De todos os reinados, este é o que está a ter mais destaque neste momento dentro do movimento hip hop lusófono. A artista abriu-nos as portas do seu palácio e falou-nos da dinastia de Chong Kwong.

Nas veias o sangue ferve-lhe, assim como a paixão que tem pela música, mais concretamente pelo rap, que ainda hoje é praticamente dominado pelos homens. Nada que afronte Chong Kwong. A rapper veio para ficar e mostrar que o género não é importante na música. É importante falar sobre a emancipação feminina, mas não é o que define o que “cospe” ao microfone. “Antes de mais, eu vou ser sempre uma mulher a rimar. É impossível mudar isso. E é normal que fale de cenas que se passam comigo, o que não quer dizer que rime exclusivamente para mulheres, muito pelo contrário. Senão, por essa lógica, os meus artistas favoritos tinham todos de ser mulheres e não são. O rap é o único estilo de música em que se fala tanto sobre o género e isso é só reflexo da cultura machista que existe. Stop talking about it (parem de falar sobre isso)”, explicou Chong Kwong.

Sexismos à parte, o que interessa é que, o que quer que faça, Chong Kwong arrasa e por mérito próprio. “Por norma, nós não somos educadas para sermos ambiciosas e independentes e sim muitas vezes resignadas e dependentes. Isso está presente na sociedade. E a minha música só vem reforçar aquela que é a minha atitude na vida, you want it, you fight for it (se queres algo, lutas por isso).”

Outra coisa que a incomoda são os rótulos e a categorização de artistas. O respeito deve ser a palavra de ordem e as guerras e desigualdades entre a Old School e a New School não fazem sentido, quando o objetivo é único: fazer prosperar o movimento hip hop. “Mais do que respeitar quem está há mais tempo, tens de respeitar a cena de cada um, ponto. Senão, telhados de vidro um dia partem.”

Kwong é de Cabo-Verde, da China, Moçambique e Timor. Tem na alma e no sangue uma mistura nem sempre fácil de “conjugar”, mas que lhe confere o misticismo que a rapper emana. Em tenra idade teve de aprender a criar a sua própria identidade dentro das suas misturas e a amar essa diferença que envolvia o seu meio. Isto permitiu-lhe também abraçar a diferença à sua volta.

Culturalmente falando, o que ouvia em casa era do mais diverso possível, mas foi aos 13 anos que começou a ter controlo da sua playlist como a mesma nos explicou. A paixão ardente pelo Hip Hop nasceu quando foi morar para a Margem Sul, a cultura do movimento, em todas as vertentes desde o lifestyle à atitude nas músicas e forma como os pioneiros se impunham, deixou-a enamorada. A partir daí, foi fácil e rápido saírem da alma as primeiras rimas.

Antes de nascer a Chong Kwong que hoje conhecemos, a rapper fez parte do grupo La Dupla.

Entretanto, teve de ir para Macau, para conhecer de perto parte das suas origens. Foram sete anos a estudar e a investir na sua carreira profissional em turismo, eventos e marketing. Mas também para se reecontrar e conhecer de perto onde as suas raízes estão fixadas. Depois de Macau seguiu-se Timor, onde teve “a maior lição de humildade na vida” como já tinha dito em entrevista ao jornal Público.

Nessa altura a música tinha ficado para trás, em Portugal nada a fazia apostar no que gostava de fazer, não havia encontrado as pessoas certas com quem trabalhar. Essa pausa foi necessária para Kwong. Depois de ter regressado a terras lusas começou a criar música, influenciada pela sua experiência e pelos assuntos tabus que não se falavam ou eram abordados.

Lançou “Chong Kwong”, “Não te Convidei”, “Salute” e mais recentemente “Lótus”, temas esses carregados de “Blasian Drip”, uma mistura entre África e Ásia que não passa despercebida. Os quatro temas lançados têm perto de 300 mil visualizações na sua página de YouTube e dão-nos conta da autenticidade da artista que não se vislumbra com imitações.

Agora, prepara-se para lançar o seu primeiro grande trabalho, um álbum. Apesar de não revelar ainda grandes detalhes sobre Filha da Mãe, Chong Kwong adianta que as pessoas vão perceber o porquê deste nome ao ouvi-lo. Quanto à mensagem, é simples: “podes e deves sonhar o mais alto que conseguires. Eu gosto do desafio de viver no limite, da adrenalina de me propor a criar cenas novas e sair a toda a hora da minha zona de conforto. Acreditares e investires em ti tem um preço demasiado baixo para não tentares pelo menos. E deitar a cabeça na almofada com a certeza que tentaste, é priceless” .

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