Os angolanos na diáspora continuam a dar cartadas fortes, mostrando a veia artística que deste povo é característica. Hoje, falamos-te sobre Yilly Ruel (YR), músico angolano a residir no Reino Unido.

Yilly Ruel é um músico que emana um talento que se imiscui no rap mais puro como também no rnb e soul music mais profundos. E mesmo estando a residir fora do seu país de origem, o artista não se desliga das raízes e carrega consigo ao peito a bandeira de Angola por onde passa, tal como quando venceu o terceiro lugar no concurso inglês Open Mic UK 2019. Este programa é uma das maiores competições para novos talentos no Reino Unido.

YR começou a sua trajetória musical em 2012, ainda a residir em Angola, e a sua discografia já conta com quatro mixtapes, sendo a mais recente Paint Your Walls 2.

Além dos projetos em nome próprio, YR tem também vários singles e participações com diversos artistas e vários videoclipes disponíveis no seu canal do YouTube. O ultimo publicado foi “Vida na Rua”, música que faz parte da playlist Velocidade Cruzeiro, que pode ser encontrada no canal no YouTube do artista.

“Vida Na Rua” fala sobre a vontade do artista querer voltar ao trabalho e seguir o seu sonho de se tornar bem sucedido na música. Faz referência também aos vendedores ambulantes em Angola que são muitas vezes maltratados pela polícia enquanto tentam ganhar o pão do dia-a-dia.

Estivemos à conversa com YR para tentar desvendar o verdadeiro Yilly Ruel e os seus objetivos.

Qual é teu nome completo? Quando e onde nasceste?

Filipe Emanuel Cauende, nascido no dia 19 de setembro de 1997 em Luanda, Angola. Nasci no município do Sambizanga.

Onde cresceste? Fala-nos resumidamente da tua infância?


Eu nasci e vivi durante poucos anos no Sambizanga depois fui para outros bairros de Luanda, como o Bairro Popular e Viana. Digo sempre que a minha infância foi no Rangel porque foi lá onde estudei e fiz a maior parte dos amigos que tenho até hoje. Passei por escolas que rodeiam a igreja Nossa Senhora de Fátima, incluindo o São Domingos no ensino secundário. As escolas são católicas então tive uma boa educação religiosa.

Depois, os meus pais decidiram investir em mim e enviaram-me para terminar o ensino médio na Namíbia. Foi lá onde aprendi a falar inglês e compor em inglês também. Depois de terminar, acabei por vir para Liverpool para fazer a faculdade. Sempre fui um puto extrovertido e, até certo ponto, focado nos estudos. Por isso, sempre fui um estudante de destaque em todas as escolas que frequentei. No que toca à música, sempre foi um grande amor. Ouvia muita música quando era pequeno mas eram mais músicas populares, aquilo que aparecia na MTV e tal como Lil Wayne, Chris Brown… Em Angola era Cage One, Army Squad, Anselmo Ralph, acho que o único artista que ia atrás para ouvir era o Dji Tafinha.

Como foram os primeiros passos dentro do meio?

Sempre tive amor por música porque escrevia muitos poemas de amor. Era um puto que amava bué (risos). Por acaso, tinha uma maior paixão pelo RnB do que rap. Queria ser o próximo Chris Brown mas vi que a minha voz não era assim tão boa para isso. Sobre os primeiros passos, sempre achei que, para ter um som gravado, era necessário ir a um estúdio e pagar um produtor para produzir uma música tua e eu sabia que os meus pais não iriam fazer isso por mim. Eu tenho um grande amigo, o Anilson, que me falou de uma aplicação de computador chamada Audacity, que dava para gravar música e era de graça, isso em 2011.

Literalmente, cheguei a casa nesse dia, baixei a aplicação, baixei um beat que encontrei no YouTube, escrevi algo em cima, procurei por um microfone e encontrei aqueles auscultadores que tinham microfones incorporados e usei para gravar.

Gravei com headphones assim durante um ano até me mudar para a Namíbia e eu e o meu irmão mais velho juntarmos dinheiro e comprarmos um microfone para gravar. Acho que a paixão pela musica já tinha e só faltava um impulso. O amigo mostrou-me que era possível gravar em casa e o meu irmão deu-me a garra que eu precisava para continuar a gravar porque as minhas primeiras músicas eram mesmo podres, mas ele viu talento em mim.

Quem é o Yilly Ruel ?

Yilly Ruel ou Y.R é um rapper angolano que simplesmente ama fazer música. Ama contar as suas histórias e experiências para o mundo. A forma como o nome Yilly Ruel surgiu não tem uma história interessante por trás, apenas surgiu para me diferenciar de outros nomes que já tive, como Young Responsible e Young Rapstar. Quis criar um nome único para poder criar a minha marca como artista. Já há muitos Youngs e, nada contra, mas eu não queria ser incluído nesse mesmo grupo.

Como foi participar no Open Mick e ficar em terceiro lugar?

A experiência foi boa, não esperava ficar em terceiro lugar mas trabalhei para isso. Acho que a minha estratégia foi bem montada. Eu queria que nessa competição eles soubessem mais sobre Angola, então entrei com o meu guitarrista que também é angolano, o Rubson. Não queria que essa história fosse apenas sobre mim. Se ganhasse a competição, queria que fosse com o meu companheiro porque estamos na caminhada juntos. Atuamos músicas minhas em inglês, que falavam sobre a minha visão da sociedade e no mundo. A primeira fase foi em Liverpool. Cantei o “Brown Eyes”, que faz parte da minha mixtape Painting On The Wall. A segunda fase foi em Manchester e a música foi “Do You Really Love”, que por acaso é uma nunca foi gravada, e a que cantamos na final que aconteceu no 02 Arena em Londres foi o “Imma Be Ok”, que faz parte da minha última mixtape Paint Your Walls 2. É uma música que conta a minha história então acho que ali eles conheceram mais sobre mim e a minha vida. Não foram só as barras mas também vestidos roupas tradições para complementar a ocasião.


O concurso contribuiu de alguma forma no reconhecimento das pessoas face ao teu talento e na visibilidade como artista?

Bem, deu-me exposição para uma audiência diferente da que estou habituado, um público predominantemente branco. A beleza disso foi saber que eles também entenderam a mensagem das músicas mesmo não conseguindo se relacionar com algumas delas. Essa é a beleza da música. Não aumentou muito a minha visibilidade por não ser um concurso como X-Factor que tem cobertura da televisão, mas acima de tudo foi uma boa experiência.


Fala-nos sobre o grupo a que pertences.

SB Music é basicamente um grupo de amigos que por acaso começaram a fazer música por diversão. Com o tempo, alguns perceberam que a música não era a área em que queriam investir. Nem todos tínhamos os mesmos sonhos e objetivos. Eu sempre tive a mesma ideia, que é trabalhar para que um dia possa viver da música. Alguns dos meus amigos ainda cantam por diversão.

Atualmente, apenas eu e o Young B é que somos artistas da SB Music. O resto está dividido em diferentes áreas para elevarmos a nossa imagem como possível label, mas acima de tudo a minha como Yilly Ruel. Então temos pessoas a trabalharem na área de marketing, área financeira e um agente. Somos 10 membros no grupo (sete rapazes e três raparigas).

Qual a influência que os rappers de Angola têm na tua música ?

Por acaso demorei algum tempo até encontrar artistas com quem me identifica-se. O primeiro artista que vou mencionar nem sequer é rapper.

Anselmo Ralph é um artista que me influenciou porque as letras dele são simples mas ao mesmo tempo tocam na alma. Com tempo, ouvi o Dji Tafinha e me identifiquei completamente. Considero-o um dos artistas mais completos que o nosso mercado tem, pela sua música e a forma independente com que ele trabalha. Prodígio é o terceiro e acho que para além das punchlines que ele tem, a agressividade e emoção em cada barra que ele lança me cativam. Ele é sem duvida um dos melhores da nossa geração.

Com quem gostarias de trabalhar?

O primeiro seria o Dji Tafinha por eu ser um grande apreciador da sua arte. Outros artistas inclui Prodígio, T-Rex e Toty Sa’med. Acho que só o facto de poder ter uma conversa com esses artistas já seria bom porque eu gostaria de saber como eles são e pensam sobre a sua arte antes de criar qualquer música.


O que podemos esperar do Yilly Ruel para o resto do ano de 2020?

A playlist do Velocidade Cruzeiro ainda vai continuar, então podem estar atentos para mais música e videoclipes até ao final do ano.

Quais são as tuas projeções para o futuro, ou não pensas nisso ?

Bem, eu penso em continuar a trabalhar na minha arte. Eu quero investir naquilo que é a minha carreira em Angola e futuramente expandir a minha música para o resto de África, tal como África do Sul, Zimbabué, Nigéria entre outros países de língua inglesa. Por compor também em inglês acho que haverá facilidade nesse sentido.


Falar sobre vendedores ambulantes é bastante interessante, o que motivou a agarrar neste assunto ?

Eu acho que os nossos vendedores são grandes batalhadores. Eles acordam cedo para trabalhar para ver conseguir algo para alimentar as suas famílias. Eles fazem parte da nossa cultura a muitos anos e a comunidade so tem crescido, acho que é um fator que o governo Angolano deve analisar e saber onde se beneficiar desse fenômeno ou o que fazer para estabilizá-lo. Eu canto sobre isso porque essa é a vida em Angola, tu não sais de casa sem ver um zungueiro ou uma zungueira. Tu vês zungueiros nas noticias perdendo a vida, tu vês eles as serem impedidos de trabalhar e não tem como não mencionar sobre isso nos sons por ser a minha realidade.

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