Tekilla, músico, compositor, skater, consultor de marcas, gestor e criativo, acaba de lançar nova música. “Arrepio” é o título do novo tema, cujo vídeo foi gravado durante a manifestação antirracista que aconteceu em Lisboa no dia 6 de junho.

A música foi lançada esta sexta-feira, 3 de julho, no YouTube e reúne as vozes de Tekilla, Filipa Azevedo e Jakson D’Alva. É um testemunho forte que ganha contexto com o levantamento global contra o racismo institucional vivido pelo povo negro, numa antevisão daquele que pode vir a ser um dos melhores álbuns de 2020 do rap tuga.

“À procura do equilíbrio, até hoje… até quando esta luta/que sentido é que isto faz/junta tanta gente aqui e nada de novo traz”

A composição leva-nos ao questionamento sobre a necessidade de olhar em diante numa luta social interminável necessária, com a esperança de mudança, que só será possibilitada por força da adaptação.

“Este é um tema mais acústico, de teor mais nostálgico e introspetivo, que visa abordar uma tema muito comum no nosso panorama nacional [português] e em todo o mundo: o Racismo a desigualdade de direitos e esta falta de oportunidade massiva institucionalizada. Aos anos que a classe privilegiada ignora e faz ouvidos moucos. Resumi isto e inclui a minha visão pessoal desta fase conturbada que estamos atravessar, com o intuito de sensibilizar os demais. É necessário pararem um minuto para verem que esta luta racial não faz sentido e nem traz benefícios a ninguém”, explica o próprio Tekilla numa entrevista à BANTUMEN.

Tekilla
Fotografia: Francisco Gomes

A letra de “Arrepio” é do rapper, a estruturação ficou a cargo do produtor João Antunes, mais conhecido como Filetes, e a mistura e masterização ficou à responsabilidade dos Estúdios Subcave, por Paulo Almeida a.k.a Maf.

O vídeo, que deverá ser disponibilizado em breve, foi filmado por Francisco Gomes e o conceito está a ser desenvolvido e editado por João Antunes Filetes.

A música é um single solto e Olhos de Vidro, o seu próximo projeto de originais, está “na calha” ainda para este ano. A masterização já está finalizada e a estratégia de comunicação está a ser alinhada para que a obra possa então chegar ao público.

Nos últimos três meses, as nossas vidas foram interrompidas por uma espécie de slow-motion vital, que mudou radicalmente e abruptamente a forma como cada ser humano interage socialmente. Como é que esta pandemia e isolamento social afetaram e continuam a afetar a criatividade daqueles que se baseiam nas suas experiências sociais para criar? No caso de Tekilla, este desaceleramento levou-o a ser mais produtivo. “Simplesmente pelo facto de ter gerido a minha energia e canaliza-la para a produtividade musical. Este tema “Arrepio” feat Jackson Dalva e Filipa Azevedo foi fruto disso mesmo. Além de estar a coordenar outros projectos através dos quais conheci pessoas com quem hoje estou a criar outras coisas. É extremamente prazeroso idealizares algo e em duas semanas tens tudo pronto exatamente como idealizaste.”

Fugindo do tema música, a nossa conversa com Tekilla, que transcrevemos abaixo, andou essencialmente à volta da manifestação global contra o racismo que temos assistido desde o assassinato de George Floyd por um polícia, nos Estados Unidos, e a perspetiva do rapper sobre como o racismo continua a esgueirar-se em Portugal.

Tekilla
Fotografia: Francisco Gomes

Qual é o teu posicionamento sobre o racismo em Portugal ?

Nesta altura do campeonato, o meu posicionamento é executivo. Lutar de todas formas e feitios de forma presencial e sensibilizar todas estas instituições que acabam por apenas utilizar termos bonitos para capitalizar em cima da classe menos favorecida. Aliás, há uma outra classe abaixo do pobre, que é o paupérrimo. São aqueles que nunca tiveram instrução ou preparo social ou académico para obterem um posicionamento relevante na sociedade. Portanto, nesta altura, há algumas instituições e causas que apoio. A luta seguirá em frente e, repito, sempre de forma presencial e não só teórica, porque é nesta altura que devemos dar o nosso contributo e apoiar os mais desfavorecidos a nível de expressão.

O chamado racismo institucional já te roubou algumas pessoas. Podes dar-nos exemplos do que é isso de racismo institucional?

O racismo institucional consiste na exclusão social ou biológica do ser humano, ou seja, aquela pessoa, por ser de determinada etnia, de melanina mais acentuada ou duma classe social inferior, não tem acesso ou direito de integrar nenhum departamento relevante de determinada instituição. Isso faz com que a pessoa estagne, não progrida ou evolua, ponto. E isto sempre aconteceu e acontecerá sempre em Portugal, em diversos meios, desde os televisivos ao radiofónico, teatral, etc.

Hoje, em Portugal, temos as deputadas Joacine Katar Moreira, Romualda Fernandes e Beatriz Dias na linha da frente de onde se tomam as verdadeiras decisões [parlamento].  Achas que faz diferença?

Bem, é sempre muito bom termos órgãos políticos que nos representem porque partimos de um pressuposto que tenham a consciência da realidade atual, ou não, da cultura negra e as outras minorias em Portugal. Agora, vejo esporadicamente os seus nomes em alguns debates mas não creio que as respeitem de forma devida. Aliás, acho que pelo menos a Joacine a vêem como uma boba da corte, o que é de um desrespeito tremendo e falta de civismo surreal, mas acho que devem haver mais obrigatoriamente em diversos sectores. A  ministra da Justiça, Francisca Van Dúnem, por exemplo, já não é vista desse modo nem nunca vi nenhum tom de descredibilização ou irónico associado à sua imagem ou entidade, muito pelo contrário.

A [jornalista] Conceição Queiróz tem falado sobre uma elite negra que não faz nada sobre as questões raciais e que quando opinam desvalorizam uma luta de séculos. Achas que essa elite realmente existe? Quem são?

Claro que sim e tem toda a razão, aliás, um número elevadíssimo de negros em Portugal está-se mesmo a marimbar para tudo o que tem a ver com questões políticas e isto para não dizer que nem votam. Portanto, se não acompanhas, não votas. E como é que exiges mudança e igualdade de direitos? Guiemo-nos pela lógica se faz favor. Isto é atual e não preciso falar em nomes mas todos temos Internet e TV com box em casa. Apenas filtramos a informação de forma diferente, logo aí separa-se o trigo do joio.

Tekilla
Fotografia: Francisco Gomes

Durante anos, sempre existiram os “pretos diferentes”. Aqueles sem sotaque, que estudaram e que estavam inseridos no meio dos brancos. Tu, o Dandy Lisbon, o Kalaf e a Mariama Barbosa sempre foram vistos como esses negros. Esta diferença de “classes” prejudicou mais ou ajudou os negros a criarem um posicionamento como capazes?

Eu, a nível de rap, sempre fui muito mal interpretado, simplesmente porque andava de skate e nessa altura, aos olhos dos negros, o skate era uma cultura de brancos. Depois viajava e tinha acesso a culturas mais evoluídas, desde Nova Iorque, Paris, Milão, Barcelona, onde vivi, e Londres. Isto fez com que tivesse uma perspetiva mais ampla a nível de style, interpretação e posicionamento. Isso fez com que houvesse uma má interpretação do Telmo Galeano, Tekilla ou Nigga Williams como me chamavam no skate. O pessoal não entendia que o vestir bem era um acto de revolução para poder ter acesso aos meios, que muitas vezes, eram vedados aos negros. Com essa estratégia afirmei-me sim, mais tarde, aqueles que gozavam depois copiavam. Hoje em dia, até já me chamam “The Lisbon Godfather, como o Dino dSantiago, Sam The Kid ,Fred. Sempre tentei levar a cultura e bom gosto comigo e partilhar com aqueles que me rodeavam para sermos mais. Foi doloroso em tempos por houve o gozo, as ofensas e a ignorância mas, felizmente, muitos com o tempo chegaram lá e hoje ainda continuo a reeducar massas e os nossos. Nesse aspecto, estou sempre a motivar, a inspirar para elevar a auto-estima e confiança. Mas não sou e estou muito longe de ser privilegiado, apenas a minha forma de estar permite-me ter acesso a outros meios não tão comuns mas também pelo meu currículo e funções que exerço que me fazem ter alguma credibilidade. A isso chama-se fruto do bom trabalho e empenho mais tarde, se semeaste, também colhes os frutos. Se fores paciente.

Para terminar, sabemos que és um homem calmo mas que também ferves em pouca água. O fim do racismo passa por fervemos todos em pouca água?


O fim do racismo é uma incógnita e habitará cinicamente em muitos seres humanos e o pior é que também é em muitos dos nossos amigos com quem convivemos. Portanto, não acredito que esteja para breve sequer. Apenas vejo que deveria haver mais tolerância e mais amor ao próximo sem julgamentos, sem supremacias ou exclusões sociais. Mesmo eu lido com tantas coisas diariamente que tenho que pensar duas vezes e controlar os meus impulsos. Há limites para tudo. Nós negros temos de ser mais inteligentes e gerir melhor os impulsos, não esquecer o passado mas também não generalizar e viver como se fosse uma perseguição e aprender a individualizar casos, entidades e instituições só assim poderemos equilibrar a balança.

Relembramos-te que a BANTUMEN disponibiliza todo o tipo de conteúdos multimédia, através de várias plataformas online. Podes ouvir os nossos podcasts através do SoundcloudItunes ou Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis através do nosso canal de YouTube.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.