Depois de várias manifestações contra o racismo e de estátuas colonialistas vandalizadas, o rei Filipe da Bélgica apresentou pela primeira vez na história os “mais profundos arrependimentos pelas feridas” causadas durante o período colonial no Congo”.

O gesto acontece por ocasião dos 60 anos da independência da República Democrática do Congo (RDC) e dias depois de uma declaração polémica do seu irmão mais novo, príncipe Laurent, que diz não acreditar que o rei Leopoldo II “tenha feito sofrer a população” da atual República Democrática Congo.

O pedido de desculpas público foi endereçado via carta ao presidente da RDC, Félix Tshisekedi, esta terça-feira, 30.

“Gostaria de expressar os mais profundos pesares por essas feridas do passado, cuja dor agora é reacendida pela discriminação ainda presente nas nossas sociedades”, pode-se ler na missiva.

“Na época do Estado Independente do Congo [quando este território africano era propriedade do ex-rei Leopoldo II], foram cometidos atos de violência e crueldade que ainda pesam na nossa memória coletiva”, assegurou Filipe, que reina desde 2013.

“O período colonial que se seguiu [o do Congo Belga de 1908 a 1960] também causou sofrimento e humilhação”, acrescentou.

 O rei Filipe afirmou ainda o compromisso de “combater todas as formas de racismo”. “Encorajo a reflexão iniciada pelo nosso parlamento para que a nossa memória seja definitivamente pacificada”, continuou.

Leopoldo II, que reinou desde 1865 a 1909, é uma das figuras históricas mais controversas da Bélgica.

Em nome da “missão civilizadora” da Bélgica no Congo, estabeleceu um regime colonial descrito pelos historiadores como um dos mais violentos da história, baseado principalmente na exploração de borracha natural.

O monarca, apelidado frequentemente como “o rei construtor” é um “herói para alguns, mas também um carrasco”, que “matou 10 milhões de congoleses”, acusou o grupo “Reparar a História”.

Neste sentido, a primeira-ministra belga, Sophie Wilmès, afirmou nesta terça-feira que chegou o momento de a Bélgica iniciar o “caminho da investigação, da verdade, da memória” sobre seu passado colonial, “sem tabus”.

Entre 2000 e 2001, outra comissão examinou o contexto do assassinato em janeiro de 1961 de Patrice Lumumba, primeiro-ministro da RDC, e apontou a “responsabilidade moral” de “alguns ministros e outras figuras” belgas.

O jornal Le Soir elogiou o “gesto necessário, que engrandece o rei e o país”, enquanto o jornal La Libre lamentou que não tenha apresentado um “pedido de desculpas”. “Talvez aconteça ao final do trabalho da comissão parlamentar”, completou a publicação.

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