Tal como dizia Beethoven, “a música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia”.

Quando somos mais novos, a família acaba por ser o primeiro veículo de histórias, estórias e emoções ligadas à música, que ficam vincadas na nossa memória.

RGP, Reginaldo Garcia Pires, é mais uma confirmação dessa premissa.

O jovem rapper kaluanda [nativo de Luanda] nasceu no final dos anos ’90, e cresceu no bairro do Prenda.

Assume-se como um grande amante de música desde cedo. O tio, irmão mais novo da mãe, na altura era DJ e fazia ensaios em casa constantemente. Entre mixs de semba, kizomba e outros estilos, RGP acabava por memorizar as canções que ia ouvindo.

RGP
RGP |Imagem Divulgação

Com o passar do tempo, “algo mais forte que eu levou-me a consumir músicas de rap”. Começava assim uma cruzada entra os beats e rimas de Abdiel, Ready Neutro e MCK, que para o fã, e agora também rapper, são “ícones do rap angolano”.

Os primeiros passos num estúdio aconteceram quando se juntou a um grupo, de amigos, entretanto dissolvido. RGP sentiu que o seu talento podia leva-lo longe.

Esse fator aliado à curiosidade que a música despertou em si, fez com que começasse a a explorar, de forma autodidata, alguns softwares de produção musical como Cubase e FruitLoops Studio. Estes passaram assim a ser os melhores “amigos” do rapper.

Entretanto, “a dinâmica de trabalho do grupo não combinava” com a sua e optou por fazer-se à estrada szinho. “Tinha que me explorar mais”, explicou-nos. RGP usou o seu próprio talento como motivação, acreditando que “tinha muita coisa para dar sozinho”.

A manifestação musical é uma das formas mais populares, complexas e ecléticas de expressar pensamentos, visões e opiniões, e é exatamente dessa forma que RGP usa a sua música. Para transmitir as suas experiências.

Agora a viver em Portugal, o artista já conta com três mixtapes e dois Extended Plays lançados. Desde que começou a trabalhar a solo, ainda não colaborou musicalmente com outros artistas mas gostaria de uma dia vir a fazer algo com G-Son, Dji Tafinha e Toy Toy T-Rex, que admira.

RGP
RGP |Imagem Divulgação

A mudança para terras lusas deveu-se a necessidade de procurar melhores condições de estudo, além querer reatar contacto com a sua família paterna. “Cresci afastado deles por longos anos”, disse.

Actualmente, em carteira tem o projeto “Presságio”, cujos 90% “foram gravados em França e apenas uma música e quatro telediscos foram feitos em Angola”.

O EP conta com a voz de Rodrigo One e a captação, produção, mistura e masterização do próprio RGP. Na parte audio visual, o rapper teve a “mão” de Fábio Gricelly, tendo revelado que já trabalham “juntos” há muito tempo e que o “entendimento é mútuo”.

Diz o jovem artista que pretende se “formar em algo que gosto, viver da música e posteriormente abrir um negócio”, fazendo assim um presságio próspero para a sua vida. Contudo, sobre o sucesso, Reginaldo acredita que “ter números altos não significa ter sucesso. Sucesso é tocar em cada pessoa que te ouve”.

Carrego a cultura kimbundu nas veias. A minha angolanidade está presente a cada palavra proferida. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O meu mantra é "o conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, portanto, não seja recluso da ignorância".