O Teatro Nacional D. Maria II é uma das salas de teatro mais prestigiadas de Portugal e é lá que está em exibição, até ao dia 13, Aurora Negra, uma peça criada por Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema. Com datas canceladas noutras salas de espetáculos portuguesas, devido à pandemia, a peça vê assim lotação esgotada no D. Maria II.

A encenação reflete as experiências das três atrizes portuguesas que partilham as suas vivências, desconstruindo estereótipos a que os corpos negros, sobretudo das mulheres, estão sujeitos no mundo do espetáculo.

A partir das suas próprias memórias, desde a infância à vida adulta, a constatação da inviabilização dos negros é feita através da leitura de uma carta a Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, a Rainha de Portugal e dos Algarves, nascida em 1819, no Rio de Janeiro, onde lhe é pedido para imaginar “esse corpo cheio de trauma e cheio de dor”.

“Imagina que não conheces o país para onde te trouxeram” ou “imagina, Maria da Glória, que a tua vida não conhece outra coisa, senão a sujeição forçada”, pode-se ouvir numa das falas das atrizes. Esse dia, seria hoje “um dia de liberdade onde existiríamos sem medo”, lemos num post de Instagram sobre a peça.

“O Canto começa na voz de uma mulher que fala. Fala Crioulo. Fala Tchokwe. Fala português. No palco, três mulheres na condição de estrangeiras em qualquer um dos lugares onde se falam estas línguas. 
Hoje entramos em palco. Atravessamos este lugar que nos acompanha, hoje celebramos a nossa existência como mulheres, negras e artistas. 
Por entre luzes, música, figurinos…Hoje as nossas mães sairiam mais cedo do trabalho e poderíamos celebrar juntas. Este hoje não é hoje”, lemos na mesma publicação.

Aurora Negra teve a produção da CAMA e é um espetáculo criado com o apoio da Bolsa Amélia Rey Colaço, uma iniciativa do Teatro Nacional D.Maria II, Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo e Teatro Viriato.

A bolsa, destinada a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes, foi um ‘empurrão’ para uma ideia que, caso contrário, provavelmente acabaria por conhecer a luz do dia “noutros moldes”, de acordo com Nádia Yracema, em entrevista à revista Visão.

“A Bolsa [Amélia Rey Colaço] possibilitou-nos ir mais além. Quando tens esse suporte financeiro, dá-te tempo para experimentar mais coisas, deu-nos esse conforto de poder ser criadoras e experimentar várias coisas”, acrescentou Cleo.

A Bolsa Amélia Rey Colaço, no valor de 22 mil euros, é uma iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, criada em 2018, que se destina “a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes, promovendo a renovação da criação teatral portuguesa”.

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