A decisão de Donald Trump realizar o seu primeiro comício eleitoral depois de três meses, na cidade de Tulsa, Oklahoma, e no dia em que se celebra o fim da escravatura nos Estados Unidos, chocou algumas pessoas e não seria para menos. Porquê Tulsa, a cidade onde ocorreu um dos piores linchamentos de negros nos EUA? Porquê 19 de junho, a data que celebra a libertação de negros escravos?

Muitos funcionários de organizações afro-americanas e oficiais eleitos negros disseram que a escolha, anunciada após os protestos contra o racismo e a violência policial, foi “uma chapada na cara e um desrespeito”. Diante das críticas, o presidente adiou a sua chegada à cidade por 24 horas, sábado 21.

Em Tulsa, a 31 de maio de 1921, cerca de 300 afro-americanos foram massacrados pela população branca. O drama assinala quase cem anos e até agora não lhe foi atribuído o lugar que merece na história dos EUA. Uma equipa de arqueólogos da Universidade da Flórida, liderada pela antropóloga forense Phoebe Stubblefield, está prestes a descobrir o que suspeitam serem duas valas comuns que abrigam os corpos das vítimas do maior linchamento já realizado em solo americano.

Por muito tempo escondido pelas autoridades da cidade, pouco mencionado nos livros de história norte-americanos nas escolas até o início dos anos 2000, o massacre realizado por dois dias em maio de 1921 constituiu o paroxismo das tensões raciais na América segregada do início do século XX.

“Vamos linchar um negro hoje à noite”

Como tantas vezes nesses casos, a história começa com um boato sexual entre um homem negro e uma mulher branca. Os fatos são difíceis de apurar, mas o The Guardian escreve que certa manhã, no início da primavera, um jovem vendedor de sapatos da cidade entrou no prédio com uma das poucas casas-de-banho autorizadas para negros naquela zona. Ao entrar no elevador, acidentalmente pisou o pé do operador branco, de acordo com uma investigação da Sociedade Histórica de Oklahoma. Os gritos da jovem, a rápida acusação de agressão sexual, tudo fluiu muito rapidamente. Dick Rowland foi rapidamente preso e levado a tribunal, onde uma multidão de brancos logo se reuniu. Os afro-americanos, “incluindo veteranos da Primeira Guerra Mundial”, também foram lá para proteger o jovem. Tiros foram disparados. O jornal local tira na manchete: “Vamos linchar um negro hoje à noite”, contam os arquivos.

Uma horda de brancos invadiu o próspero bairro negro de Greenwood, conhecido com Black Wall Street, devido aos inúmeros negócios e crescente estabilidade financeira de ex-escravos e descendentes, atirando indiscriminadamente em centenas de civis negros e incendiando empresas, casas, hotéis, igrejas e cinemas.

Cerca de 300 pessoas foram assassinadas naquele que é um dos mais horríveis atos de violência racista da história americana. Os corpos nunca foram encontrados e o caso foi amplamente abafado pelas autoridades locais.

Brenda Alford, neta de dois sobreviventes, preside o comité local que supervisiona as buscas pelas valas comuns, agora suspensas. Quando a pandemia de coronavírus atingiu os Estados Unidos, no início de março, os planos de escavar um cemitério local, onde se prevê que tenham sido enterrados os corpos, foram suspensos por tempo indeterminado.

Tulsa é atualmente uma cidade hiper-segregada, onde Greenwood agora marca a fronteira entre a seção norte mais pobre, que é na maior parte negra, e as seções mais prósperas do sul, que são na maioria brancas. 34% dos negros aqui vivem na pobreza, em comparação com 13% dos brancos, de acordo com a Human Rights Watch. Os afro-americanos têm duas vezes mais chances de serem presos do que os brancos.

É esta a história que está por trás da revolta levantada desde que Trump anunciou a data e local do seu primeiro comício pós-covid-19, numa altura em que o coronavírus atinge desproporcionalmente a comunidade negra, bem como as consequências económicas da pandemia, e que, mais do que nunca, a sociedade se tem mobilizado para acabar com o racismo institucional e a violência policial.

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