Longe dos palcos e do calor dos fãs, os artistas lusófonos em Portugal tentam vencer o confinamento através de espetáculos nas redes sociais e novas criações, enquanto fazem contas à vida, pois sem atuações não têm rendimento.

O músico moçambicano Costa Neto tem aproveitado o tempo do confinamento imposto pela pandemia para compor, mas também para refletir e foi nessa missão que criou a música “Salve a Vida”, uma reflexão sobre a covid-19.

Em entrevista à agência Lusa, o músico, que vive em Portugal, contou que esta canção, a que dá voz, foi feita em memória das vítimas da pandemia.

“Os músicos foram os primeiros a encorajar as pessoas, deixando mensagens nas redes sociais, ainda antes do primeiro caso confirmado em Portugal. Tivemos desde logo a consciência de que este não era o problema de um país, mas sim do mundo”, disse.

Costa Neto foi mais longe e promoveu um movimento das redes sociais, intitulado “O amor não tem distância”, no qual artistas lusófonos deixam mensagens de esperança e partilham a sua arte.

Apesar da companhia da música ajudar a passar o tempo, a falta de espetáculos ameaça o futuro destes artistas, situação comum a todos os que trabalham nesta área em Portugal.

“A situação dos artistas já era complicada e, com a pandemia, agravou-se”, disse.

E acrescenta: “O estatuto de profissional da música deixou de existir. Nenhuma outra profissão é tratada desta forma”.

O autor de “Mandjolo” acredita que a música que os artistas produzem é “um verdadeiro serviço público”, mas apesar disso tem sido desvalorizada e abandonada pelos decisores políticos.

Habituado a dificuldades, Costa Neto continua a produzir e até reconhece que a crise pode ser inspiradora.

“Já vivi a fome, a guerra. A pandemia é mais um desafio”, disse.

O cantor angolano Matias Damásio também não ficou parado. Compôs o tema “Guardiões da Vida”, com o qual pretende homenagear os profissionais na linha da frente do combate à covid-19.

As receitas geradas por esta música e vídeo serão cedidas à Refood, uma organização criada para reaproveitar excedentes alimentares e realimentar quem mais precisa.

O compositor, guitarrista e intérprete Tonecas Prazeres tem aproveitado o tempo livre para ouvir outras músicas, mostrar o seu trabalho e investir em novas formas de produção musical.

Natural da Ilha do Príncipe, Tonecas Prazeres tem aproveitado as opções que as redes sociais oferecem para mostrar a sua arte e abraçar novos desafios.

Recentemente, aquele que é conhecido como “o príncipe das ilhas maravilhosas”, deu um concerto numa das salas do espaço Braço de Prata, em Lisboa, que foi projetado simultaneamente nos muros do exterior, em sistema drive-in.

Uma novidade que lhe agradou bastante e demonstra a criatividade que os artistas precisam para continuarem a produzir e a serem seguidos, sem violarem o confinamento.

Nestes tempos de pandemia, Tonecas Prazeres decidiu recriar a música “Todos diferentes – Todos iguais” (Mingo Rangel e Paulo de Carvalho), que há 20 anos fez parte de uma campanha e que agora o músico são-tomense adaptou ao tema covid-19.

Canções à parte, os dias de Tonecas Prazeres são de incerteza em relação ao futuro, a braços com a quebra quase total de rendimentos após o fim dos espetáculos.

E a maior angústia que sente é por não conseguir ver a luz ao fundo do túnel.

“Não há espetáculos, tirando atuações pontuais e via online. Nem sinais de mudança”, lamentou.

Com o passar do tempo, agudizam-se as saudades do público e o seu maior desejo é atuar, preferencialmente nesse grande palco que são os países lusófonos.

O estado de emergência trocou as voltas à cantora cabo-verdiana Cremilda Medina, que chegou a Portugal em 10 de março para um concerto em Santo Tirso, o qual acabou por ser cancelado, não tendo ainda regressado ao arquipélago.

A 3.000 quilómetros de Cabo Verde, a cantora, que tem espalhado as mornas pelo mundo, gere o tempo “com muita ansiedade”.

“A música tem sido uma grande companheira nestes momentos. Tenho aproveitado para ouvir e estudar muitas composições tradicionais da música de Cabo Verde e com isso aprender muitas histórias”, disse à Lusa.

A cantora reconhece que esta pandemia a tem ajudado a “ver muitas coisas de uma maneira diferente”.

Sobre a vulnerabilidade financeira dos artistas, Cremilda reconhece que esta crise veio afetar o seu presente, mas espera que não afete o seu futuro.

“No ano passado, tracei um plano, e com ele tinha decidido dedicar-me a cem por cento à música desde janeiro deste ano. Foi o que fiz e tudo estava a correr bem, até que apareceu esta pandemia. Tive obrigatoriamente de fazer uma pausa e com isso vi todos os meus concertos até setembro serem cancelados, o que me afetou muito”, contou.

Natural da terra da “sodade”, Cremilda Medina já sente “saudades de tudo”.

“Tenho saudades de toda a equipa, dos colegas, do público, dos ensaios, de estar em palco e cantar e a sentir as pessoas. É isso que eu gosto, de cantar para o público, de interagir com eles, de ouvi-los cantarem comigo”.

Em África, há 3.246 mortos confirmados em mais de 107 mil infetados em 54 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia naquele continente.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 343 mil mortos e infetou mais de 5,3 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de dois milhões de doentes foram considerados curados.

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