Provavelmente, já todos presenciámos ou ouvimos falar do fenómeno blackface, que consiste numa pessoa não negra pintar a cara e o corpo de forma a caricaturar uma pessoa negra.

É um assunto sensível e que remonta a 1830, em Nova Iorque, quando os norte-americanos popularizaram os minstrel shows, um tipo de espetáculo teatral que reunia comédia, dança e música com atores brancos pintados de negros e que contribuiu de sobremaneira para a criação de estereótipos sobre a comunidade afro-americana, em particular, e negra, no geral. De sublinhar que, o minstrel show andava de mão dada com as leis segregacionistas que pretendiam anular a participação social e democrática dos negros na sociedade norte-americana. Esse conjunto de leis ganhou o nome de Jim Crow, o nome de uma canção sátira que caricaturava os negros.

Na década de 1960, a luta pelos direitos civis colocou um ponto final ao minstrel show. 140 anos de vida. É importante também não esquecer que estes espetáculos foram adoptados e popularizados por vários outros países, sendo que na Grã-Bretanha foi transmitido pela televisão estatal, BBC, até 1981 com o British sitcom “Are You Being Served?”. Até há 39 anos.

O blackface não é apenas uma questão de pintar a cara e o corpo de preto, trata-se de ridicularizar a forma de ser e estar de uma etnia inteira.

Em Portugal, volta e meia, a comunidade artística, e não só, relembra o quão ignorante é sobre o assunto e como, sob o pretexto da arte, entretem o público com base numa expressão humilhante para os africanos e seus descendentes.

Na canal de televisão TVI, onde, por diversas vezes, opiniões racistas são veiculadas sem qualquer tipo de censura – embora a lei n.º 134/99, de 28 de Agosto, proíba expressamente a discriminação racial sob todas as suas formas e sancione a prática de actos que se traduzam na violação de quaisquer direitos fundamentais, ou na recusa ou condicionamento do exercício de quaisquer direitos económicos, sociais ou culturais, por quaisquer pessoas, em razão da sua pertença a determinada raça, cor, nacionalidade ou origem étnica – o blackface tem sido uma constante. E se um canal de transmissão nacional adopta este tipo de encenação como sendo absolutamente normal, defendendo-se atrás do pano “artístico”, como reagem as ovelhas acéfalas? Imitam. Porque “não tem maldade” ou “foi sem intenção”.

Só no programa “A Tua Cara Não Me é Estranha”, perdemos a conta às vezes em que os convidados – atores, apresentadores de TV, modelos, entre outros – pintaram a cara e o corpo para interpretar cantores e cantoras negras. E a caravana passa. O cão não ladra. É entretenimento.

Nos últimos dias, em que o confinamento obriga a uma maior engenhosidade, ou não, para “matar” o tempo, temos visto desfilar nas redes sociais vídeos onde, por exemplo, jovens ministram “tutoriais” de como fazer um blackface ao som de “Kalemba (Wegue-Wegue)”, dos Buraka Som Sistema. Tipo de música que adoram e sacralizam, mas que também se dão ao luxo de utilizar para ridicularizar a “espécie” que a criou.

Por que é ofensivo utilizar o blackface?

Porque a sua origem foca-se em estereótipos ridículos para entreter um público branco.

“O blackface tem raízes no racismo, que está ligado ao medo de pessoas negras e à ridicularização delas”, explica Kehinge Andrews, da Birmingham City University, no Reino Unido.

A história do blackface é vergonhosa.

Podemos acreditar que há quem recorra à prática, sem querer ofender ou ser racista, mas é uma teoria semelhante à “eu até tenho amigos pretos”. Uma coisa não justifica a outra.

Da mesma forma que nenhuma escola primária usa o tema nazismo para um desfile de carnaval, por que razão há escolas e grupos carnavalescos em Portugal a usar crianças para caracterizar escravos, essa poderosa mercadoria africana, que os portugueses se lembraram de começar a transacionar no mundo inteiro a partir do século XV?

Não. um país inteiro não é racista mas um país inteiro está a compactuar com um crime. E assim seguimos, beati pauperes spiritu – num mundo onde têm sucesso aqueles que não têm inteligência.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.