Um grupo de artistas negros quer que a morte de Bruno Candé continue na ordem do dia. Para tal, juntaram-se para produzir um vídeo onde exigem justiça e que não seja sonegada a motivação racista do crime hediondo que chocou Portugal em julho.

Bruno Candé Marques, actor da companhia de teatro Casa Conveniente, de 39 anos, foi morto a tiro por um otogenário em Moscavide, Lisboa. O crime ocorreu depois e durante injúrias racistas por parte de Evaristo Martinho, o homicida.

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No curto espaço de quatro semanas, a sociedade portuguesa foi palco de manifestações racistas cuja escalada exige uma resposta célere e um posicionamento explícito das entidades competentes num Estado de Direito Democrático. Este sábado, em frente à sede do SOS Racismo, houve uma parada de um grupo neonazi, de rosto tapado e tochas. Fizeram-se filmar, fotografar e, com sentimento de impunidade, partilharam com gáudio essa informação pelas redes sociais. Algumas semanas antes, haviam grafitado a fachada da sede da mesma organização com a frase “guerra aos inimigos da minha terra”, aliás, como já haviam feito noutros espaços da Grande Lisboa onde inscreveram frases xenófobas e racistas (mural de homenagem ao activista José Carvalho; edifício do Conselho Português para os Refugiados; escolas Eça de Queiroz, da Portela e Escola Secundária de Sacavém). Perante esta escalada dos ataques, que é antecedida e acompanhada por um regime de ameaça e insulto constante a dirigentes do SOS Racismo, assim como a outros activistas antirracistas e antifascistas, não houve qualquer demonstração institucional pública de repúdio. Perante o assassinato brutal de Bruno Candé às mãos de um ex-combatente da guerra colonial que durante dias o perseguiu, o insultou e baleou até à morte, não houve uma declaração institucional de pesar e comprometida com o antirracismo. As condolências e suporte institucionais nunca chegaram à família. Ao invés disso, da parte do Estado, tivemos a pronta declaração pública do Comissário do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP, minimizando as motivações racistas neste assassinato. Embora a investigação estivesse apenas a começar e nem fosse da sua tutela (mas sim, da PJ), a precipitação e ingerência de um representante da PSP não teve qualquer demarcação pública ou consequência para o autor. Tivemos duas contra-manifestações do Partido Chega onde por baixo da capa “Portugal não é racista”, se incita ao anti antirracismo, chegando-se ao ponto de devassar a vida privada de uma criança negra, de difundir informação caluniosa sobre Bruno Candé, poucos dias depois da sua morte. ( continua nos comentários )

Uma publicação partilhada por justiça por Bruno Candé (@oracismomatoudenovo) a

O grupo de atores, que inclui Matamba Joaquim, Paulo Pascoal, Zia Soares, entre outros, defende que “sem justiça não há paz”. Tal como sublinhado no vídeo, que já se encontra disponível no YouTube, as imagens foram realizadas por “artistas que, como ele (Bruno Candé Marques), negros, portugueses e residentes em Portugal” se revoltaram com a situação.

“Exigimos que o homicida Evaristo Marinho seja acusado e condenado por homicídio premeditado com motivações racistas. Sem justiça não há paz!”, pode-se ler no vídeo publicado nas redes sociais da BANTUMEN, em parceria com o coletivo de artistas.

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