. Não pensei muito no nome, foi apenas pelo facto de me sentir confiante (…) e quis mostrar às pessoas que estou a intitular algo que ainda não é. Caso o álbum chegue a platina, lanço logo um novo projeto. Mesmo que não seja ouro ja o é para mim, é motivador fazer algo em que se acredite muito. Tu sentes o que fizeste, mesmo que não venha ser [Disco de Ouro], o projecto [para mim] já é.”

O processo criativo do álbum é um trabalho de família. Foi todo construído por amigos chegados que acompanham o artista desde sempre, como Leno Beatz, melhor amigo que mistura as suas músicas e Zimous, responsável pela masterização.

As faixas foram nascendo na cabeça de Telio, sozinho, em casa. Acordava e apenas fazia música. “Desse álbum fiz por aí 30 músicas. Engrenar com aquilo que estava idealizado na sua cabeça não foi fácil. “Comecei e achei que não tinha nada a ver comigo. Estava só a fazer por fazer. Demorei três meses a fazê-lo e vi que não tinha nada a ver comigo, estavam até fixes as músicas. Mas não era só porque estavam fixes que eu ia lançar. Tem de ter algo a ver comigo.” Então, apagou tudo, deixou a intro e lançou-se de novo ao trabalho.

Quem começa com “Safoda”, vai ser sempre safoda

Muitas das vezes as músicas que faz e compõe não são sobre ele nem de episódios da sua vida, são pensamentos e imaginações que ganham vida e voam da sua cabeça para o papel e depois para o microfone e colunas, acompanhadas por um instrumental com um BPM ora mais acelerado ora mais lento. Estrutura a sua música de forma diferente, começa do fim para o início: refrão, pré-refrão, primeira parte da letra e depois o final.

E sobre o cuidado que deve ou não ter com o conteúdo dos seus projetos, Telio pensa nisso mas garante não existir censura dentro da sua label. “Porque quem começa com “Safoda”, vai ser sempre safoda“. Contudo, “estamos aqui a fazer música bué abertamente, mas um gajo pára e pensa que tens crianças de seis anos a ouvir. A mente ainda é pequenina. Então comecei a ter mais atenção, até nos vídeos. E expor [por exemplo, imagens explícitas nos videoclipes] não é também a minha cena.’’

Deejay Telio
Deejay Telio | Fotografia de Pedro Silva/ BANTUMEN

E por falar em maturidade, surge o tema “RATA”. O single foi criado em 2017 e só muito recentemente veio a público. Hoje, provavelmente Telio não a teria lançado. Só aconteceu porque “vazou na net”. Depois de ter enviado informalmente a música no WhatsApp para os membros do Tia Maria – grupo de produção de Telio – Dani Fox integrou-a num set durante uma festa. Sem saber, alguém gravou esse set diretamente da mesa do DJ. Depois de se tornar quase viral em Angola, Telio decidiu que mais valia assumir e integrou-a nas suas contas de streaming oficiais.

O seu maior objetivo não é fazer músicas que vão “bater”. Primeiro faz pelo amor que sente pela música e ele tem de ser o primeiro a gostar, seguindo-se o pessoal que está à sua volta. “Faço música para mim. Primeiro temos de nos agradar a nós, em todas as situações. Eu primeiro gosto e depois sai. Se eu deixar de sentir o som, não sai”, explicou-nos.

A importância que a SAF tem na sua vida é imensurável. Em família criaram o que é hoje uma label, onde a música é a alma do negócio. Criado por rapazes que vieram do bairro com os olhos postos no mundo e com fome de vencer. Apesar da SAF ter sido criada em meados de 2015, o espírito empreendedor de Telio como dos restantes só veio em 2017, quando sentiram que a musica que faziam circulava Portugal inteiro. Com isso vieram outras responsabilidades. Tentavam pensar sempre entre um a cinco anos à frente, para que ninguém voltasse às “vidas normais”, tiveram de se focar e posicionar num lugar onde a união fosse a base. Seguram-se uns aos outros e trabalham em conjunto para fazerem as coisas acontecer, e “trabalhar como uma empresa e não só como amigos”.

No dicionário de Telio não existe a palavra “desistir”, a vontade de correr atrás e de estar adiantado no tempo, deixa-lhe satisfeito com o que está a alcançar. O facto de ter artistas africanos que vivem ou sempre viveram em Portugal, com quem trabalhou ou não, a caminhar na mesma direção, do sucesso, deixa-o feliz. Porque a história da vida é parecida, o sangue, suor e lágrimas são os mesmos.

Quando mais jovem, não tinha grandes possibilidades para ir a festivais. Hoje em dia já pisou palcos onde nunca pensou ir. A música abriu-lhe portas que lhe dão uma visão mais ampla da vida e a vontade de almejar mais. Sente que ainda há mais para acontecer e que a adaptação no mundo da música é importante e necessária. Porque, “no dia em que pensar que estou no auge da carreira, vou cair”, explicou. Portanto, estando há cinco anos no topo das tabelas de música em Portugal e no YouTube, garante que ainda não está no ponto mais alto da sua carreira.