Como toda a história sugere, há sempre dois lados da moeda. Mas, infelizmente, esta não é mais uma história, é a realidade que se vive e se ouve desde que o Coronavírus resolveu entrar no nosso país sem sequer pedir licença ou bater à porta.

O medo é real, as incertezas falam mais alto que as certezas, mas uma coisa é certa, depois que tudo isto passar, vamos dar valor a coisas que nem sabíamos que existiam.

Por estes lados, segundo o nosso Governo, estamos na fase 3. A fase de emergência, onde a maior parte dos deveres dos cidadãos tornaram-se obrigações: quarentena obrigatória de 14 dias para todos aqueles que viajaram para países com casos de COVID-19, eventos com o máximo de dez pessoas, barracas e supermercados a encerrarem às 17h, mínimo de passageiros nos chapas, proibição de circulação de mototáxi e bicicletas, entre outras.

Tudo isto é pelo bem de todos nós. Estamos a viver um momento onde não importa o que você tem, muito menos a classe social que você ocupa. O que importa é a sobrevivência da espécie humana, em particular num país como o nosso, onde ainda somos colocados no grupo dos países em vias de desenvolvimento.

Algumas empresas, em particular as privadas, aderiram ao famoso home-office, criaram condições para que os seus colaboradores continuassem a trabalhar a partir de casa e adoptassem medidas de auto-isolamento. Mas a maioria, como o caso das públicas, adoptaram o sistema de intercalar os funcionários, garantindo, desta forma, os serviços mínimos e a recomendação da OMS, de manter uma distância entre as pessoas de pelo menos 1.5 metros.

Até a data, foram confirmados 17 casos positivos de COVID-19, e alguns tantos ainda sob vigilância médica em suas casas.

Os famosos juízes das redes sociais acreditam que existem mais casos, que os números oficiais não conferem a realidade e continuam a espalhar a desinformação. Até já se ouve falar em lockdown. São os desinformantes, que preferem aterrorizar com as incertezas ao invés de informar com certeza e precisão.

Num dos parágrafos acima, referi que esta pandemia não escolhe classes sociais. Talvez não seja bem assim. Ora vejamos:

Nesta mesma semana, após o decreto do Estado de Emergência sair, os “chapeiros” e os mototaxistas paralisaram as suas actividades. Em todo o país, viu-se e viveu-se o verdadeiro caos. A razão, defenderam eles, o valor que faziam diariamente já não cobria os custos diários de terem os chapas a circular. Resultado: Muita gente que, infelizmente, devido à natureza do seu trabalho, não pode fazer o auto-isolamento, não conseguiu ir trabalhar. Além de haver barricadas nas vias secundárias e estradas principais, com a polícia municipal a recolher motos e bicicletas dos que insistiam em trabalhar mesmo depois da proibição. Estava instalado o caos.

A COVID-19 veio impor novas formas de trabalhar e de ver as coisas. Mas isso é só para os privilegiados. Não diria classes sociais diferentes, mas sim para os privilegiados.

Se quisermos ir para os números, a maioria da população vive com menos de 1 dólar por dia. Essa mesma população vive do mercado informal, do nosso famoso “biscate”. Ela pode se auto-isolar? Pode. Se aqueles que tanto desejam o lockdown virem o seu desejo realizado, como fica esta maioria da população?

Como é que aquela mamana, que vende no mercado ou na esquina, vai sustentar os filhos que estão em casa, desde o dia 23 de março quando o Governo encerrou as escolas?

A saúde em primeiro lugar, sim, é verdade, concordo. Mas, acredito que o Governo esteja mais preocupado com a maioria da população que precisa sair de casa para ganhar o sustento para a família. Por isso, continua a apelar às televisões, rádios, parceiros de negócios, às empresas, para reforçarem as campanhas de prevenção e as recomendações contra o coronavírus.

Estamos a trocar o medo pela fé e a reforçar a certeza das informações e a ignorar as incertezas que provocam o pânico.

Estamos atentos às notícias oficiais, estamos atentos a tudo o que se passa à nossa volta, pois temos a certeza que melhores dias virão e no final, vamos todos nos abraçar, conviver mais, cuidar melhor dos mais velhos, sermos mais solidários uns com os outros e olhar para os computadores, telemóveis e tablets como ferramentas apenas e só de trabalho e quando chegar a hora de desfrutar da vida, aí sim faremos um verdadeiro shutdown.

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