Foi por volta do ano de 1600 que o marquês de Altamira (Mexico), Pedro Sánchez de Tagle, deu início à produção em massa de Tequila, ao criar a primeira fábrica no estado de Jalisco. Para os menos familiarizados com as bebidas alcoólicas, Tequila é uma bebida destilada feita da agave-azul, primeiramente na cidade de Santiago de Tequila, no estado mexicano de Jalisco, a 65 quilómetros a nordeste de Guadalajara.

Mas não, este artigo não é apenas sobre bebidas. Isto foi apenas uma pequena introdução para te apresentar Telmo Galeano, mais conhecido como Tekilla, sem álcool, mas como muita estrada e história no mundo do Hip Hop tuga, sendo ele figura incontornável deste movimento nacional.

A década de ’90 foi um marco para Tekilla. Foi nessa altura que os seus ouvidos começaram a sentir o que é rap e música no seu todo, desde LL Cool J, Sade, De La Soul, Public Enemy, Doctor X, entre outros. Foi com o seu primeiro CD comprado dos Wu-Tang Clan, Enter The 36 Chambers, que decidiu que a música e as rimas iam acompanha-lo para o resto da sua vida, quiçá fazer carreira.

Tekilla / Foto: BANTUMEN
Tekilla / Foto: BANTUMEN

Em 2004, Tekilla deu-nos um pouco de Tekillogia, anos mais tarde A Preview (2009) e, confessou a todos em 2013 que tinha feito o Erro Perfeito. Agora, sem que ninguém pudesse esperar, Killa quer brindar todos os seus fiéis com um novo projeto de originais, intitulado Olhos de Vidro. Ainda sem data certa de lançamento, o projeto já conta com singles nas streets, como “Sintonia” e “Fuck You”. Este é o mote de mais um episódio da #BANTUMENPodcasts.

Numa altura em que Telmo se sente mais pleno, mais equilibrado e mais focado que nunca, foi a altura certa para nos sentarmos com ele e conversamos sobre o seu novo álbum, carreira, da sua vida e das suas crenças.

Olhos de Vidro, o seu quarto projecto, acaba por ser um trabalho eclético, mais maduro e musical. Para além da maturidade e responsabilidade que carrega este LP, existe um lado muito experimental a nível musical, onde Killa trocou as participações de rappers por outro tipo de músicos, desde professores de música, saxofonistas, trompetistas e violinistas. São os olhos que estão mais abertos que nunca, com uma sonoridade mais ampla que carrega anos de experiência, onde a música se vai fazer sentir.

Antes do nascimento de Olhos de Vidro, o Pai Deles Todos já estava a ser cozinhado, que Tekilla deixou a meio para abraçar por completo um novo projecto, juntamente com Fred Ferreira. “O Fred vem de um meio alternativo e eu com um conceito dos ’90 para criar um som, desenvolver uma sonoridade (…) algo que hoje em dia se perdeu um bocado. Os álbuns, hoje, soam um bocado a compilação, e eu não queria fazer isso. Eu sou uma boa pessoa a fazer álbuns, consumo álbuns, sou um consumidor nato”, explicou-nos.

Em paralelo com a música, Telmo coleciona sneakers e música, auto-intitula-se de nerd nesse aspecto. E isso mostra a sua paixão pela fisicalidade das coisas, um dos objectivos que o levaram sempre a criar música que pudesse ser consumida não só online mas de forma física, devido a toda a informação que carrega.

“Ter o formato fisico é completamente diferente de teres o download de uma coisa (…) eu gosto de abrir o álbum, ter aquela tusa

Recentemente, assinou com a editora inglesa, Barely Breaking Even Records, responsável por artistas como Will I am, Madlib, Jay Dilla, Boddhi Satva, entre outros. Telmo confessou-nos que sentiu uma necessidade de assinar com uma editora de fora, devido à falta de sonoridades no panorama musical português e à falta de comunicação que a música deixou de ter. A forma e formato que tem de ser partilhado para a indústria ou para o público, tem de ser feito de forma sólida, com uma equipa que esteja presente para fazer a comunicação chegar a todos. E foi na BBE onde mais se identificou, e eles com a música que Tekilla faz.

Nós, enquanto BANTUMEN, tivemos a oportunidade de ouvir o álbum antes de estar nas ruas, e podemos concluir que é um Tekilla mais atual mas com partículas que nos levam ao álbum Tekillogia. A mensagem que quer passar com essa nova assinatura numa label, onde existem pessoas com mais experiência e que conseguiram captar a sua essência e som, mais o seu novo trabalho é um recordar que, no rap, a mensagem pode ser passada de variadas formas e com um conteúdo diversificado. A cada faixa ouve-se um Killa, sem medos, pudores, sem filtros, mais exigente e determinado e com vontade de se expressar, perante todos.

E percebe-se isso no singleFuck You“, um desabafo aberto que grita e fere os ouvidos de quem o ouve. A mensagem é clara, é uma reflexão das experiências, vivências e do quotidiano de Tekilla. É um soco na cara das pessoas que falam mais do que fazem, das que opinam mas não conseguem fazer melhor. É uma música que pretende que quem a vá ouvir apenas se limite “a consumir a essência que já está a escassear” e onde o achar não faz chegar a lado nenhum.

O achar nunca foi certeza de nada

Wilds Gomes & Tekilla
Tekilla / Foto: BANTUMEN

O facto de ter a história que tem e vir de onde vem, dentro da música, Telmo consegue ter uma visão mais ampla do panorama musical que se tornou grande neste pequeno Portugal. “Mas, nem tudo que reluz é ouro”, já dizia Augusto Branco, pseudónimo de Nazareno Vieira de Souza, escritor e poeta brasileiro.

Devido à amplitude que a música, principalmente o Hip Hop ganhou, a nível nacional, não o faz melhor, porque os novos rappers “querem resultados imediatos, que muita das vezes derivam de uma má formação [musical] num panorama onde há muita réplica”. Um dos motivos pelos quais Telmo evita cantar ou colaborar com muitos, é porque os likes, as views passaram a ser primário do que o próprio talento ou skill. Tekilla quer fazer música sem que a Internet seja um factor importante, que seja o motor necessário para conduzir a sua música, apesar de querer que a sua música chegue a massas, rádios e festivais.

As visualizações não lhe dizem nada, o social media tornou as pessoas mais followers do que líderes, onde a essência das coisas passou a ser secundária e “demasiados putos com muita informação” são o que mais chama atenção. Killa tenta ao máximo fugir de tudo o que se pareça igual ou uma cópia, desde ao seu estilo de vida, roupa à música, tentando posicionar-se num patamar diferencial.

“Eu sou a pessoa que no rap gozavam por ter um cenário assim. (Risos) ‘Lá vais tu para ao pé dos papeleiros no Moda Lisboa’, mas depois, passado um tempo, pediam-me convites para o Moda Lisboa.”

A sua forma de vestir acontece enquanto pessoa viajante. Ver o que se vestia lá fora e o acesso a várias marcas e estilos tornara-no no que é hoje, alguém que facilmente conjuga o seu lifestyle de business man e rapper.

A minha base a nível de style é nunca me limitar e nunca fazer-me de ridículo

Tekilla / Foto: BANTUMEN
Tekilla / Foto: BANTUMEN

Telmo está também numa fase da vida onde sente que é necessário, cada vez mais, a troca de afecto entre as pessoas e principalmente entre os artistas, porque para ele o reconhecimento e amor não podem vir depois da morte. Tem de se mostrar enquanto se está vivo. Porque o contributo que o mesmo dá a cultura, é notório.

Como também a necessidade de falar e debater sobre temas sensíveis na sociedade, como o racismo, ao qual Telmo mostra ser um ‘sem papas na língua’. “Não é a palavra racismo que vai mudar alguma coisa, é o comportamento, posicionamento e a mentalidade em si.”

Uma questão é ser negro e outra questão é ser pro-negro. E eu já sou um pro-negro

Tekilla é nascido e criado em Portugal, com origens africanas, mais precisamente angolanas. Sempre sentiu o racismo na pele enquanto crescia em Lisboa, onde sempre mostraram que a cor da pele é mais importante e que o caracter e que as oportunidades são dadas pelos brancos.

Realidade essa que Telmo Galeano quis mudar desde sempre. Não esperar pelas oportunidades mas cria-las, de forma a não depender de ninguém e que a cor da pele não fosse fator eliminatório nas suas conquistas. Ao “ter outro tipo de posicionamento, visibilidade e destaque, não fiquem à espera que Portugal vá ver isso com bons olhos.”

Desmistificar esses conceitos, defender os seus direitos no aspecto da cor e de raça, cabe também ao artista, da forma que lhe for mais conveniente e nas plataformas certas para alcançar o maior número de pessoas. Algo que Tekilla faz, sem filtros, e sente que os outros não o fazem, ou poucos o fazem, com medo das represálias, que lhes sejam tirados certos privilégios. No seu ponto de vista, é preciso descobrir formas de canalizar essa raiva e fazer algo positivo com ela.

Abaixo tens a entrevista na íntegra, que acabou por não ser só uma entrevista, mas uma conversa, uma aula, uma história.

Relembramos-te que a BANTUMEN disponibiliza todo o tipo de conteúdos multimédia, através de várias plataformas online. Podes ouvir os nossos podcasts através do Soundcloud, Itunes ou Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis através do nosso canal de YouTube.