A história do continente africano é um assunto controverso: de um lado estão os que defendem África como o berço da humanidade, de outro estão os que entendem o colonialismo como a salvação do continente. No meio da discussão, entre “bons e maus”, “vencedores e vencidos”, estão as crianças africanas a quem continuam a ser relatados factos históricos sob uma perspectiva europeia, quase que anulando a existência do continente antes do período colonial.

O terceiro rio mais longo de África é o Níger. Mas quem está por trás de tal descoberta? A consulta a um livro de história nigeriano é peremptória na resposta: o rio foi descoberto pelo explorador escocês Mungo Park, em 1796. Foi assim que muitas crianças, hoje adultas, aprenderam na sua época de escola, inclusive a historiadora Faith Odele que, apreensiva com tal afirmação, rapidamente questionou “O rio não já existia, antes de Mungo Park chegar aqui? Não havia gente que pescava no rio? Por que motivo os nigerianos ensinam aos seus filhos que o escocês descobriu o Níger?”

Há outros exemplos. Num livro didático de ciências sociais de uma das escolas do Gana, é perguntado aos alunos quais os efeitos positivos do colonialismo. Eis as respostas possíveis: “A) Criação de escolas; B) Introdução do idioma inglês; C) Interesse em produtos estrangeiros; D) Crescimento das cidades”.

60 anos depois do fim oficial do domínio colonial no continente africano, o passado ainda dita as aulas de história de muitos países, numa narrativa, até ao momento, difícil de alterar. “Aprendi pouco sobre a perspetiva da minha gente”, recorda a autora Siyanda Mohutsiwa, de Botswana, afirmando que “O foco histórico limita-se à independência, em 1966.”

Para aprender mais sobre a história de seu país, a autora frequentou aulas complementares em setswana, a língua oficial, o que também acabou por se tornar controverso. “Em setswana, colonialismo quer dizer ‘mudança’. É uma visão “higiénica” do que ocorreu, é quase como se os professores quisessem evitar essa época. Como se, há 20 anos atrás, alguém tivesse lhes dito: ‘Vocês não podem ensinar isso.'”, afirma.

Siyanda Mohutsiwa revela ainda que a disputa pelo continente africano no final do século XIX foi dada numa perspectiva europeia, cingindo-se apenas ao ponto de vista dos Imperadores Alemães e do Reino Unido, dando a sensação de que os livros estudados até então tinham sido escritos pelos próprios.

A responsabilidade dos governos

Mohutsiwa acredita que a raíz do problema vem de trás. “A educação, como a conhecemos, foi introduzida na Grã-Bretanha em meados do século 18, coincidindo com a expansão colonial. A população britânica tinha que ser convencida de que era uma boa ideia escravizar seres humanos.”, afirma, reforçando que, a par da Grã-Bretanha, houve outras potências europeias a perpetuar essa mentalidade nas suas colónias.

“Isso é profundamente problemático”, frisa e acrescenta Faith Odele, que acredita que o conhecimento da história do próprio país é de extrema importância para a formação de identidade: “Não somos compostos só pelo nosso presente, mas também pelo nosso passado. Se nos apresentam um quadro falso, as injustiças [do passado] vão perdurar.”

Segundo Odele, durante todo o período em que frequentou a escola, ainda nos anos 1990, a disciplina de História nem sequer constava dos currículos, mas a historiadora vai mais longe ao afirmar que “hoje existe toda uma geração de nigerianos que não conhece a história do colonialismo”, atribuindo de imediato responsabilidades ao governo que ainda não procedeu à alteração dos currículos e manuais escolares.  

“O nosso governo não quer que lutemos pelo progresso. Assim, do seu ponto de vista, o melhor para a nação é os cidadãos não conhecerem o passado, não saberem que havia revoltas e protestos durante a época colonial, para não poderem fazer exigências [ao governo].”

Apesar da resistência de alguns governos, têm sido criadas e aceites algumas iniciativas com o intuito de colocar a visão africana no foco da história. Exemplo disso é o governo queniano que, no ano passado, concordou com a recomendação da UNESCO de colocar a história do continente nos currículos escolares dos alunos.

A meta do programa da Organização para a Educação das Nações Unidas é “reconstruir a história da África, livrá-la dos preconceitos raciais resultantes do comércio de escravos e da colonização, e fomentar uma perspectiva africana”.

As mudanças estendem-se também ao Botswana. “Por muito tempo só tínhamos professores brancos, e o que me ensinou história também era branco”, conta a autora Siyanda Mohutsiwa, acrescentando que o quadro está a mudar lentamente, mas que já é possível ver professores formados localmente. “O professor que hoje ensina o meu irmão é botswanês”, refere.

Desde 1964, mais de 230 historiadores e especialistas têm trabalhado nesse sentido. Na África do Sul, em 2019, a ministra da Educação, Angie Motshekga, exigiu a introdução obrigatória da história sul-africana e áfrica nos currículos até o 12º ano escolar, além de anunciar um novo plano de aulas obrigatório.

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Inconformada por natureza, acredito que o sucesso é um processo de melhoria contínua. Apaixonada pelas liberdades e oportunidades que a vida tem para oferecer. Teimosa o suficiente para não desistir, inteligente o suficiente para saber quando desistir. P.S: Ainda compro jornais em papel.