Nos últimos tempos, é crescente o número de vezes em que o fónio é citado na imprensa internacional. Este cereal africano é descrito como um super-alimento e tudo indica que é a nova coqueluche da gastronomia saudável. Pierre Thiam, galardoado chef senegalês, indica que pode revolucionar não só a nossa alimentação diária, como a agricultura africana e não só. Para percebermos melhor o que é, a origem e como cozinhar o fónio, a nutricionista Cristiana Ramos desenvolveu o artigo abaixo sobre o assunto, em exclusivo para a BANTUMEN.

O continente africano é a casa de inúmeras diversidades de painços (espécies cerealíferas). Um dos cereais mais cultivados neste continente é o fónio, cereal da família do millet, característicos das zonas mais áridas da África Ocidental. Existem dois tipos, o fónio branco (nome científico Digitaria Exilis) e o fónio preto (nome científico Digitaria Deflexa).

O fónio é um cereal de menor expressão mundial, já que o seu cultivo é limitado a determinadas áreas geográficas. Contudo, na África Ocidental, este tem um papel importante visto que o mesmo é ingerido em substituição do arroz durante períodos críticos, como períodos de fome aguda. Está na base da cadeia alimentar dos agricultores pobres, por isso tem um papel muito importante e ativo neste contexto social. 

Este cereal é cultivado em locais bastante secos, com taxas de fertilidade baixas, já que não necessita de grandes quantidades de água para ser produzido. Desta forma, podemos olhar para o mesmo como um cereal futurista, para o qual devemos cada vez mais virar todas as nossas atenções, já que cresce em locais onde mais nenhum consegue. Tendo em conta que atualmente vivemos no limiar do aquecimento global, podemos vir a ter aqui uma resposta bastante pertinente em reação à procura de alimentos que sejam produzidos em tempos de seca e que sejam sustentáveis ao ambiente, já que o mesmo, não necessita de grandes quantidades de água para a sua produção. 

Em países do continente africano, como a Guiné, este cereal é também popular em cerimónias culturais e religiosas. 

Origem: África Ocidental, no entanto o Fónio preto é mais comum na Nigéria, Togo, República do Benin (2).

Contexto Histórico: Um dos cereais da África Ocidental mais antigos, com registo de cultivo com mais de sete mil anos. O seu período de cultivo é curto, cerca de dez semanas, representando uma fonte rápida de alimento. É considerado um cereal sagrado. Durante a época da colonização, surgiam rumores em como os cereais locais não tinham um valor tão nutritivo em relação aos importados. O resultado foi um decréscimo no consumo deste cereal por parte de diversos povos, ao ponto do fónio quase ter desaparecido da dieta destes. O seu re-aparecimento acontece no final do século XX devido à fome sentida nesse período. 

Composição nutricional – valor por 100g de produto :

-Fónio branco: 332Kcal; 7,1g de proteína; 3g de gordura; 70g de Hidratos de carbono; 7,4g de Fibra;8,5 g de ferro (6).

-Fónio preto: 343Kcal; 8,9g de proteína; 3g de gordura; 69,4g de Hidratos de carbono; 6,2g de Fibra;10g de ferro (6)

Benefícios Nutricionais e Características: O fónio é um pequeno grão do tamanho de uma semente, semelhante à mistura do couscous e quinoa, que quadruplica o seu tamanho após cozedura (5). 

Sendo um cereal, o fónio é caracterizado pelo seu elevado teor proteico e de fibra e, baixo teor de colesterol, sódio e glúten. Rico em vitaminas do complexo B, zinco e magnésio (5). É considerado o cereal de mais fácil digestão na África Ocidental. 

É um cereal recomendado para Diabéticos (pelo ser baixo valor de índice glicémico entre 49 a 35 – valor que indica como os hidrato de carbono afetam os níveis de glicose sanguínea numa escala de 1 a 100, em que alimentos com valores menores ou iguais a 55 representam valores baixos). 

É também recomendando a celíacos ou indivíduos com intolerância ao glúten, bem como idosos e crianças com dificuldade em digerir outros cereais e é um cereal que não está associado a alergias alimentares.

São necessários mais estudos em relação a este cereal, no entanto já foram efetuados alguns que revelam benefícios no seu consumo para pessoas com Hipertiroidismo – o fónio tem flavonóides que ajudam na prevenção de problemas associados à produção excessiva de hormonas tiroideias. Por outro lado, acaba por não ser recomendado a pessoas com Hipotiroidismo – e ao nível da proteção celular contra radicais livres (devido aos antioxidantes que nele existem). 

No geral, é um cereal bastante completo e com um alto valor nutricional. 

Como cozinhar?

Com um sabor de frutos secos e terra e uma textura semelhante ao couscous, pode ser facilmente introduzido em inúmeros pratos da nossa gastronomia. 

Pode ser ingerido tal como o millet, quinoa ou bulgur, servido frio ou quente. Normalmente é cozido em água quente e após este processo pode ser incluido em sopas, saladas, guisados, em bowls, um num hambúrguer vegetariano (5). 

Hoje em dia pode ser adquirido em sites como Amazon, Thrive Market e Walmart.

Bibliografia

FAO: Review of the African millet diversity; FAOSTAT commodity definitions and correspondences; Family Farming Knowledge Platform; Fonio Nutrition Facts and Health Benefits; Food composition table for use in Africa

Wikipédia: Milhete