A questão está finalmente na ordem do dia. Como podemos contribuir para a fundação de uma sociedade verdadeiramente igualitária? Depois de os Estados Unidos da América terem mostrado ao mundo que o racismo está enraizado nos pilares da sua sociedade e que o problema tem de ser visceralmente combatido, contagiando o mundo a sair à rua denunciado a mesma situação em tantas outras geografias, há agora empresas de renome internacional que decidiram dar um passo em frente nessa luta.

E porque uma manifestação virtual não é suficiente, anónimos e celebridades pedem a ação das grandes empresas. Sob o escrutínio público e entre a moral, o marketing e a tesouraria, são várias as marcas a darem o primeiro passo.

A BMG, empresa discográfica internacional, anunciou que a empresa vai reavaliar todos os “contratos históricos” do seu portefólio, de modo a corrigir “quaisquer anomalias ou desigualdades” nos termos assinados com os artistas negros a quem está associada.

“Precisamos de desempenhar o nosso papel e de enfrentar estas injustiças históricas infligidas sobre as pessoas negras”, referiu o director executivo da BMG, numa carta publicada integralmente pela Music Business Worldwide. “Queremos que as acções da semana passada sejam mais do que um quadrado negro nas redes sociais ou uma série de slogans”, disse Hartwig Masuch, director executivo da BMG.

No mundo dos videojogos, a Electronic Arts comprometeu-se a doar um milhão de dólares para organizações dedicadas ao combate à injustiça e discriminação racial nos Estados Unidos e em todo o mundo, começando com o Fundo de Defesa e Educação Jurídica da NAACP e o Iniciativa de Justiça Equitativa.

A Warner, Sony e a Universal, três dos conglomerados com maior influência e poderio financeiro na indústria musical mundial, terão também colectivamente doado um total de 225 milhões de dólares a fundações e iniciativas anti-racismo.

O Starbucks por diversas vezes esteve na frente de polémicas que envolvem situações de racismo – como quando um empregado que alertou a polícia porque um estudante negro esperava sentado por dois colegas ou, mais recentemente, a proibição de uso de qualquer artigo – como t-shirts e pins – que defenda o movimento Black Lives Matter pelos seus empregados.

Na sexta-feira, 12, a empresa inverteu a sua posição, dizendo que os seus empregados podem assim usar os acessórios, até que novas t-shirts da marca sejam criadas para o efeito e distribuídas pela empresa.

A editora Republic Records – que representa Drake, Kid Cudi, Lil Wayne, Nicki Minaj ou The Weeknd, entre outros – divulgou a intenção de abandonar o termo “urbano” enquanto identificador de estilo musical.

De acordo com artistas como Tyler The Creator, a palavra é utilizada de forma vaga para camuflar tudo o que surge da cultura negra, tendo mesmo chegado a indicar que é uma maneira politicamente correcta de dizer a n-word [nigger]”.

Nessa sequência de ações, os Grammys vão deixar cair a categoria “Best Urban Contemporary Album” para “Best Progressive R&B Album”, uma decisão que também não gera consenso porque, se a anterior designação, argumentou o crítico Anthony Fantano, conhecido pelo seu canal de YouTube The Needle Drop, segregava os músicos negros que, independentemente do seu género musical, eram como que empurrados para uma categoria redutora e inconclusiva, a mudança de nome pouco faz para alterar esse problema.

O racismo está profundamente arraigado na cultura corporativa americana, bem como no sistema de justiça. Os números falam por si: existem apenas quatro CEOs negros no ranking das 500 maiores empresas americanas. Segundo dados do governo, apenas 3,3% dos cargos de gerência são ocupados por negros, e apenas 1% das empresas que atraem capitalistas de risco são lideradas por negros (empresas financiadas por capitalistas de risco, como Google, Facebook e Uber geralmente acabam por pesar bilhões de dólares e as minorias são frequentemente sub-representadas). De recordar que, 12,3% da população norte-americana – num total de cerca de 329 milhões de pessoas -, são negras.

“O mundo empresarial americano desistiu dos negros”, disse Darren Walker, presidente da Ford Foundation e membro do conselho da marca Pepsi, nas colunas do New York Times. “Mesmo depois de uma geração de estudantes negros de universidades de prestígio e afro-americanos hiper talentosos que assumiram o mundo corporativo, parece que estamos a embater num muro”.

Evelyn Carter, diretora da agência Paradigm, que ajuda empresas a desenvolver estratégias de inclusão e diversidade, estima que, depois dos protestos de 2014 após o assassinato de Michael Brown pela polícia em Ferguson, Missouri, mais pessoas no setor empresarial começaram a prestar atenção às questões de diversidade e mais agências de consultoria foram abertas.

“A revolta de Ferguson provocou muita discussão. As pessoas começaram a compilar estatísticas de diversidade e a dizer que algo precisava ser feito”, disse.

Há cerca de uma semana, essas empresas estão em todas as frentes: tweets sobre o movimento Black Lives Matter, participação no Black Out Tuesday no Instagram, pequenas doações para determinadas causas … mas nenhuma medida para resolver o problema da falta de diversidade nas suas próprias equipas. No entanto, muitos estão a redobrar esforços para incentivar a diversidade. Evelyn Carter nota um aumento significativo no número de ligações comerciais à procura da sua consultoria. Alguns de forma sincera, outros preocupados com a sua imagem.

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