Hoje em dia é quase impossivel passar na rua e não olhar para o que as pessoas têm calçado. Cores gritantes, padrões que captam essências ou culturas, designs arrojados sem medo de se afirmarem no mundo dos sneakerheads marcam as tendências atuais.

A possibilidade de personalizar ténis ou criá-los de raiz, tornando-se pares únicos, possibilitou que muitas pessoas tenham acesso a pares exclusivos, alguns comparados e destacados como obras de arte, vendidos em leilões a preços exorbitantes.

Nesta demanda, Taoheed Bayo, um estudante de 21 anos, nigeriano, decidiu criar um modelo para a Nike, um modelo que o possibilitasse de se aproximar mais das suas raízes e da sua juventude. Daí nasceram os Afro-Yute Air Max 1.

Tudo começou quando um colega de quarto de Taoheed, na Universidade de Minnesota, EUA, sugeriu que o mesmo participasse no desafio de design da Nike em 2019 (Nike BY You X Cultivator). No concurso, a Nike divulgou que estava à “caça” de designers, onde dava a oportunidade de o participante criar um modelo único de um dos seus ténis mais clássicos e vendidos, os Air Max 1.

Bayo não perdeu tempo e participou. Semanas depois, o modelo criado e inpirado pela sua cultura nigeriana e afro, encontrava-se entre as três dezenas do país escolhido para competir no concurso. Os ténis remontam a sua juventude na Nigéria e é baseado na herança e nos valores que herdou. Para além disso, Bayo quis mostrar, através das cores do “Afro-Yute Air Max 1”, a sua África.

“A parte mais intensa, foi o design. A parte mais integral que eu acho foi ter uma história que se identifica com a história de muita gente [africanos] e garantir que seja a mais autêntica possível. Mas também tentei criar uns ténis que todo o mundo comprasse, que não fosse algo apenas para gostar e ver.”

As cores que contemplam os Air Max 1 são o verde para a base do ténis, porque representa a terra e a África, o branco para contrabalançar de uma forma mais suave, em homenagem ao país que viu Fela Kuti crescer, Nigéria. No seu todo, os Afro-Yute são sem sombra de dúvida, de acordo com o seu criador, “uma homenagem à história de ouro na África”. Bayo escolheu materiais como o couro e camurça, materiais que considera representarem a tenacidade dos afrodescendentes.

“O couro dura mais tempo e é metafórico pelo facto de que, nós africanos, podemos suportar muita coisa. Nós duramos muito. É quase como se pudéssemos suportar o tempo. Podemos nos adaptar e suportar várias e numerosas situações”, explicou Bayo.

“A África é o centro do mundo, não somos um terceiro mundo. Os Yutes agora estão equipados para combater o sistema ‘alienígena’ que atormentou os nossos ancestrais. Desde que nasci, sempre se referiu a África como um continente do terceiro mundo ou um ‘país’ do terceiro mundo”, acrescentou.

Através da criação dos Yute, Taoheed Bayo quis que fosse um processo educacional tanto para ele como para quem os comprar. “O projeto ajudou-me a construir conexões entre os afrodescendentes. Consegui através dos ténis construir uma equipa diversificada de criativos que incluía fotógrafos, videógrafos, modelos e poetas – para promover a venda e a mensagem dos Afro-Yute”.

O seu esforço produziu um mini-documentário, que contou com a presença de vários jovens afro-americanos do estado de todo o Minnesota e correu todo o país. Após o lançamento do modelo, em finais de 2019, Bayo, agora só pensa em terminar a sua licenciatura em Ciências Atuariais, um estudo que combina matemática, estatística e seguros.

Por enquanto, o criativo está mais preocupado com que os jovens aprendam sobre a sua história e conversem com seus pais sobre os ancestrais da família. “Para todas as pessoas que nasceram nos Estados Unidos, o seu dever, quer gostes ou não, tens de ir em busca da tua verdade e, aí encontrarás a tua herança”, conclui.