É difícil não associar o nome de Basil da Cunha àquele que pode vir a ser um ponto de viragem na história do cinema português. Depois da estreia em Locarno e de dois prémios arrecadados no Festival IndieLisboa, o filme O Fim do Mundo chegou aos cinemas portugueses no dia 17, tendo vindo a esgotar salas, revelando-se um sucesso de bilheteira.

A BANTUMEN entrevistou o realizador após a exibição da passada sexta-feira, 18, no Cinema Ideal, numa sessão cujos valores de bilheteira reverteram a favor da família de Bruno Candé que faria 40 anos nesse mesmo dia.

O Fim do Mundo, revela-nos Basil da Cunha, é a “sequência do trabalho feito nos últimos 12 anos”, altura em que chegou à Reboleira. Foi na comunidade que o recebeu de braços abertos que o realizador percebeu a importância de retratar as “lutas que os rapazes travam”, reforçando que inicialmente o filme era para ser apenas sobre um grupo de amigos que pretendia “salvar o bairro”, mas o rápido envolvimento da comunidade obrigou a alguns reajustes. Entraram personagens novas, embora o núcleo duro se tivesse mantido.

Spira, Xandy e Giovanni, os três amigos que ganham destaque na produção, são parte desse núcleo. Dentro do mistério que rodeia Spira, ao estilo cómico de Xandy, passando pela hostilidade de Giovanni, é possível encontrar aquilo que, nas palavras do realizador, constitui um “trio clássico do cinema” que “funciona bem”. Os jovens, que já se conheciam, brindam-nos ao longo da trama com momentos de amizade e lealdade, que ganham força, realidade e naturalidade com o discurso em criolo.

Para Basil, esta sempre foi uma questão importante no processo de produção. Além de ser a língua que se fala no bairro, o criolo assume neste filme uma posição política. “Também faz parte”, refere acrescentando que a escolha do dialeto foi natural e que “o bonito disso é que fica muito próximo do que estava escrito [no guião] mas com mais magia, mais poesia e mais comédia”. Mas, fê-lo acima de tudo por não gostar de ver filmes sobre o gueto “mas que são muito naturalistas”, ao mesmo tempo que admite que sempre teve dificuldade em acreditar na forma como “eles [outros atores] falavam e se mexiam”.

Ciente dos talentos com os quais tem vindo a trabalhar, o realizador luso-suíço recusa que os seus atores sejam apelidados de “não profissionais”, situação que levou o próprio a corrigir alguns jornalistas. “Os meus atores têm um currículo mais pesado que muitos atores profissionais”, admite numa alusão às curtas e longas-metragens nas quais a comunidade já trabalhou. Segundo Basil, os atores tratam-se acima de tudo de “heróis e merecem ser filmados com os códigos do cinema”, afirma quase que numa tentativa de resgatar o orgulho e dar voz a uma comunidade muitas vezes esquecida. “Muito talento, muito cinema”, são as palavras escolhidas pelo realizador para descrever o bairro, não escondendo, ao mesmo tempo, que foi difícil condensar toda aquela realidade em 107 minutos e que uma das suas maiores frustrações foi não ter conseguido introduzir ainda mais personagens. Contudo, assegura que o trabalho foi feito com preocupação e pensado antes. Da escrita à rodagem, passando pelo facto de dar dignidade aos personagens. Até a forma como é rodado o filme tem importância. “A forma como mostras as pessoas diz muito da relação que tens com elas”, refere acrescentando que tem com as pessoas que filma uma relação de carinho, amor e protecção.

É legítimo afirmar que foi esse conjunto [carinho, amor e protecção] que fez com que a produção ganhasse destaque em todos os locais onde estreou. Foi pelo trabalho dos atores “não-profissionais” e toda uma equipa técnica que Basil da Cunha viu o seu esforço reconhecido ao ser um dos grandes vencedores do Festival IndieLisboa. Um prémio que considera “importante para a [nossa] autoestima”, mas acima de tudo um orgulho colectivo por ver a comunidade, outrora marginalizada, ser reconhecida apenas pelo seu trabalho. “É uma vitória de todos”, remata.

A esgotar salas de cinema desde a estreia, Basil da Cunha afirma que tem estado a receber muito carinho e que as “pessoas estão a apreciar”. Além do feedback positivo, o realizador assume que haver “vontade de conhecer a reboleira” é também uma vitória, embora esteja ciente que a existir mudanças, não serão para já. “O cinema não muda tudo, mas pode mudar algumas coisas”, admite.

Sobre o futuro, avança-nos que vai voltar a filmar brevemente. A Reboleira voltará a ser o epicentro de toda a história onde vai ser possível reencontrar alguns personagens, mas com um foco diferente. Sem acrescentar muito, Basil da Cunha refere apenas que as mulheres estarão em força neste novo projeto. “São guerreiras e as histórias delas merecem ser contadas!”.

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Inconformada por natureza, acredito que o sucesso é um processo de melhoria contínua. Apaixonada pelas liberdades e oportunidades que a vida tem para oferecer. Teimosa o suficiente para não desistir, inteligente o suficiente para saber quando desistir. P.S: Ainda compro jornais em papel.