Quando “a mudança” é anunciada por palavras fuscas e promessas vagas ou quando se pede “moderação” a um grupo de pessoas que tem sido, ao longo dos tempos, oprimido, negligenciado, discriminado e abusado em todos os aspectos sociais, políticos e económicos, a descrença no Estado e nos seus representantes passa a ser perigosa.

Nos Estados Unidos da América, vimos protestos pacíficos e nada aconteceu. Vimos protestos violentos e nada aconteceu. Pretos continuam a ser vistos num plano desumanizado e continuam a ser mortos selvaticamente por entidades públicas e em nome da segurança e da paz do Estado. Agora, o protesto chegou, finalmente, ao plano económico. A franja da sociedade que maior poder tem para forçar esse mesmo Estado a criar equidade para todos os seus cidadãos acaba de tomar uma atitude, há muito esperada por quem pouco ou nada pode fazer além de votar e ir para a rua manifestar.

Foto de Mike Ehrmann/Getty Images)

Os atletas profissionais negros são o motor de quase todos os desportos de massas que movimentam milhões. São milhões nos cofres do Estado e nos bolsos de um grupo de pessoas influentes e decisoras, que contribui diretamente para a interminável discriminação que a comunidade negra vive, seja nos EUA, Portugal ou qualquer outra geografia do mundo ocidental.

Em 2016, Colin Kaepernick teve a coragem de enfrentar toda uma indústria, praticamente, sozinho. Foi banido e enxovalhado. Hoje, o que vamos fazer a todo um clube que decidiu que “já chega”? Brancos e pretos uniram-se para dizer basta. Basta de inação. Se o bolso é o único meio de luta para empurrar políticos e atores sociais para uma discussão livre de hipocrisias e que apresente soluções, então, ataquemos o bolso. Não podemos ser apenas entretenimento. Não nos podemos esconder atrás do sucesso que temos para fechar os olhos ao que os nossos “anónimos” estão a passar.

A irmã de Jacob Blake, o homem alvejado sete vezes nas costas por um polícia, e que despoletou este novo nível de protestos, teve o discurso mais esmagador e sensato que alguém, pode ter sobre este assunto e que passo a citar: “Tantas pessoas entraram em contato comigo para me dizer que lamentam que isto esteja a acontecer com a minha família. Bem, não se desculpe porque isto acontece com minha família há muito tempo”. A família a que ela se refere é todo o cidadão negro oprimido, subjugado e assassinado pelo racismo. São precisas ações. As palavras já não chegam.

A Major League Baseball acordou. A NBA acordou. A WNBA acordou. Outros se seguirão. E aqui, onde somos todos irmãos e até toleramos bem os pretos, quando é que vamos acordar? Mesmo não tendo acontecido rigorosamente nada depois do caso que fez do futebol português manchetes internacionais pelas piores razões, o Marega foi, até agora, o único a ter o discernimento e a atitude necessária para mostrar que não basta ficar calado e fazer de conta que não se passa nada. Ah, o Marega não é português. Talvez seja essa a condição necessária para vermos o que está mesmo à nossa frente. Afinal, somos da terra dos brandos costumes, dos conformados e dos pacatos.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.