Dércio Tomás Ferreira, escritor e realizador, tem-nos habituado a trabalhos que se focam em temáticas sociais e está para muito breve a estreia do seu mais recente trabalho, MEMO, com a participação de quatro nomes grandes da representação angolana, as irmãs Dicla e Tânia Burity, Walter Tomás Ferreira e Sílvio Nascimento. Estivemos à conversa com o realizador, para que nos desse pormenores sobre o que aí vem.

Dércio, antes de mais, parabéns pelo novo trabalho! Há alguma razão em particular para a escolha destes temas mais de cariz social?

Sou da opinião de que todos nós temos alguma responsabilidade social. E eu tenho um particular interesse por questões sociais porque sou negro e vivo numa sociedade repleta de injustiças sociais e com estruturas de poder desiguais para as comunidades não brancas. Então, acabo por juntar as duas coisas nas quais dedico mais tempo da minha vida.

Como nasceu este trabalho ou a partir de que ideia começaste a escrevê-lo?

Esta websérie, na verdade, nasceu da vontade de criar algum conteúdo com o Walter Tomás Ferreira. Tanto do meu lado como do Sílvio, principalmente do Sílvio [risos]. Era um sonho a realizar, então decidimos realizá-lo. Ele é, para mim, o melhor ator angolano e não trabalhar com ele quando tive a oportunidade seria loucura. Depois disso, reunimos e explorámos opções. A conclusão a que chegamos era a de que precisávamos de algo nunca antes feito em Angola, uma obra cujo personagem é um génio.

O que ditou o processo de escolha dos atores?

Estaria a mentir se dissesse que passámos por um processo de casting. Eu e o Sílvio Nascimento somos sócios e dividimos a mesma visão naquilo que são os nossos próximos passos para elevar o cinema PALOP. A escolha do Walter foi o que já citei anteriormente e a Tânia e a Dicla também foram por uma questão de oportunidade “a não perder” e pela enorme estima que temos pelas duas. Há outros atores secundários na série, mas que ainda não podem ser revelados.

Qual o alcance desejado com a websérie?

De momento estamos a explorar e a negociar opções. Infelizmente não posso avançar com mais.

Em termos materiais e em tempos de pandemia este projeto rende-te algum valor financeiro?

Dependendo do resultado das opções de distribuição que temos em mãos, sim e não. Estamos na era do streaming, com ou sem pandemia, as coisas são possíveis quando se trabalha bem.

Como surgiu a escolha do nome para a websérie?

O termo MEMO na verdade não tem um significado, mas pode ser a abreviação da palavra memória, por ser um elemento primordial na construção do personagem principal, Talib, interpretado pelo Sílvio. Por sofrer de PHDA, Talib tem perdas de memória constantes.”

Continuas a fazer tudo sozinho no que diz respeito à parte técnica do teu trabalho?

Na verdade nunca fiz tudo sozinho. Estou é envolvido em tudo. Até hoje, tenho escrito, produzido, realizado e editado os nossos projetos. Estas são as únicas coisas que faço quase sozinho. Mas tenho a minha equipa, meus soldados com quem tenho enfrentado estas guerras todas. Nos últimos tempos liguei-me a várias pessoas novas, mas o Rahiz e o Geovany Cattuco têm sido duas constantes desde que estou nesta área. E além deles, trabalho sempre com amigos meus.

Onde e quando será a estreia?

“Ainda não temos data para a estreia nem plataforma. Infelizmente teremos todos de aguardar, inclusive eu.

Estás onde e como querias estar a nível profissional?

Tenho muito pouco tempo de estrada e já consegui realizar três curtas-metragens e vários outros projetos. Trabalho e conheço muitas pessoas. Tenho uma rede de contactos vasta e tudo em tão pouco tempo. Cada passo dado pertence à minha jornada e desde que continue a evoluir, estarei sempre motivado e feliz por estar onde estou. Sem contar que não tenho meta. Irei até aonde a vida me levar.

Temos uma escrita diferente ou mais amadurecida neste trabalho em relação aos anteriores?

Sem dúvida. Eu literalmente evoluo o dobro a cada três meses. Inclusive, ando super empolgado para escrever os episódios que faltam só por saber que já tenho outras habilidades mais evoluídas.

Até à data a aceitação ou crítica aos teus trabalhos têm correspondido às tuas expectativas?

Até hoje, não me lembro de ter lido ou ouvido alguma crítica que não gostasse. Eu diria que, por enquanto, está tudo tranquilo e favorável. O feedback que recebo é ótimo, tanto o negativo como o positivo, para cada projeto que lanço.

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