Pekagboom aka Paixão, Espirito, Koração, Amado, Grande, Bomba, é um rapper nasceu a 5 de Fevereiro de 1985, em Luanda, Angola, mas foi em São Tomé e Príncipe que viveu a sua infância e adolescência.

Pércio Sousa Neves e Silva

Filho pródigo de África tem Pekagboom uma paixão imensurável pelo rap, onde mergulhou pela primeira vez em 2003. Foi nessa altura, a viver em Portugal, que começou a dar os primeiros passos na música, na Quinta do Mocho, onde ajudou a formar o grupo Império Suburbano. Com eles lançou em 2007“7 Minutos Para A Mudança”, que foi homenageado pela Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, pela música que dá o título ao álbum.

Atualmente, dentro do hip hop santomense, o seu nome é um dos mais sonantes.

A maior parte dos seus trabalhos são de intervenção, abordando temas de cariz social e político, como as desigualdades sociais, racismo, direitos humanos e corrupção.

No seu currículo sonoro, podemos descobrir dois álbuns, uma mixtape, um EP e várias participações com outros artistas, nacionais e internacionais.

A primeira mixtape foi lançada em 2010 com o nome “Brasa/Parlamento Verbal”. Esta mixtape proporcionou um novo desafio à sua vida como artista, quando a Associação Escolhas convidou-o para exercer a função de dinamizador comunitário do Bairro Social da Quinta Do Mocho. Esse trabalho, que integrava o Projeto Esperança, permiti-o trabalhar com a geração mais nova, que começava a trilhar o seu caminho no rap, incentivando à criação de batidas e rimas com um carácter construtivo para a sociedade. Foi uma experiência que o permitiu permitiu crescer, conviver e ter formações com músicos que na altura já eram profissionais.

Em 2015 foi lançada “Muala Plegida” que fez parte do primeiro álbum, Banho Público de 2016, e que foi nomeada para as categorias Melhor Música Rap e Melhor Compositor do STP Music Awards 2016,

Em 2017 as músicas “Sem-Abrigo” e “Vergonha (Remix)”, também foram nomeadas para o STP Music Awards nas categorias Melhor Rap e Melhor Videoclipe. Foi com “Vergonha”, com participação de Waik Maik, do antigo grupo STP Rappers, e Jedy Blindado, um dos pioneiros do rap santomense, que recebeu o prémio de “Melhor Colaboração”.

À margem do lançamento do EP Preto no Branco, estivemos à conversa com PekaGboom para saber um pouco mais sobre o trabalho e quais os seus planos para um futuro próximo.

Antes de mais, como surgiu o teu nome artístico?

É um acrónimo que significa Paixão, Espirito, koração, Amado, Grande, Bomba. Estas palavras me caraterizam como pessoa, a minha espiritualidade, entrega e frontalidade, tanto na minha vida pessoal como artística. É. a razão porque sou rapper e defendo determinadas causas e valores nas minhas músicas.

Como foi o processo criativo do EP?

O processo criativo de Preto no Branco foi muito natural. Não foi algo que teve de ser pensado, do tipo vou fazer estas músicas com objetivo de incluir no EP. A verdade é que a primeira música deste projeto foi lançada em 2018 e ao longo dos anos foram-se fazendo outros temas. No início deste ano, pensei ‘tenho aqui estas músicas com mensagens muito claras e objetivas, vou organiza-las e lançar um EP’. Então batizei-lhe com o nome Preto no Branco.

A primeira faixa do EP é “Mãe África” e a última é um remi dessas música. Qual foi a intenção?

O objetivo foi homenagear o continente berço e as suas mulheres. O que seria de nós sem uma verdadeira Mãe Africana aqui ou em qualquer parte do Mundo? Elas são mulheres inteligentes, amigas, conselheiras, que muitas das vezes abdicam dos seus sonhos, são condenadas aos trabalhos precários, indignos salários e sujeitando-se a uma vida “sem honra nem glória” para ver triunfar os seus filhos. São guerreiras dignas de todo nosso amor, aliás, não só a mãe africana como todas as mães do mundo.

Como a música é direcionada à minha realidade, como filho pródigo de África, então fiz esta canção com o objetivo de elogiar e parabenizar estas grandes mulheres, que muitas vezes são humilhadas, desvalorizadas pelos maridos e também, por vezes, pelos próprios filhos que saíram do seu ventre.

Do alto do teu estilo de composição, fiel à base do rap. Como vês o trap e o excesso de ostentação no rap?

É assim, cada um é livre de fazer o seu rap ou trap da forma que quer, com ou sem ostentação. Cada um com a sua cena. Agora, o que eu critico muitas vezes são os rappers que dizem ou ostentam uma coisa e depois na vida real nem um pão com chouriço têm para comer. Este tipo de rappers tem que perceber que este game é para os inteligentes e a inteligência provém da simplicidade orgânica, como vais processando a tua carreira e criando o teu legado. O sucesso dos rappers que ostentam o que não têm ou o que não vivem, é tipo comida rápida que engana os olhos, parece que enche mas não te mata a fome e não é saudável.

Mas pronto, eu sou da opinião que o que penso não deve interferir ou influenciar os gostos de ninguém, cada um com as suas preferências. Por alguma razão o pombo toma banho com água, a galinha com a terra e o porco na lama. Gostos não se discutem.  

Como foi crescer em São Tomé? Consideras-te mais santomense ou a veia angolana sobrepõe-se?

Eu devo muito a São Tomé e Príncipe. Sinto-me um cidadão 100% santomense embora tenha nascido em Angola. Sou filho de pais santomenses e quase toda a minha família é de São Tomé. Tenho sim um carinho enorme por Angola e orgulho-me de ter nascido lá e uma parte da minha vida vive lá, mas o meu lado santomense sobrepõe-se .

Em “Vida Preta do Negro” fazes uma dura crítica e analogia daquilo que é a vivência do homem negro mundo afora. Como achas que este quadro pode ser invertido?

A resposta a essa pergunta encontra-se na música, principalmente no refrão e na minha segunda entrada. Quem ouvir com atenção as minhas rimas, vai perceber que são ricas em conteúdo no sentido crítico mas também aponta soluções.

99% dos negros vive infelizmente, numa escravatura moderna implementada por um sistema que tem como objetivo destabilizar o continente africano, para que o desequilíbrio económico e social nos desfavoreça, principalmente na área da educação e da saúde.

Sem educação tornamo-nos num alvo fácil que se deixa levar pela corrupção e aí começa o efeito dominó, destruindo por completo o sonho africano em erguer-se das cinzas. Sem saúde não há estabilidade logo, os grandes cérebros que são pessoas formadas, mesmo que queiram investir em África, por alguma razão são obrigados a não fazê-lo. Assim vivemos em condições precárias nos países mais desenvolvidos, muitas vezes sujeitos a humilhações. É muito triste esta realidade.

Contudo. Eu acredito que quando o africano amar o seu próximo e a sua terra da mesma forma que o ocidente e orientais se amam e trabalham em conjunto para o bem das suas nações, haverá uma mudança certamente .    

Reconheces a importância da ideia de que todo o preto deve ter um lugar para chamar de seu? Como deveria ser a construção deste lugar?

O planeta é de todos seres humanos que nela habitam, só que na ingenuidade de alguns, deixaram-se sucumbir pela ganância e má fé dos oportunistas que se apropriaram por muitos anos das terras dos ingénuos líderes tribais, na altura da escravatura, e assim hoje vivemos ainda as consequências. Então, é importante perceber que o lugar ou lar do preto é sem dúvida de onde verdadeiramente pertencemos, África. A reconstrução desse lugar deve começar a partir de todos.

Eu acredito que, se todos os africanos olhassem para África como lar e não se deixassem levar pelas teorias da conspiração, traindo o seu próprio continente, em 20 anos de trabalho árduo, sério, com a cooperação entre os países africanos e os cidadãos descendentes de África pelo mundo fora, criar-se-ia um intercâmbio económico de África para África. Todos os negros teriam sem dúvida o melhor continente do mundo para se viver.       

Fala-nos sobre o movimento hip-hop em São Tomé?

O hip-hop está a crescer bastante. Há muitos jovens a fazer boas músicas, mas, infelizmente, penso que no panorama rap luso, o hip-hop de São Tomé é discriminado e por isso muitos não sabem o que se tem feito por lá nem pelos rappers santomenses que vivem na diáspora.

Mas pronto. Como eu digo, o segredo é continuar a trabalhar e uns abrirem portas para os outros com colaborações e as coisas vão acontecendo naturalmente. Isto tudo é um processo, penso eu. A ideia é continuar a trabalhar abrindo a mente, aprendendo com os erros, seguindo com humildade e quem sabe um dia poderemos ter o nosso espaço no rap lusófono.

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