Pensem naquela pessoa, vossa conhecida, que adora falar e nunca lhe parece faltar fôlego nem assunto. Agora pensem que essa pessoa é impedida de falar por duas semanas ou mais.

É essa a situação do povo Angolano, um povo que tem o convívio, as festas, o contacto físico no seu ADN e que acorda num cenário que o impossibilita de … ser! Então estamos assim, umas verdadeiras coscuvilheiras amordaçadas perante uma grande fofoca.

Acabaram-se os ambientes de domingo, as passadas, as kizombas, sambas e sembas no pé. Ou melhor, continuam no pé, o pé é que não sai de casa!

Devo dizer que me surpreendeu muito, pela positiva, o acato das ordens de quarentena de um modo tão rápido e generalizado (pelo menos nas áreas principais de Luanda), será o medo do vírus ou medo dos militares que se fazem ver e sentir em cada esquina? Não sei, mas o facto é que as ruas estão “limpas”, as pessoas só se cruzam no supermercado, por detrás das máscaras que escondem bochechas transpiradas e luvas mal usadas (que ao mesmo tempo que tocam nas superfícies, vão directas às caras suadas, para, lá está, ajustar as máscaras).

Se não fosse tão fatal, esta ironia seria cómica, até.

As zungueiras tentam vender o máximo que podem à porta dos únicos lugares que permanecem abertos (bancos, mercados, hospitais), com um olho no cliente, o outro na polícia e um terceiro olho (chamemos-lhe instinto) na concorrência.

Elas aparecem de todos os lados, motivadas pelo desespero do excesso de stock inversamente proporcional ao seu lucro. Desespero esse que as faz esquecer do tal distanciamento, dois metros? O que é isso? 2 metros a contar da bacia que tem essa medida de diâmetro, da criança que muitas vezes está às costas, ou dos bens que carregam? Como se fazem essas contas?

Depois temos os meninos que, entre arrumar carros, lavá-los, ajudar com as compras, vender tudo quanto é quinquilharia e correr só para pedir algum, nos obrigam a tocar constantemente no malfadado dinheiro, nesse monstro que nos obriga a cada utilização, esfregar as mãos em álcool ou água e sabão.

“Sabes que não deverias tocar em dinheiro? Madrinha, se não morrer com o carona/ víru (ou qualquer outra versão de Corona ou vírus), morro de fome”.

Pois, como não tínhamos pensado nisso? Tínhamos quem? Os outros… Porque eu tinha, eu pensei logo que esses seriam os primeiros a sucumbir. O problema? O problema é que são esses que fazem a maior parte da economia andar, se não há pessoas na rua, eles não vendem, se eles não vendem, tudo pára. Vai mais um problema? 

Por cá, quem não tem luz e água é “só” a maioria absoluta da população, juntem isso ao analfabetismo e temos pelo menos 50% de pessoas que seguem com as suas vidas sem saber nada do tal Covid 1, 2, 3, 19, ou 100; pessoas que seguem com as suas vidas sem deixar de dar abraços, beijos, sem lavarem as mãos a cada 5 minutos; pessoas que tossem para o ar e cospem para o chão. 

O que fazer? Nada. É nestas alturas que vemos todas as lacunas do executivo: a falta de educação, a falta de saneamento, a má distribuição de riqueza, o mau funcionamento do Sistema de Saúde. 

Mas e nós, cidadãos? Os que continuaram a viajar? E os que chegaram das suas viagens e não tiveram a responsabilidade de ficar em casa? Os verdadeiros cavaleiros do apocalipse que trouxeram a jarra de Pandora em classe executiva, imagine-se!

Bem, cá em terras de Agostinho Neto estamos assim, creio que a demência ainda não tenha dominado ninguém, mas isso também é relativo, entre Lives e Stories sem fim, cuja pertinência, interesse ou necessidade são discutíveis; entre pessoas que já lutam com o fulano porque ele deveria estar em casa e acabam por colocar-se em risco (porque tocaram no tal fulano potencial portador); entre forças armadas que matam cidadãos (alegadamente) insurrectos “sem querer”, destaca-se um grupo, o dos Portugueses que estão desesperados e fartos de ouvir dos nacionais coisas como “estávamos cá tão bem, tinham de vir estragar tudo, voltem mas é para a vossa terra” (qualquer sensação de “déjà vu” é pura coincidência). De novo, se a ironia não fosse tão trágica, seria cómica, ou kármica, deixo a escolha ao vosso critério.

Enfim, andou Nietzsche a escrever capítulos e capítulos sobre a “origem da tragédia” quando a resposta era só uma: o paciente zero! Se vamos sair deste limbo intactos não sei, mas na dúvida, lavem as mãos!

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Orgulhosamente guineense e com costelas cabo-verdianas e libanesas. Cidadã do mundo, literalmente, nómada por natureza e exploradora de culturas. Ontem residente em Nápoles, hoje em Luanda, amanhã quem sabe. Amante e professora de línguas, tem na gramática correcta o seu amor eterno. Actualmente professora; tradutora; e revisora e coordenadora de conteúdos da revista Chocolate lifestyle.