A tarde estava calma na Avenida da Liberdade. As pessoas passeavam descontraídas e serenas na rua ao mesmo tempo que o Cinema São Jorge começava a receber os primeiros convidados. Algumas, instigadas pela curiosidade, espreitavam para o hall do espaço na tentativa de perceber o que ali se iria passar. Havia, pouco depois das 17 horas, uma concentração de pessoas a sorrir, a conversar e a tirar fotografias junto ao cartaz oficial do filme.

Era esse cartaz que, colocado no canto ao lado da bilheteira, onde tanta gente posou para fotografias e deu entrevistas, despertava a curiosidade das pessoas. Sem certeza do que estaria prestes a acontecer, mas desconfiadas de que seria algo bom o suficiente para juntar tanta gente, as pessoas lá iam espreitando, perguntando e sorrindo perante o cenário de um final de tarde que, para alguns, se avizinhava cheio de emoções.

E não era para menos. Afinal de contas, estávamos prestes a conhecer, em primeira mão, o filme “O Fim do Mundo”, assinado pelo realizador luso-suíço Basil da Cunha. Aquela que poderia ser apenas mais uma antestreia tinha, na verdade e na essência, um sabor especial: era uma produção rodada na Reboleira, em crioulo, com atores não profissionais, com moradores do bairro e com toda a verdade e reflexão que estas questões nos merecem.  

Basil da Cunha foi o primeiro a chegar ao local. Visivelmente feliz e, ao mesmo tempo, expectante, foi recebendo os seus convidados cuja alegria e ansiedade eram perceptíveis nos sorrisos e na forma tímida como iam respondendo às perguntas colocadas pela BANTUMEN. Era o “dia D”. O culminar do trabalho de toda uma equipa que, depois de ter ganho destaque no Festival Locarno e em todos os países onde estreou, chegava agora a Portugal. Mais do que isso, à Avenida da Liberdade. Precisamente ao Cinema São Jorge, local emblemático da cultura portuguesa por onde já passaram algumas das maiores produções cinematográficas do país. Estes fatores poderiam ser o bastante para uma tarde e noite felizes, mas faltava um ingrediente importante para o resultado final ser perfeito: a aceitação do público, as palmas e o reconhecimento.

Não tardou até Basil perceber que, aquilo que para muitos parecia ousadia, para outros tantos significava um tiro certeiro no que diz respeito à representatividade, inclusão e reflexão sobre a vida de jovens e adultos a quem os sonhos foram, de certa forma castrados. Falamos não só de um bairro à beira da destruição, mas de “um filme feito de dentro para fora”, segundo o realizador, que faz questão de realçar que o trabalho foi realizado com o contributo de toda a comunidade. “Escrevemos as falas deles [Spira, Giovani e Chandi] em conjunto”, acrescenta justificando também que a opção pelo crioulo surge na tentativa de trazer a realidade necessária à narrativa. 

Na verdade, falar sobre “O Fim do Mundo” é falar sobre um filme “duro, mas real” segundo o rapper Loreta, um dos convidados que marcou presença na antestreia, e que em declarações à BANTUMEN, também afirmou que tudo aquilo retratado por Basil era verdade. A verdade com que o próprio teve de lidar e crescer. 

O fim do mundo
Fotografia: Janeth Tavares /BANTUMEN

Não obstante, aquilo que Basil nos faz entender através de expressões do quotidiano, olhares, silêncios, música e ambiente, há também a questão dos talentos para os quais é necessário olhar. “Há tanto talento aqui”, afirma a estilista Roselyn Silva visivelmente feliz à saída do auditório, reforçando que é necessário olhar para estes jovens e para estas pessoas com a dignidade que lhes é merecida, sem julgamentos.

São histórias de “amor, amizade e lealdade”, segundo o ator Alexandre da Costa Fernandes que interpreta Chandi, intercaladas entre a esperança e a incerteza. É a história de um bairro “que estão todos convidados a conhecer” e de “pessoas reais, muitas vezes invisíveis”. É uma produção que, nas palavras da cantora Mayra Andrade, “vale a pena ver”.

“O Fim do Mundo”, segundo Basil da Cunha, representa “as lutas e batalhas que muitos jovens travam”. É uma reflexão sobre a forma como muitas vezes “não somos o que queremos, mas aquilo que a vida quer que sejamos”, disse Alexandre da Costa Fernandes. É, ao mesmo tempo, reconhecimento. As palmas ouvidas no final da sessão, perante um auditório cheio, remetem-nos para isso mesmo.

  • O fim do mundo
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E, aquela tarde calma, transformava-se numa noite feliz onde os rostos dos atores, realizador e restante equipa espelhavam a certeza de um trabalho bem feito. Estava lá tudo: as palmas, as gargalhadas do público aquando do visionamento, a aceitação. O dia normal das pessoas que atravessavam a Avenida da Liberdade era ao mesmo tempo um passo importante, e necessário, para aqueles jovens, para aquelas pessoas a quem Basil resgatou o orgulho e deu uma voz.

Voz essa que vai poder ser ouvida, a partir de dia 17 de setembro, em mais de 20 salas de cinema espalhadas pelo país.

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Inconformada por natureza, acredito que o sucesso é um processo de melhoria contínua. Apaixonada pelas liberdades e oportunidades que a vida tem para oferecer. Teimosa o suficiente para não desistir, inteligente o suficiente para saber quando desistir.