Welket Bungué é, atualmente, o nome a reter dentro do cinema lusófono, no geral, e guineense, em particular. Nascido em Xitole, na Guiné-Bissau, a 7 de fevereiro de 1988, Bungué exibe no sangue a sua etnia balanta.

Filho de imigrantes, foi em Beja, em 2005, que começou a trilhar os primeiros passos da sua carreira artística. Licenciou-se em Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa.

Na sua biografia, como ator e realizador, contam-se inúmeros trabalhos, entre Portugal, Brasil e Alemanha, que integraram renomados festivais como Africlap (França), Zanzibar Intl. Film Fest., Afrikamera e Berlinale (Berlim), IndieLisboa, DocLisboa, Fest. Intl. de Cinema do Rio de Janeiro ou de Stockholm Dansfilmfestival.

Bastien (2016), que dirigiu e contracenou como ator principal, valeu-lhe os prémios de Melhor Ator e Melhor Primeira Obra nos prémios Shortcutz 2017, em Viseu e Ovar, respetivamente. Ainda em 2019 foi distinguido com o prémio Angela Award – On The Road no Subtitle Festival em Kilkenny, Irlanda. Welket integra ainda, como membro permanente, a Academia Portuguesa de Cinema, desde 2015.

A sua audácia e tenacidade auguram-lhe um futuro promissor dentro do panorama cinematográfico lusófono e, nessa senda, a BANTUMEN procurou saber um pouco mais sobre os seus projetos futuros e a forma como o ator e realizador tem preparado o seu percurso.

Como é que se chega a membro permanente da Academia Portuguesa de Cinema?

Sou membro permanente da Academia Portuguesa de Cinema desde 2015 sensivelmente. É uma associação, ou seja, um grupo de profissionais da indústria do cinema e do audiovisual português. Para se ser membro permanente é preciso ter feito pelo menos três longas-metragens estreadas em circuito comercial em Portugal. A partir daí, paga-se uma quota anual e pode-se votar nos filmes nomeados para os prémios Sophia em cada uma das categorias a concurso, anualmente. É um contributo e lugar de acesso privilegiado ao que de melhor se faz na indústria audiovisual portuguesa ao longo do ano.

Em 2012 recebeste um prémio de Melhor Actor, por Mütter, e em 2017 de Realizador de Melhor Primeira Obra e Melhor Actor por Bastien. Há alguma outra atuação que achasses que deveria ter sido distinguida e que acabou por não ser?

Esses prémios reconhecem o meu mérito e qualidade artísticos de facto. Mas não me parece justo sugerir que algum outro trabalho meu pudesse ser suscetível de premiação, porque implico-me honesta e profundamente em tudo o que faço e não crio almejando um reconhecimento simbólico através da aquisição de prémios, mas acredito que a aprovação do público – tendo ele acesso aos meus filmes, e revendo-se nas histórias que conto – seria a maior retribuição que alguma vez poderia almejar.

Estás a preparar o teu percurso para um dia chegares ao Óscar? Achas possível um ator lusófono um dia chegar aos Óscares?

Desde 2005, que foi quando encontrei o Teatro, que eu tenho trabalhado para melhorar as minhas ferramentas artísticas e consequentemente a minha pessoa. Os Óscares são um “statement” bastante audacioso – não digo ambicioso, e por isso prefiro pensar que devo estar preparado para eventuais projetos extraordinariamente exigentes que possam surgir no decorrer da minha caminhada artística. Tal como foi o caso do filme alemão Berlin Alexanderplatz, em que protagonizei uma nova versão do personagem Frankz Biberkopf falando alemão e inglês, no corpo de um migrante clandestino na Europa. Mas podes escrever que é possível um ator de origem africana, falante de língua portuguesa alcançar um Óscar e muito mais.

O que é que Berlim te oferece que não encontraste em Lisboa?

Berlim oferece-me publicidade, instigação criativa e muito potencial artístico. Em Lisboa deixei de poder enxergar compromisso e risco – substâncias vitais para a arte da representação. A cidade rendeu-se ao turismo e a maioria das produções, produtores, agentes culturais foi-se deixando dominar por essa lógica capitalista e isso passou a definir as prioridades em relação ao elenco e histórias a serem contadas (naturalmente, – podemos dizer que muitas delas “são para o inglês ver!”).

Para quem não conhece, o que nos podes falar do cinema guineense? O que nos recomendarias?

O cinema guineense existe há muitos anos, desde os primeiro filmes do Sr. Flora Gomes que levaram as paisagens e gentes da Guiné-Bissau ao público do Festival de Cannes. Lembram-se com certeza de Mortu Nega e Os Olhos Azuis de Yonta, são tudo filmes que estão na génese do levante de formação de um movimento cinematográfico na Guiné-Bissau. Hoje em dia, como a produção de cinema na Guiné-Bissau é pouca ou nenhuma, é essencial compensar essa desaceleração com os nomes de artistas internacionais que se têm evidenciado nas indústrias cinematográficas ao nível internacional – tal como é o meu caso, mas também da realizadora e atriz Babetida Sadjo, o realizador Filipe Henriques, a atriz angolana-guineense Isabél Zuaa, o ator Igor Regalla entre outros. É importante compreendermos que devido à latente instabilidade política que corrói todos os ministérios na Guiné-Bissau, que também por isso o cinema foi bastante afetado e isso muda a sua composição obrigando-nos a assumir um novo paradigma de entendimento que implica rever e considerar os filmes (longas e curtas-metragens) produzidos pela diáspora Bissau-guineense além-fronteiras e que contemporaneamente falando, definem o acerco filmográfico daquilo que eu poderia chamar de “cinema da pós-independência” – isto é, um cinema que insurge depois dos anos de ouro do cinema de Flora Gomes e de Sana Na N’Hada – e que se edifica na diáspora através de uma releitura e adaptação dos recursos de produção e pertinência dos temas retratados nos filmes, dependendo do local onde se encontrem esses criativos que compõem sobretudo uma geração de cineastas/artistas nascidos nos anos 1980 e que estão transitando pela a Europa.

Qual é a grande fragilidade do cinema PALOP?

Diria que – se há uma fragilidade do cinema PALOP – essa fragilidade é a sua subvalorização, ou seja, não há um agenciamento daquilo que é a produção cinematográfica dos PALOP. Não podemos falar de uma indústria do cinema PALOP, até porque isso implicaria um investimento extraordinário no que respeita à formação do público que visaria o consumo daqueles filmes. Bom, fragilidade é neste sentido, o descrédito ao cinema PALOP. Mas, há realizadores afro-portugueses, assim como luso-brasileiros que também compõem esta liderança de produções fílmicas PALOP e isso é um aspeto que deve ser observado construtivamente para impulsionar uma maior abrangência territorial e de públicos que podem e devem enobrecer os filmes de produção PALOP.

E qual é a sua maior força?

A maior força do cinema PALOP, que convenhamos – não sei o que queremos dizer especificamente com “cinema PALOP”, porque cinema é Cinema – mas o cinema feito por membros PALOP é um cinema que por si só deveria abarcar o público português, brasileiro e todo o público africano que cultural e linguisticamente convive com o idioma português. Essa é a potência do cinema PALOP e ainda não foi honestamente abordado pelos líderes da indústria, nem pelos agentes responsáveis pela a atribuição de fundos institucionais para a produção de cinema nos territórios que celebram o convénio PALOP.

Qual é o teu grande objetivo de carreira?

Muito simplesmente, o meu objectivo de carreira é alcançar um nível de excelência profissional que possa ser reconhecido, e que isso me possibilite construir os meus projetos pessoais – nomeadamente, escolas de arte na Guiné-Bissau e programas de intercâmbio artístico-cultural, investindo num eixo de circulação que ligue os talentos emergentes da Guiné-Bissau às incubadoras de pesquisa e criação artística no Brasil e na Europa.

Qual foi até agora o papel mais difícil de interpretar? Porquê?

O papel mais difícil de interpretar até aqui foi Francis/Franz Biberkopf, no filme alemão Berlin Alexanderplatz. No filme tenho muitas cenas íntimas com personagens diferentes, falo alemão (sem nunca antes ter aprendido essa língua), mais de 80% do filme tenho somente o braço esquerdo e tenho de viver com isso, – inclusive lutar contra cinco homens, tive de filmar em várias cidades da Alemanha e inclusive viajar para a África do Sul onde filmámos inúmeras cenas submergidos a mais de 5 metros de profundidade, com mergulhadores profissionais… mas vale a pena esperarem para ver este filme.

Vai chegar um momento em que vais decidir entre ser actor ou diretor/realizador?

Acredito que serei sempre um ator, porque mesmo filmando é visível as implicações performáticas dessa minha ação. Ou seja, eu mesmo realizando filmes implico-me bastante física e emocionalmente no que estou a mostrar e a contar, por isso o olhar de realizador está sempre dominado pela minha imanente ação performativa.

Como te vês, pessoalmente e profissionalmente, daqui a dez anos?

Esta pergunta é difícil de responder, mas gostaria de continuar a ser feliz e a auto-superar-me pessoal e profissionalmente. Isso implica dedicação, sabedoria e muita fé nas nossas intuições pessoais.

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