Agé Penelas: “Espero para ver o que o futuro já reservou para mim

Convidado para dar "um salto" no estúdio da BANTUMEN, em Lisboa, tentámos perceber mais sobre o artista e os seus planos na música.

Agé Penelas é um jovem trapper angolano, residente em Lisboa, Portugal, mas que nasceu em Pretoria, na África do Sul.

Estivemos a ouvir a sua pequena discografia no Soundcloud e vários singles nos chamaram a atenção, como “Luanda Fornication”, que já foi ouvido quase 30 mil vezes, “Melaço” com participação de Tio Edson e, mais recente, o single “PAPER” com Paulelson.

Convidado para dar “um salto” no estúdio da BANTUMEN, em Lisboa, (ainda antes da quarentena decretada para controlar a pandemia do Covid-19) tentámos perceber mais sobre o artista e os seus planos na música.

Quem é o Agé Penelas?

Isso é uma pergunta difícil e, cada vez que o tempo passa, mais complicada fica, mas de uma forma reduzidíssima, Agé Penelas é um sonho tornando-se realidade, Agé Penelas é o reunir de toda a parte artística do Dagércio Penelas.

Fala-nos resumidamente da tua infância.

Cresci em Luanda, pelo menos até aos meus 13 anos de idade. Passei a minha infância toda em Luanda, no Project Nando na altura… Nunca tive grandes dificuldades na infância, venho de uma boa família, os meus pais sempre estiveram presentes e deram-me tudo o que podiam e por vezes até o que não podiam, ou seja, sempre fui o miúdo afortunado do bairro, ou pelo menos, aquele que tinha mais dificuldades para entender o que os meus amigos passavam. Mas os meus pais sempre deixaram bem claro que não posso tomar tudo por garantido.

Como é que entraste no mundo da música e o porquê?

Tive uma infância estável, mas como em toda a infância, houve algumas dificuldades, e aos nove anos, comecei a ter alguns problemas em expressar o que sentia ou falar com as pessoas sobre o assunto. Estava sempre a arranjar confusão, lutas na escola, lutas em casa. Foi assim que a música entrou na minha vida, o meu primo (o produtor Desconhecido Ambulante), que na altura já fazia beats e gravava, mostrou-me que há mais do que uma maneira de tirar o que tens cá dentro.

Como nasceu a tua primeira música, onde gravaste e qual a história por detrás da mesma?

O meu primeiro som foi um love, “Única Girl”. Foi a altura em que eu tive o meu encontro com o sentimento de amor e paixão. Escrevi sobre o que estava a sentir sobre essa miúda, mas nunca lancei. Quanto ao primeiro som lançado foi “Amor Adolescente”, e foi uma música feita para falar de sentimentos passageiros, que parecem tão intensos mas ao mesmo tempo uma miragem e infindável e, ao mesmo tempo, também temos o sentimento que tudo vai acabar, tudo tem uma data de expiração quando somos adolescentes tentando entender o que é amor.

Como surgiu o grupo ao qual pertencias e quem eram os seus membros?

Era a Malta Pesada. Surgiu na brincadeira e por acaso não estive no início. Eram apenas grandes colegas que começaram a cantar juntos e no final acabaram por se tornar formalmente num grupo. Eu entrei dois anos depois da fundação e, no momento que mais precisei, eles foram o suporte e foi muito importante. Quando entrei estava a passar uma fase de desmotivação e eles meio que revalidaram o meu objetivo e o meu foco. Deixaram de ser apenas amigos e hoje são família, ‘uma vez MP, MP Forever’. Na altura, os membros eram Dg Silva, Elmer Lukeny, Fabio Lukeny, Marco Lemos, Yuri Intensivo, Helder dos Anjos, Marvin Charles, Tersandro de Almeida, Eliandro dos Santos, Etiandro dos Santos.

Que influência têm os rappers angolanos na tua música?

Uma grande influência. Sendo que o meu público é principalmente angolano, eu só fui capaz porque consegui absorver as grandes virtudes de rappers angolanos, como o liricismo do CFK, a variabilidade do Edson dos Anjos, até mesmo a solidez dos OGs como MCK, Kool Klever, Vui Vui, e por aí…

O que te levou a querer construir uma carreira?

A música sempre foi mais uma terapia do que carreira, mas passou a ser um sonho chegar ao ponto em que os meus sons se tornassem terapia também para outras pessoas. E fazer dinheiro a fazer o que amo e ajudar outros a ultrapassarem aquilo que estou a ultrapassar, é a combinação perfeita.

Como quem já trabalhaste e com quem gostarias de trabalhar?

Conhecido nesse meio, já trabalhei com muita gente como o Edson dos Anjos, em “Melaço”, agora o Paulelson, Samuel Classico, Dinas Beach, Varox, Gianni Stalone, MimoFukk, Kermite, CK, Ice Gang.

Pessoas que gostaria de trabalhar são muitos, porque mais do que músico, sou ouvinte também, então pessoas como Paulo Flores, NGA, SamTheKid e curto também do trabalho da YF, Twenty, Johnny Berry, Jovem Dex.

Que tipo de mensagem passas ou queres passar com a tua música?

Eu faço música com feeling, e a mensagem que passo gira ao torno desse sentimento e apenas depende do que estamos a sentir no momento. Para mim é assim, e quero passar um lar, um suporte para aqueles que precisam de se apoiar. Principalmente para a minha geração que se esconde em falsas máscaras, ou qualquer pessoa que sofra de alguma depressão, ansiedade ou algo do género, o importante é ser um suporte para não cair. Ouvir música alivia a dor da queda e dá a força necessária para levantar e continuar.

Existe alguma história que possas partilhar connosco sobre fazeres música em Portugal ?

Em 2018, tirei um curso de mistura e masterização e como trabalho final tínhamos que trabalhar num projeto para aplicar efeitos de música eletrónica.

Decidi fazer um Trap Song misturado com efeitos de musica eletrónica, que não chegou a sair por acaso, e o engenheiro de som falou comigo disse que era algo impossível ou difícil de fazer, e o melhor seria tentar outro estilo musical. Mas trabalhei naquele som, porém, por ter no meu ouvido aquela voz do engenheiro a dizer que era impossível, não estava a conseguir tornar o som perfeito para mim. Não estava a ficar no ponto que eu precisava e quando fui entregar pensei que não fosse passar.

No dia de dar a nota, o engenheiro chegou até mim, agradeceu e disse que eu tinha conseguido provar que o impossível só estava na nossa mente.

Desde então me apercebi que perfeição é algo que só existe na nossa cabeça, é algo criado por humanos, então quando não estás a conseguir fazer algo, muda a tua perspetiva, muda a forma de ver ou tenta ver pelos olhos de outra pessoa.

O que podemos esperar do Agé Penelas depois dos singles com o Paulelson, que está prestes a sair?

Essa é a pergunta que me faço sempre. Eu sou muito critico comigo mesmo, tenho sempre de ser melhor que ontem e estou sempre a perguntar-me “whats next?”. Tenho sons gravados e penso tirar alguns em abril, todavia estou a trabalhar com um parceiro, Kermite, e estamos a preparar uma surpresa em homenagem a alguém que nos é e foi muito importante. Planificar é importante, mas não gosto de pensar em projeções para o futuro, porque vejo que é criar expectativa ou tentar prever. Então apenas espero para ver o que o futuro já reservou para mim, mas seja o que for darei tudo de mim.

Qual a tua opinião no que toca à música feita atualmente na lusofonia?

Penso que, diferente do que muita gente diz, chegou ao momento mais belo em que não tem nada a ver com letra, ou beat, tem a ver com fazer arte, independente dos componentes, desde que tenhas alguém para te ouvir. Vejo, no caso do Hip-Hop, muitos OGs chateados com o sentido que o hip-hop tomou, dizem que não há uma mensagem na ideia que a newschool hoje traz, e eu até entendo. Porém, visto deste modo, se tem pessoas a te ouvirem, é porque tu estás a passar uma mensagem, a questão é que não vai agradar a todos e penso que é uma ideia comum quando digo que “quem está incomodado que se retire”. Ou seja, se não gostares da mensagem de alguém, então não ouve essa pessoa, mas não fiques incomodado por outras pessoas estarem a ouvir.

Ter números altos é significado de que está a bater?

Eu penso que ter números depende muito de quais são os números, mas hoje em dia, faz sentido que os números do stream signifiquem o seu alcance, então sim quem tem números altos está a bater.

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