Mauro Hermínio é um ator português de 33 anos, de origem moçambicana, que já pudemos ver em novelas de sucesso como “A Única Mulher”, da TVI, e “Vidas Opostas”, da SIC, e que tem dedicado a sua carreira a causas que procuram uma melhor representação da classe de artistas e atores negros em Portugal.

Os primeiros passos como ator foram dados na Escola de Actores Impetus, Lisboa, entretanto, passou pela Escola Superior de Tecnologias e Artes de Lisboa para estudar artes performativas e, finalmente, ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema, também na capital portuguesa.

Entre o teatro, cinema e novelas, o ator soma ao seu currículo diversos trabalhos, tendo sido inclusive indicado para diferentes premiações.

Os filmes em que ficou conhecido foram Mutant Blast (2018), Frágil (2019) ou ainda Ruth, de António Pinhão Botelho (2018), entre muitos outros. Já no teatro, Mauro interpretou personagens em Doce Pássaro da Juventude (2015), de Tenessee Williams e encenado por Jorge Silva Melo, Imperatore 2.0 (2018), de Pedro Sousa Loureiro, o monólogo Noman (2014), da sua autoria, ou ainda a participação em Negros, encenado por Rogério Carvalho com a companhia GRIOT, onde um elenco composto por 13 negros dá vida ao tema que aborda os dilemas e as vicissitudes de ser negro num país branco.

Mauro não está só à frente das câmaras ou em cima do palco, também é produtor e um dos responsáveis pela criação do Comicalate, um canal online de séries portuguesas de produção própria.

Das suas origens, Mauro relembra que, apesar de poucas vezes ter tido a oportunidade de ir a Moçambique, é “uma ligação que existe desde sempre”. Além de que, enquanto criança, o próprio país ia ao seu encontro através do quitutes, dos cheiros e das histórias que vinham na mala da família que passava por Portugal. “Moçambique vinha ter comigo através da minha família da parte da minha mãe que nos vinha visitar, e trazia matapa, castanhas, capulanas e história”, disse-nos.

Numa conversa com o ator e produtor, por email, ficámos a conhecer melhor o seu percurso e a responsabilidade social que carrega nos ombros enquanto membro de um setor que é espelho e, ao mesmo tempo, motor da sociedade.

Fala-nos da importância da tua profissão.

O meu ofício existe com a responsabilidade de representar quem compõe o corpo social, os seus cidadãos. Os artistas são cidadãos com uma voz, que através da sua expressão nos inspiram e nos confrontam com as suas questões. Nós, ao vermos, sentimo-nos elevados por nos confrontar com o espelho da sociedade. Por isso, a minha causa não é que façam melhor, a causa é para que façamos melhor. A classe artística acaba por ser uma síntese do que vemos a acontecer à nossa volta. Os governos não querem uma população autónoma, pensante, capaz de discutir com a mesma capacidade de articulação a sua compreensão dos domínios políticos.

Ao longo da tua jornada sentiste-te confrontado com a lembrança constante de seres um ator negro em Portugal?

A questão não é ser relembrado de que sou um ator negro em Portugal, a questão é sentir que as várias estruturas não estão preparadas para ter atores negros a fazer algo que não seja, os típicos papéis estereotipados.

Sentes que há mais espaço para atores negros no estrangeiro do que em Portugal?

Eu acredito que fora de Portugal também se sintam as mesmas dificuldades, mas já vão com muito avanço na conversa. Estamos num país cujo setor cultural é muito descurado, não temos uma indústria cinematográfica, ou teatral. Logo, as várias oportunidades que poderiam surgir ficam circunscritas àqueles que já fazem à partida. Mas sou um otimista por escolha, e começo a ver esta realidade a desfazer-se, com criativos africanos e descendentes de africanos a partilharem as suas histórias e estas vozes harmonizam com outras comunidades, a LGBTQIA+.  Por isso acho que estamos agora a iniciar as várias possibilidades daqui para a frente.

Para ter uma carreira de ator conceituada em Portugal basta o talento?

Uma pergunta com rasteira. Em lado nenhum irá depender somente do talento, o talento leva-nos a ter interesse e, provavelmente, é o que mantém a força da chama acesa. É preciso perseverança, muito trabalho, estudar muito para que se saiba o que aconteceu antes, para saber o que está a acontecer agora e o que realmente queremos do nosso trabalho. Nunca pensei numa carreira mediática. Sinto que isso acontece como consequência, trabalho para expandir a minha compreensão do papel da arte, dos artistas na sociedade e do trabalho artístico.

A nível profissional, que influência tem a tua experiência por Maputo?

A última vez que estive em Maputo foi para gravar o filme Ruth. Fui o sortudo dessa produção. Tenho lá família e foi um primo que me levou a ver o espetáculo Tseke, que estava em cena no Teatro Gungu (Teatro Gilberto Mendes), e vi teatro com o propósito de interpelar junto das suas pessoas, a comentar a polis e as suas dinâmicas, que questionava e inspirava o público. Esta experiência acabou por me pôr em confronto com o papel da Arte na sociedade. E voltei para Portugal disposto a confrontar-me com essas questões. Moçambique é um país incrível e, infelizmente, ainda há muito a fazer para que as suas pessoas tenham uma melhor qualidade de vida. Por isso, foi incrível ver artistas a juntarem-se e a partilharem a sua perspetiva sobre as decisões que os seus governantes tomam, de forma artística.

Tens um percurso bastante rico, parabéns. Até à data e perante tudo o que já fizeste, qual foi o trabalho mais gratificante ou marcante que já fizeste?

Antes de mais obrigado, e agradeço também chamarem de percurso ao meu trajeto, pois acredito mesmo que seja uma imagem mais fidedigna do que realmente acontece. É um percurso que vou traçando com ambição, com objetivos e muito sacrifício. Vou dar a resposta cliché primeiro: todos os trabalhos compuseram-me enquanto artista e as pessoas com quem trabalhei também me marcam sempre. O filme Ruth foi incrível por causa da (apesar de pequena a participação) importância dos temas abordados. A personagem que eu interpretava era o Hilário Conceição, que até há alguns anos atrás ainda ía a Moçambique fazer scouting de jovens jogadores.

A jornada diária de um ator em condições ditas normais não é fácil, pelo que chega ao grande público. Podes dizer-nos quais têm sido as tuas dificuldades neste contexto de pandemia?

A grande dificuldade nesta altura é a inconstância, ou seja, só tornou mais evidente todos os problemas que haviam antes. Eu tenho a sorte de estar com trabalho e aconteceu quase tudo a seguir à quarentena. Parece que toda a meditação está a servir para alguma coisa.

És um profissional multifacetado. Reinventas-te perante as adversidades e acreditas que o melhor ainda está por vir?

Sim. Todos os obstáculos são possibilidades de descobrir algo novo em mim. Sou um preguiçoso naturalmente, por isso, levo algum tempo até perceber que é isso que está a acontecer. Quando sinto a adversidade a surgir, o primeiro instinto é não querer olhar para o problema. Tenho vindo a trabalhar nisso e tem-me tornado no profissional que eu aspirava ser.

Qual achas que vai ser o futuro do teatro e da arte em geral em Portugal?

Os agentes culturais portugueses estão ativos. Sinto que, junto da minha geração, as conversas sérias começam a surgir e, como tal, o ambiente fervilha. Temos criativos inacreditáveis no nosso país.

A que causas estás ligado neste momento da tua vida e porquê?

Não estou ligado a nenhuma associação oficialmente, mas através de donativos, é um interesse meu juntar-me a projetos que dêem vozes a estas causas. A representatividade (étnica, orientação sexual, género) na área artística é um ponto de partida, porque rapidamente apercebemo-nos que temos de motivar os nossos jovens a fazerem parte das vozes que moldam a nossa sociedade. Através da Educação, as aulas de Cidadania podem ser uma possibilidade muito boa de pormos os mais jovens a pensar na nossa sociedade. Agora, mais do que nunca, é urgente ter a consciência de que a estrutura política foi criada para servir o indivíduo e não o contrário. Não nos podemos cingir a sentir as coisas com que não concordamos e não fazer algo em relação a isso. Por essa mesma razão, um dos meus interesses é dar aulas. Sinto que haja um retorno através das ferramentas que tenho vindo a adquirir. Respondi à pergunta?

Sim, ou pelo menos deu para perceber a ideia de base. Que conselhos darias a um jovem ator que está a dar os seus primeiros passos na representação?

Se o intento é sério, o interesse em ser ator deve ser alimentado por uma fome insaciável de conhecimento das várias áreas que potenciam o trabalho de um ator. Poder dizer palavras e darmos corpo às emoções é a espuma da onda.

Numa frase, diz-nos, por favor, quem é o Mauro e o que o move.

É um cavalo que se esqueceu que tem uma antena na testa e é movido a pastéis de nata.

Sabias que com a tua contribuição podes ajudar a BANTUMEN a crescer? O nosso objetivo é criar uma narrativa de empoderamento da comunidade negra lusófona e tu podes fazer parte deste processo. Inscreve-te no Patreon e faz a tua parte! Lembra-te da filosofia Ubuntu: “eu sou porque nós somos”.