Muitos de nós temos vivenciado – outros apenas assistido – a várias cenas de injustiça. Falar de injustiça social, como racismo, desigualdade, iniquidade e todos os “ismos” e “ades” que entram nesse pacote vergonhoso da Humanidade, tem aguçado a sede e a fome de justiça de quem sente na pele ou é empático com as vítimas.

Instantaneamente, vem à mente os casos fortemente difundidos nos Estados Unidos e os não menos cruéis, na comunidade PALOP, em Portugal. Imaginemos o que não é falado, filmado ou noticiado.

E que se entenda que a nossa revolta pode ser inteligente e tão organizada quanto o sistema opressor tem sido nas últimas centenas de anos! Tenho para mim, que a nossa revolta promove efetivamente amor, empatia, união. O amor fala a verdade, apresenta factos, importa-se com o outro! A Empatia diz-te que são vidas, almas, e que poderias ser tu no lugar delas. E isto deveria importar a todos. Sem distinção de cor, raça, naturalidade, valor na conta bancária, etc.

União, assim como para existir vitória bélica, é preciso estratégia e união, união traduzida em escolhas e práticas diárias em prol de.

Procurarmos obter conhecimento que seja relevante e nos permita ser “advogados” nestas causas e não apenas estarmos informados pelas notícias e emocionalmente abalados. Knowledge is power.

A minha posição e de tantas outras pessoas que têm demonstrado a sua indignação e sede de justiça, não instiga o ódio e rebelião que muitos pregam ou algumas fontes noticiosas querem fazer parecer.

Por mim falo, se o que tens dentro é bom, dás o que é bom. Só se dá o que se tem. E com isto não faço aqui, a mediática promoção do bom coração ou o marketing do ser boa pessoa. Práticas justas nada mais são que um dever ou obrigação de qualquer cidadão, senso básico. Simples assim.

Existe também um silêncio ensurdecedor por parte de pessoas que dizem amar a cultura negra, a comida negra, a música negra… E pessoas que até são bem sucedidas fazendo uso de parâmetros da identidade negra. No entanto, não se pronunciam sobre questões sociais negras. Coerência, espera-se. E sim, enquanto esperamos que não haja hipócrisia. A Verdade, sempre na verdade.

“Cresci com sede de justiça” é uma afirmação de Luís Andrade aka Tchapo, rapper descendente de cabo-verdianos, que nasceu e cresceu em Chelas, Lisboa.

Tchapo

“Passei uma infância muito dura”, muitos problemas familiares; violação e sequestro de uma familiar por pessoas da família, morte do meu pai, um padrasto preso, todos os sacríficios da minha mãe… Fui atirado para o Hip Hop porque sempre fui um puto com sede de justiça. Cresci com sede de justiça e fome de crescer rápido e poder defender a minha família.
Era impossível eu ser um gangsta rapper, porque sempre quis justiça. Alguém que pede justiça não quer ser injusto.
Eu cometi muitas injustiças por revoltas internas, dado todos os acontecimentos. Mas perdoei o que me fizeram e arrependo-me do que fiz errado contra alguém.
A fúria transformou-se numa vontade de educar e dar power a alguém que esteja em baixo”.

Tchapo, há dias, disponibilizou no seu canal do YouTube uma carta, onde fala da fundação da cultura Hip Hop, baseada em princípios como a Justiça. E em suma, da luta das minorias.

Ouvi essa carta, o ano passado, em Cabo Verde, aquando de um evento sobre cultura Hip Hop, e foi inspirador relembrar a parte histórica e social da cultura Hip Hop, estando naquele contexto e em África. E também por ter sido o primeiro rapper kriolo que ouvi falar sobre a irmã de Kool Herc, Cindy Campbell, enaltecendo assim a importância e sensibilidade feminina na base do surgimento do Hip Hop, e igualmente a força e coragem das mulheres desta cultura, que anda em paralelo com o cenário de protestos que têm incendiado os Estados Unidos e o mundo.

No dia 8 de maio, tive uma conversa com o Tchapo a propósito do lançamento da faixa e videoclipe “Kuzas Muda”. “Um video que deixa pontos de reticências” refere, porque ficam muitos rostos por mostrar, de quem tem assumido, para o artista, a postura de um MC.

“Diskorenta korentados, ko ta repa po orienta, ma po orienta disorientados” (Desacorrenta acorrentados, não reppes para te orientares – alusivo ao fazer rap só pelo dinheiro – mas para orientares desorientados.

O que seria apenas uma conversa para obter dados, para uma notícia de lançamento, tornou-se numa longa conversa com uma profundidade tal, que a notícia foi descartada.

Hoje, decidi trazer-te um pouco desta conversa por achar pertinente e estímulo para reflexão.

Luís Andrade passou por um processo de prisão, em 2000, com apenas 18 anos, injustamente, por algo que não havia feito, mas explicou que conseguiu ultrapassar os dois anos preso, por ter consciência de outros erros cometidos pelos quais não havia sido punido. O que dizer sobre isto?!

Somado à força transformadora do arrependimento e do perdão, lá dentro, utilizou o tempo para refletir sobre a sua vida e aprofundar-se na escrita. E quando saiu, conta que foi como um “ciclone” – talvez a melhor imagem alusiva ao seu bradar por justiça.

É também sobre a crença no melhor do ser humano, que aqui escrevo. Fazermos melhor para realmente sermos melhores.

O rapper deu a conhecer o seu trabalho no Rap Tuga e Kriolo através da faixa “Idade dos Sonhos”, com produção de Sam The Kid, há quase 16 anos. Um feat com o Beto di Guetto, o reconhecido rapper, que faleceu em 2017.

Quando gravou essa música, o Beto disse-lhe “este caminho é sério”. Admite que o Beto foi uma inspiração para seguir, aquilo a que o próprio chama de “Real Hip Hop” e hoje dá continuidade à mensagem do rap do Beto Di Guetto; dando o exemplo da faixa “Até quando”: atacar com educação.

Tchapo, que era amigo próximo e de infância do Beto di Guetto, também seguiu as referências do mesmo, no que diz respeito a serviço social em vários bairros periféricos. Tendo sido inclusive convidado para trabalhar na Associação Jorge Pina ( associacaojorgepina.pt ), do atleta paralímpico Jorge Pina onde também Beto, desenvolvia actividades com crianças.

Curiosamente, iniciou o contacto com material de som e a fazer beatbox e algumas rimas, com os cantores Mika Mendes e Paulo Tavares. Que na altura não eram cantores de kizomba, mas faziam RAP. Tinha 17 anos, quando vivia em Nice, França.

Não teve contacto mais cedo, porque a infância foi muito contorbada, e a vida no bairro não permitia. Mas, felizmente, esteve rodeado por homens mais velhos e sábios que chamaram a sua atenção.

Hoje utiliza a “política de rua” – Hip Hop – com a forma de expressão RAP.

“Há rappers que evoluíram dentro da cultura Hip Hop e há rappers que evoluíram fora. Os que evoluíram fora, por vezes evocam o nome do Hip Hop sem saberem o que é. Não posso construir um prédio sem fundação. Acaba por ir abaixo. São os sons fundados sobre nada, que desaparecem. Mas também não posso esperar que alguém construa um prédio sem que lhe seja dada a planta da obra ou ensinado a colocar tijolos. É aí que entram os que sabem sobre a Cultura Hip Hop. Pegar na caneta e escrever a Verdade”, disse Tchapo.

Fica por escrever tanto mais do que foi falado. De acordo com um dos propósitos da BANTUMEN, que não nos faltem oportunidades para trazer outros tipos de conteúdo como a sua história e a de tantas outras pessoas com uma palavra pertinente a dar, sobre esta luta comum.

Repito: a Verdade, sempre na verdade.

 “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça…” Mateus 5:6.

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Noiva da Palavra. Sou da moda antiga, escrevo-lhe cartas de amor com a luz: fotográfo; para dar valor e fazer valer cada frame da minha vida. Da Medicina Chinesa fui para Jornalismo, tudo a ver. A ver com a mescla que me assiste ou não fosse eu uma criola. Faço muitas coisas, que estrapulam este limite de palavras, mas isso pouco interessa, se não para me indagar no meu propósito. Acredito que valemos mais pelo que somos do que pelo que fazemos. E sim falo de nós. Amo nós de nós. E falando de nós, falo de mim.