“Tu mataste o meu irmão Ferreira, agora sou eu que te vou matar”…
Este foi o gatilho de Maradona Dias dos Santos e de Chris Roland na expetativa de atingirem a nossa ansiedade, levando-nos a um “A Saga continua”. Ela continua, mas por enquanto, através das redes sociais.

O filme Santana teve uma tarefa bem mais complexa que qualquer outro lançado pela Netflix, agradar o povo angolano que, se eu não conhecesse, diria que tem um mestrado e um doutoramento em crítica – em todas as áreas possíveis.

Um filme, em boa parte dos casos, é tão bom quanto o financiamento o permite ser. A minha análise do filme Santana reflete os aspetos mais comentados nas redes sociais e com base no que se poderia fazer bem ou melhor com o “suficiente”, a nível financeiro, uma vez que não se sabe publicamente quanto o filme custou.

DIÁLOGO E REPRESENTAÇÃO
Quando acontece alguma coisa inacreditável ou improvável, nós, os angolanos, comummente usamos a frase “tipo nos filme”. Isso, porque a linguagem de um filme é completamente diferente da dinâmica nas interações do mundo real. E o diálogo é o escudo e a arma de toda e qualquer obra cinematográfica.

Um filme com um “bom” diálogo, tem mais de metade de chances de ser um bom filme. Santana teve um diálogo aceitável mas, infelizmente, os atores não souberam entregar as falas com naturalidade e traquejo, um problema com que o cinema angolano se debruça desde a sua raiz. Entre nós, ainda paira a ideia de que os personagens precisam soar como soamos na vida real – motivo pelo qual os personagens deste filme soavam “robóticos”.

Na linguagem cinematográfica, um diálogo não é uma conversa, é um meio de se transmitir propósito, através de cada linha de fala. Propósito este que servirá como alavanca para o desenvolvimento e os objetivos dos personagens e da história em si. Simplesmente dizer o que foi escrito, não chega.

Salvo algumas exceções, os atores representaram bem, alguns melhores que outros. Tiro o chapéu ao ator nigeriano, Hakeem Kae-Kazim, que sem dúvida fez juz ao seu histórico. Já o ator principal, Paulo Americano, não pareceu corresponder às exigências que o personagem principal deste filme requeria. Talvez seja por falta de boa direção, ou talvez mesmo de habilidade, o que posso dizer é que neste filme, senti que Dias Santana precisava de uma orientação diferente, que quem sabe, os próprios realizadores conseguiriam ter dado.

PRODUÇÃO, PÓS-PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO
A direção de atores é uma tarefa que se complica à medida que a qualidade do ator diminui. O filme contou com bons atores mas que, provavelmente, teriam conseguido dar muito mais se fossem melhor dirigidos (não necessariamente por realizadores diferentes).

O trabalho cinematográfico foi bem feito, com destaque para o salão do barão Makimba Ferreira e o quarto de Dias Santana. O filme conta igualmente com bons planos, movimentos de câmera interessantes, escolhas artísticas criativas e cortes certos nas horas certas durante os momentos de ação. A trilha sonora é boa, as transições foram bem feitas e a sonoplastia quase que seguia o mesmo caminho se não fosse pela péssima qualidade na captação dos diálogos ao longo de quase todo filme. Pareceu que, em alguns momentos, houve a tentativa de tapar buracos, com os efeitos sonoros (muitos também de baixa qualidade) e as músicas em primeiro plano, deixando a má qualidade das falas em segundo. Som vale 50% de um filme, há inclusive quem diga que sejam mais 10%. E quando este é mau, ainda que o filme seja bom, o filme passa a ser mau.
O mise-en-scène (tradução literal do francês, posto em cena – design de tudo que aparece em cena) foi bem conseguido e retrata na sua forma mais simplista a realidade do ambiente angolano.

ENREDO
No meio do mundo da dramaturgia, há aqueles que se preocupam mais em criar e desenvolver bons personagens e há aqueles com um maior fascínio pelo enredo. Santana parece não ter recebido a devida atenção em nenhum dos dois. O objetivo parece ser mais o de entreter que de transmitir impacto emocional e um bom desenvolvimento. Ao invés de sermos encantados e persuadidos a querer chegar ao final, fomos arrastados com uma fraca construção nas relações entre os personagens que não foi explorada o suficiente para que nos conectássemos com qualquer um deles. Certas emoções e informações quase que caíam de paraquedas apenas para que estivéssemos a par do que estivesse para acontecer, e outras não foram explicadas de todo. Não houve uma montagem “peça-a-peça” de detalhes que permitissem a fluidez da narrativa. Nomeadamente, o romance entre Dias Santana e a agente Célia, o feitiço lançado ao Dias Santana, a habilidade de sniper de Matias Santana, a razão da morte da mãe dos protagonistas, a infância difícil de Dias Santana, como os irmãos atingiram os altos cargos na DNIC (além de fazerem parte da mesma equipa), entre outros. Foram vários os detalhes em falta na estrutura do filme.

Em suma, os produtores de Santana fizeram-nos viajar duas vezes, durante o filme e durante a análise do mesmo. Tendo em conta os erros técnicos e as lacunas no enredo, infelizmente não posso dizer que gostei do filme, mas sem dúvida, adorei assistir ao filme, principalmente por, dentre todos, já realizados por angolanos, ser o primeiro que a nível técnico e de qualidade de imagem mais se assemelha aos tão aclamados filmes norte-americanos, para além de ser o que mais “longe” chegou. E só por isso, já tiro o chapéu e digo que me sinto orgulhoso.

Unicamente a equipa do filme sabe e consegue medir quão difícil foi realizá-lo. E por mais que as nossas críticas sejam válidas e bem empregadas, na hora do “vamu vê” é tudo 100 vezes mais complicado. Portanto, independentemente do que se diz nas redes sociais, e do que foi escrito neste artigo, devemos todos estar gratos a esta equipa.

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