Enquanto o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, desvaloriza o Covid-19, chegando mesmo a dizer que se trata de uma “gripezinha” e que é “alarmista por parte da media”, os traficantes de drogas das favelas impuseram um recolher obrigatório como medida de prevenção contra a propagação do vírus na sua comunidade.

Nos últimos dias, quando o número de mortes por coronavírus no Brasil subiu para 46, membros de gangues circulavam na favela da Rocinha, imortalizada pelo filme Cidade de Deus, ordenando aos moradores para permanecerem em casa depois das 20h, considerando o impacto que a pandemia poderá vir a ter naqueles que são os cidadãos mais pobres do país.

No final de semana passado, aquela comunidade viu ser confirmado o primeiro caso de contágio de coronavírus. Numa aparente tentativa de evitar novas infecções, os líderes das gangues do Comando Vermelho, que controlam a favela, ordenaram que os moradores ficassem em casa.

Nas redes sociais, circulou um vídeo, aparentemente gravado na Cidade de Deus, onde se ouvia através de um altifalante: “Qualquer pessoa encontrada brincando ou andando por aí fora será punida”.

“Os traficantes estão fazendo isso porque o governo está ausente. As autoridades são cegas para nós ”, disse um morador ao Guardian.

Uma reportagem do jornal do Rio Extra indica que membros de gangues com megafones deslocam-se na zona para alertar os mais de 40 mil residentes: “Estamos impondo um toque de recolher porque ninguém está levando a sério o coronavírus. É melhor ficar em casa e relaxar. A mensagem foi dada.”

Os traficantes avisam que depois das 20h30 ninguém deve sair à rua, caso contrário haverá represálias. “Estou em casa – cheio de medo e com desinfetante nas mãos”, brincou um homem citado pela publicação inglesa.

Em Santa Marta, uma favela perto da estátua do Cristo Redentor do Rio, os traficantes distribuem sabão e colocaram placas perto de uma fonte de água pública na entrada da comunidade que diz: “Por favor, lave suas mãos antes de entrar na favela. “

“Acho que eles escreveram isso para os viciados que vêm aqui para comprar drogas, para que não tragam o vírus”, disse um local. “Mas não vai funcionar”, explica, visto que há pessoas naquela comunidade que chegam passar duas semanas sem água corrente.

Thamiris Deveza, um médico de família que trabalha no complexo do Alemão, disse que os moradores reclamam há duas semanas por falta de água, dificultando a limpeza das mãos e a proteção contra o rápido crescimento do contágio entre a sua população.

Apesar da desvalorização de Jair Bolsonaro, muitos brasileiros têm optado na mesma pela precaução. E mesmo a partir de casa protestam diariamente com “panelaços” (bater panelas) à janela.

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