Moçambique é dos países entre os PALOP que comprovadamente tem das maiores nascentes de talento artístico. Tal afirmação deriva da quantidade de nomes que a nossa geração tem visto surgir e ressurgir, principalmente dentro das artes urbanas contemporâneas.

Desta vez, apresentamos-te DeHermes, 25 anos, batizado com o nome Elgar Miles de Hermes Sueia e nascido na “Pérola do Índico”. A viver desde muito cedo na Europa com a sua família, atualmente, DeHermes vive em Roma, Itália.

O jovem criativo tem dado passos largos dentro do Fashion Design, onde exibe na sua carteira de clientes nomes já firmados do showbizz em Itália, mas essa não é a sua única ocupação.

DeHermes é também um exímio artista musical, onde explora toda a sua versatilidade que se entrelaça num flow que bebe inspiração em músicos old school tão diferentes quanto 50 Cent, Lenny Kravitz e Enrique Iglesias.

Com o lançamento de um novo projeto na calha, com o selo da sua label Mvrsodyssey, a BANTUMEN esteve à conversa com o artista e fashion designer para melhor perceber o que DeHermes anda a preparar.

Gerir uma carreira profissional que se cruza em duas áreas distintas não é fácil, à partida. Por isso, há algum tempo que o seu foco tem estado mais virado para a música, prova disso foi ter adiado o lançamento da sua marca pessoal, “The Rise of Zeus”. Contudo, DeHermes afirma que ambas as áreas “co-existem no mesmo espaço”.

Sobre o novo projeto musical, “será algo inovador em relação a tudo o que já fiz até hoje, com bastante empenho e dedicação. Eu mesmo fiz questão de me auto-produzir em algumas canções, para conseguir passar em canção e imagens o que realmente quero expressar”, explicou-nos.

Apesar de ainda não adiantar o título, o artista revelou que a obra vai conter três músicas, com dois videoclipes e que o lançamento do tratamento visual será espaçado de 15 dias. O nome de peso a acrescentar à ficha técnica da mixtape, que deverá ser disponibilizada em novembro, é de Ell Puto, conhecido produtor moçambicano.

“Sempre foi um sonho e objetivo meu trabalhar com o EllPuto. É um artista que dispensa apresentações. O seu trabalho fala por si. Estamos a trabalhar no meu primeiro projecto em português, que será uma mixtape com o nome ainda por anunciar e, sem dúvidas, será um produto com bastante qualidade a nível de som e conteúdo.” We Back From The Future! [voltámos do futuro, em tradução livre do inglês].

A inspiração para compor, nos tempos atípicos que correm, surge naturalmente. “O mundo está louco, inspiração é o que não falta”, afirma. No que toca às sonoridades, é um casamento entre vários estilos. “Cresci num ambiente onde tudo se fazia com a música. Desde o reggae ao rock, que o meu pai escutava até ao rnb e hip-hop que a minha mãe gostava na altura. Eu bebi um bocado desses estilos e criei com o EllPuto uma fusão smooth entre o rock, o rnb e o hip-hop”, explica a propósito da nova mixtape.

Em tom de brincadeira, perguntámos-lhe que músicas ouve e teria vergonha de confessar em voz alta. Justin Bieber foi a resposta dada sem pestanejar. E, “assumo sem vergonha, gosto e ponto final”. [risos]

Enquanto criador de música, DeHermes é também um dos responsáveis pela label Mvrsodyssey. Tudo começou com uma colaboração “com um produtor italiano, Chosen1, e na altura começámos numa garagem onde trabalhávamos só nós. Com o tempo, a dinâmica foi mudando, novos artistas foram entrando, o nome da label começou a espalhar-se pela cidade e aí tivemos a necessidade de alugar uma estrutura maior. De dois artistas a nossa label hoje conta com 12 outros artistas de vários estilos musicais”. Além da gestão de artistas, a produtora também está ligada à vida noturna, com eventos de hip hop, e tem um programa de radiofónico “numa rádio bem estabelecida em Roma, que é a CrikCrok” e ainda produzem conteúdos publicitários para várias marcas e empresas. 

Para quem lê este percurso, tudo parece ter sido construído com uma facilidade natural, mas não é bem assim. Um dos temas atualmente em cima da mesa, a nível mundial, o racismo, não passa ao lado do artista, que nos explicou o seu ponto de vista sobre o assunto.

“Itália é um país à moda antiga, em todos os sentidos. Ser negro aqui, como em qualquer outra parte do mundo, é difícil e o preconceito existe sim. Um preconceito que deriva de um nível de ignorância extremamente elevada e da falta de interesse por outras culturas. A cor da pele aqui grita e não importa o teu estatuto social, profissão e etc. O negro formado academicamente e o negro que acaba de chegar de barco refugiado não tem diferença. Humanamente e moralmente, é justo que assim seja mas eles não pensam por esse lado. São guiados sempre pelo estereótipo e o preconceito criados por eles mesmos. A nossa guerra pela inclusão está longe de ter algum tipo de efeito aqui mas nada disso nos pára. Usamos toda a negatividade a nosso favor e transformarmos em energias positivas.” 

Sobre as perspetivas de futuro, DeHermes quer estar mais perto do mercado lusófono e por isso está a apostar em letras em português, que vão dançando entre o inglês e italiano. “A mistura vai estar sempre lá porque eu expresso-me muito assim. Faço um mix de línguas, mas agora o foco será o português a 95%”, afirma.

DeHermes lança assim o seu novo projeto, colaborativo com EllPuto, em novembro, através das habituais plataformas digitais.

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