No primeiro dia, ouvíamos falar que, lá longe, umas pessoas morriam como peças caindo de um tabuleiro. Mas as peças eram asiáticas, não nos importámos muito. A vida seguia aqui na nossa República e em outros países também.

Quando o mal-estar chegou à Europa a Itália já causava as primeiras insónias aos demais incrédulos. A doença se fez branca, as mortes levemente deixaram de ser estatística e começou a causar ansiedade nas classes santomenses mais abastadas, pois, não mais poderiam viajar sem um pouco de receio.

Enquanto isso, aqui em São Tomé e Príncipe, três mitos espalhavam-se com certa notoriedade. Primeiro: os africanos parecem ser resistentes ao coronavírus, aparentemente somos especiais. Menos Manu Dibango, quiçá não fosse suficientemente africano. O segundo mito é que existem folhas aqui nas nossas admiráveis ilhas que curariam facilmente a patologia. Isso foi até defendido pelos nossos gurus das folhas. Por fim, o terceiro mito coincide com uma onda de gripe “estranha” que tivemos no início do ano, com sintomas muito parecidos ao do COVID-19. Ou seja, coronavírus veio, viu e vacilou.

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Depois de algum tempo, Portugal começou a registar mortes decorrentes do novo coronavírus, até então, não tínhamos fechado as fronteiras. A OMS tinha deixado uma cabaninha do lado de fora do aeroporto e uns pequenos aparelhos que medem a temperatura corporal começaram a ser usados novamente. Entretanto, a fatalidade ocorreu quando um santomense morreu em Portugal vítima da doença. Descobrimos que não éramos tão “africanos” assim, a doença em quase nada discrimina. Mas claro, ele era velho e tinha doenças. Não, nós aqui, nós que comemos matabala e fruta-pão, somos semi-deuses!

Embora a situação em Portugal, tenha demorado um tempo até que o país fechasse definitivamente as fronteiras – e quando declarou o seu fecho, as prateleiras já estavam vazias de álcool em gel, vinagre e outros produtos dignos de alguma especulação nesses tempos de pandemia – o caricato é que 25 dias depois temos os primeiros doentes no hospital com sintomas e todas outras pompas patológicas. Ou o vírus aderiu ao leve-leve ou a regra dos 14 dias não fazem mais sentido.

Mais do que isso, as ruas não puderam ser esvaziadas. Certamente uma decisão difícil onde a economia informal reina: esvaziar a praça. Os mais abastados conseguiram garantir o seu isolamento, o salário está sempre lá. Todavia, cabe ressaltar que boa parte do salário depende das horas extras, o que o governo prometeu resolver com o reajuste salarial. Porém, sem as horas extras, por não estarmos mais trabalhar, e com a contribuição compulsória ao Fundo de Resiliência, adicionando décadas de Finanças descontroladas, talvez os trabalhadores formais possam vir a ter o seu dinheiro subtraído para dar aos “novos ricos” da informalidade: cambistas, mecânicos e outros burgueses em pele de pobre.

Tomou-se a sábia decisão de implantar medidas cada vez mais restritivas. Todas as medidas parecem ser importadas da OMS, mas a função pública continua sem máscaras suficientes e outros materiais para os seus funcionários ou sobreviventes. Entendamos que, até os EUA viram-se na posição de extraviar mercadorias de outros países.

Enquanto isso tudo ocorre, a classe médica revolta-se contra a situação da falta de materiais em que se encontram. Os chineses ajudaram enviando máscaras e expulsando o vírus do corpo dos pretos em sua terra à pancada.

Com a resposta lenta na comunicação dos casos, o meio utilizado para comunicar sobre o facto é o Facebook. Claro, não é preciso ser jornalista para ter uma matéria de destaque nas páginas onde quase todos os santomenses se juntam para receber o maná que cai. Com efeito, o maná tem o sabor dos perfis falsos e dos partidos políticos pelos quais esses perfis militam. E tudo parece valer nessa arena: informações, contra-informações e desinformações feitas à imagem e semelhança dos monopolistas da verdade.

Seguramente, outras medidas foram tomadas ao nível das finanças para lidar com essa situação difícil. O Governo decidiu pagar os baixa-rendas, os vulneráveis, os que não podem acumular. De seguida, um mito roda no ar, existe um dinheiro de um fundo que parceiros internacionais disponibilizaram para os mais pobres e o Governo ainda não anunciou.

Com efeito, explodiu a revolta dos danados em épocas de quarentena! Os ministérios continuam a ser assombrados por essas figuras alimentadas por essas notícias. Será verdade? Oficialmente não, só isso que se sabe. Existe uma verba imaginária também? 

Por fim, de repente, quatro casos foram confirmados e não confirmados! O ministro disse que eram pacientes assintomáticos. Em outra circunstância, disse que deram entrada três pessoas confirmadas com o coronavírus. Mas o número de infectados atuais é três e não temos relatos sobre curados. 

Um conjunto de fotos sobre possíveis infectados circulam em redes obscuras, como se São Tomé Poderoso não pudesse ser profanado pelos seus filhos doentes. Eles correm o risco de serem exterminados pelo ódio social e ignorância. 

Enfim, boa parte do país pegou nas velas e versículos da bíblia, descumpre o isolamento e acredita que um poder maior nos protege! Dos 82 testes enviados nos últimos dias, 79 são negativos e tem um caso inconclusivo. O nosso santo segue sendo forte e os doentes continuam imaginários! Só a matemática parece pós-moderna demais!

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Sou só um escritor de crónicas em tempos livres. Docente por profissão, causador de vertigens por vocação. Flertando com a poesia e com a fotografia, tenho escrito livros e recriando o meu mundo. Não podendo ser a grande diferença, decidi ser diferente. Não podendo oferecer uma solução aos outros, decidi viver a minha solução.