Há quase 14 anos que Nigga N’Zau vive na penitenciária de segurança máxima de Swaleside, em Inglattera. Com uma infância marcada pela guerra, privações, imigração e um erro grave, entre vários, que lhe custou grande parte da sua juventude, N’Zau está agora de olhos postos no fim da sua pena e no que o futuro lhe reserva. Estivemos à conversa com o rapper para perceber melhor este seu percurso e como pretende recuperar a liderança da sua vida.

No início da década de 1990, o pai do rapper, N’Zau Puna – ex-militante da UNITA e atual deputado do MPLA, e Jonas Savimbi, líder do partido do Galo Negro morto em 2002 – tiveram um desentendimento que acabou por desencadear a sua ida para Portugal em 1992, na altura com sete anos.

Na Jamba, onde nasceu (1984) e cresceu até então, N’Zau não fazia ideia das dificuldades que o cercavam. “Eu não tinha informação nenhuma sobre a vida fora da Jamba. Eu não sabia o que era a vida na Europa, nos EUA ou na Ásia. Eu nem sabia o que a vida era em Luanda. Para mim, a minha vida na Jamba era normal porque era tudo o que conhecia. Só quando tive a oportunidade de viver no exterior é que tive a oportunidade de perceber as dificuldades que tínhamos, as coisas que não tínhamos e a diferença entre a vida na mata e nas cidades”, disse-nos.

Ir à escola, o que para a maioria é um simples exercício diário, na Jamba significava andar cerca de quatro a cinco quilómetros a pé, debaixo do sol. Na ida e no regresso a casa. A meio do caminho, passava-se em casa da professora para pegar o quadro de ardósia. Cerca de oito alunos transportavam aquela que era a única ferramenta de ensino que a escola tinha. De sublinhar que uma escola, naquela altura e naquela região, era um recinto ao ar livre, em que troncos de árvores serviam de bancos. “A caminhada era dura. Muitos de nós nem tínhamos sapatos. A caminhada era feita na areia quente, na altura não havia asfalto, e havia vezes que a areia estava tão quente que tínhamos de parar para fazer chinelos com folhas de árvores. Mas lá está, no momento não achava que aquilo era sofrimento ou que não era normal. Na minha mente, à volta do mundo era o que todos faziam.”

Esse foi o seu mundo. Aquele em que, por ter passado de ano, recebeu uma lata de Coca-Cola como presente. Era produto raro e o “reconforto” de um pai acabado de chegar de uma frente de combate, depois de largos meses longe de casa. “Eu corri o bairro todo com a lata de Coca-Cola na mão a gabar-me, como se aquilo fosse uma PlayStation ou um X-Box 360. E, por causa do estatuto do meu pai na UNITA, eu tinha sorte. Havia miúdos à minha volta que nunca tiveram a possibilidade de beber uma Coca-Cola sequer.”

Chegado a Portugal, N’Zau estabeleceu-se no Ribatejo com a família. Uma das primeiras recordações que tem é a facilidade com que uma criança podia comprar um gelado, gasosa ou um chocolate. E pior, quando se desperdiçava comida. “Foi um choque”, afirmou.

De repente, o jovem viu-se a ter coisas que nunca teria sequer imaginado. “Na Jamba eu tinha um par de sapatos que o meu pai trouxe da África do Sul e que era três, quatro vezes maior que o meu tamanho. A minha mãe nem me deixava usar aquilo, a não ser em ocasiões especiais ou paradas do Dr. Savimbi. Chego a Portugal e de repente tenho um par de Converse All Star, umas calças da Levi’s… Era um luxo comparando com o que tinha na Jamba”.

Os anos passaram e o artista foi ainda parar aos Estados Unidos, Canadá e Holanda, antes de chegar ao Reino Unido. Ficou em casa de familiares e amigos da família, enquanto os pais iam e vinham de Angola, mas as coisas nem sempre correram da melhor forma.

N’Zau acabou por “cair na vida das ruas”. “Não foi porque não tive a possibilidade de não me meter nas ruas, não foi porque me faltou comida no prato ou porque os meus pais fumavam crack, que é a história da maioria dos miúdos [nos EUA ou Reino Unido]. Houve algo que me atraiu nas ruas. Foi a irmandade entre os meus amigos. Certas influências, o poder, a brutalidade. Uma das coisas que posso ligar à Jamba é a brutalidade e o que nos foi ensinado que podemos ganhar com o poder da brutalidade. Na Jamba somos ensinados a não levar desaforo para casa. Não podia voltar para casa a chorar porque o meu amigo me bateu. O homem tem de ser forte. Nós ali [naquela altura de guerra] estamos num ambiente protegido por violência, se não aprendemos a usar a violência extrema a qualquer momento, um dia podem invadir-nos e a Jamba deixaria de ser Jamba.”

Apesar de todas essas circunstâncias, N’Zau acredita que há um único culpado pelas consequências dos seus atos, ele próprio. “Eu não tenho desculpas para justificar a minha vida marginal. Essa vida não me escolheu. Eu escolhi essa vida.”

Entretanto, foi expulso do Canadá e dos EUA e acabou por ir parar a Portugal novamente, por alguns meses, e depois Holanda. Na altura, já começava a levar a música mais a sério e decidiu mudar-se para Inglaterra, em 2006, com a intenção de se renovar. “Cheguei aqui como estudante, para cursar Marketing na universidade, depois voltar para Angola e dar um rumo na minha vida”. Passou-se só um ano até cair nas malhas da prisão.

“Conheci alguém e uma oportunidade de negócio criou-se e alguém acabou por morrer”. A versão oficial sobre o crime que cometeu indica que N’zau matou outro homem por razões passionais. Contudo, o rapper afirma que essa não é a versão correta. “O namorado de longa data desta mulher devia-me dinheiro e desapareceu. Fui repetidamente a casa dele para tentar encontrá-lo e acabei por me envolver com a moça. Mas quando o incidente se deu nós já tínhamos terminado. Naquela cidade, tinha quatro miúdas. Não me comprometi com alguém. Nunca fui do tipo de pensar em casamento ou de estar em relações sérias. Eu gosto de mboas [mulheres]. Gosto de uma mboa que tem casa, que posso lá ir cozinhar, dormir. Uma mboa que me pode guardar a minha bula ou a minha pistola. E esse relacionamento já não tinha benefícios. Então, basicamente, o rapaz voltou, alguém me ligou a avisar que estava a haver uma festa e que o rapaz estava lá e tudo aconteceu. Não foi intencional, não fui lá para matar alguém. Fui buscar a minha massa”, indica.

N’Zau conhecia bem a casa e entrou pela porta de trás. “Um pormenor que não levei em consideração foi o facto dele ter descoberto que eu me tinha envolvido com a sua namorada. Ele atacou-me com vigor e eu tive que me defender. A mulher saiu de casa e foi chamar a polícia. Eu fugi, tinha uma arma no carro que deitei ao rio para não ser apanhado com ela e foi tudo muito rápido, fui apanhado.”

Apesar das suas escolhas encontrarem, consciente e inconscientemente, algum fundamento em situações que viu e viveu durante a infância e adolescência, N’Zau, preso há 12 anos, mantém uma relação visceral com o pai e não lhe imputa qualquer culpa por ter enveredado pelo caminho da delinquência. “Ele não fez nada de errado comigo. Ele fez mais do que muitos pais fizeram. A única pessoa que tem a culpa pelo que fez sou eu.”

Com os pés assentes no chão, N’Zau confessa também que se arrepende de não se ter esforçado mais em relação à música. “Se tivesse estado mais tempo em estúdio, as coisas teriam sido completamente diferentes”, afiança.

O passado ficou para trás e o foco agora está no futuro. Com apenas mais dois anos de pena por cumprir, Nigga N’Zau acredita que vai poder começar a trilhar um novo começo. “Uma das coisas que ganhei estando preso, ou que acredito que ganhei, só vamos ver em prática quando sair, é maturidade, paciência e ver as coisas a longo prazo. Além de responsabilidade”, revela o autor de “O Que é o Beef.

Sobre a carreira, “enquanto as letras me vierem à cabeça, sempre farei música. Ou estarei sempre ligado à produção.”

Nesta segunda-feira, 28, Nigga N’Zau lança uma mixtape e prepara-se para o atual ambiente do rap game com os miúdos da nova escola.

Para esses mesmos miúdos e para todos aqueles que o ouvem, deixa um conselho: “Curtam a minha música, curtam as minhas rimas, sintam o talento, mas não glorifiquem o meu lado negativo. Por mais que pareça que nas minhas músicas eu glorifico o que fiz, não [é verdade]. Só o Nigga N’Zau pode calçar os sapatos do Nigga N’Zau. É só aquilo que vocês não devem fazer. Aprendam com os meu erros, porque ao seguir os meus passos, provavelmente vais acabar no cemitério, no hospital e, se tiveres sorte, podes acabar numa cadeia.” O rapper acrescenta que é preciso saber aproveitar as oportunidades que nos vão aparecendo pela frente, porque nem sempre vai haver uma segunda chance.

A primeira parte do seu projeto, Clássicos da Cela, já está disponível em formato Extended Play, intitulado Dinheiro para Advogados, e que foi captado na prisão de Swaleside.

Com 17 minutos, o EP tem cinco faixas, que inclui o single “O que é o Beef”, apresentado ao público em agosto deste ano, e duas faixas que estão disponíveis apenas no Soundcloud: “Minha Vida e Minha Opinião”.

“Dinheiro para Advogados” é um projecto musical que nos tele transporta para a sonoridade dos anos 90 e com uma mensagem de introspecção sobre a sociedade e a trajectória do rapper e o movimento rap.

O EP está disponível em todas as plataformas digitais.

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