Há nove países na África Ocidental, (região do Oeste de África) que, neste momento, estão a passar por diferentes conflitos, e ataques à vida humana, consequência de políticas sociais e económicas deficientes e socialmente fraturantes.

Com as liberdades fundamentais e individuais seriamente comprometidas, a sociedade civil dos respetivos países tem-se erguido para chamar os seus governos à responsabilidade.

Governos corruptos, violência policial, situações de impunidade face a episódios de violência doméstica e violações infligidas a mulheres, exploração de trabalho infantil e tráfico humano, são os principais problemas que assolam atualmente o continente e que têm gerados vários protestos, a nível local e internacional, e movimentos na esfera digital.

Em traços gerais, fica a nota do que está a acontecer em concreto em cada um dos nove países visados (Camarões, Congo, Libéria, Namíbia, Nigéria, África do Sul, Costa do Marfim, Gana e Guiné) e que têm gerado um debate global com o apoio de artistas como Burna Boy, Lewis Hamilton ou Viola Davis. “O que se está a acontecer com os nossos irmãos e irmãs nigerianos é penoso e demasiado familiar”, chegou a dizer Trevor Noah nas suas redes sociais, em relação à Nigéria, recordando o período de opressão vivido durante o apartheid na África do Sul.

Camarões #AnglophoneCrisis

A Crise Anglófona, também conhecida como Guerra Ambazónia, ou Guerra Civil Camaronesa, é um conflito na região dos Camarões do Sul. Em setembro de 2017, separatistas nos territórios anglófonos da Região Noroeste e Região Sudoeste (coletivamente conhecidos como Camarões do Sul) declararam a independência daquela zona, a que chamam Ambazónia e começaram a lutar contra o Governo do país.

Os combates, as atrocidades e os assassinatos de civis pelos dois campos, de acordo com várias ONGs, deixaram mais de três mil mortos e forçaram mais de 700 mil pessoas a fugir de suas casas.

Neste sábado, 24, várias crianças foram mortas num ataque a uma escola na zona anglófona. Pelo menos oito crianças foram mortas e outras doze ficaram feridas. Os agressores estavam armados com catanas, segundo informações divulgadas pelas Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas.

Congo #CongoIsBleeding

O Congo está, em pleno século XXI, a passar por um holocausto silencioso. Milhares de pessoas estão a ser e exploradas e mortas para que o mundo possa beneficiar dos seus recursos naturais. 

Sabe-se que o Congo possui das minas de cobalto mais prolíficas do mundo, produzindo cerca de metade do cobalto utilizado no mundo, um recurso necessário para dispositivos eletrónicos, aeroespaciais e inovações tecnológicas. Há crianças e mulheres violadas e mortas por grupos armados violentos que querem obter o máximo de lucro da exploração de cobalto.

Depois do fim do genocídio do Ruanda em 1994 e com a instalação de uma grande parte da comunidade Hutu no norte do país, as minas de cobalto têm sido tomadas de assalto por tropas do Ruanda e Uganda, que se apropriam do mineral extraído por milhares de crianças em condições desumanas. Estima-se que sejam cerca 40 mil crianças exploradas para trabalharem em busca de minerais.

Esse cobalto que poderia suportar economicamente o país inteiro, é o primeiro produto mais exportado do Ruanda. Também presente em pedras preciosas, é utilizado, por exemplo, nos smartphones, e é motivo de cobiça pelas maiores empresas do mundo, como Apple e Samsung. Multinacionais norte-americanas e chinesas, entre outras, financiam as forças militares do Ruanda e do Uganda.

Libéria #EndRapeLiberia

Em agosto, um protesto de três dias contra as agressões sexuais foi realizado na cidade de Monróvia, com os liberianos a apelarem ao presidente George Weah para responder a uma petição para declarar a violação uma emergência nacional. De acordo com a RFI, “os protestos geraram violentos confrontos com as autoridades, depois de um jovem de 19 anos, alegadamente, ser responsável por uma mutilação genital numa criança de três anos e planear violá-la em seguida.

A violência sexual contra o sexo feminino aumentou 50% na Libéria durante a pandemia. A 11 de setembro, o presidente George Weah divulgou um comunicado declarando o estupro uma emergência nacional no país, de acordo com a Al Jazeera. Entretanto, já foi apresentado o primeiro conjunto de novas medidas para enfrentar o aumento da violência contra as mulheres. As medidas incluem a designação de um procurador específico para lidar com os casos de estupro e estabelecer um registo nacional de agressores sexuais; criação de uma força-tarefa de segurança nacional para lidar com a violência sexual e de género e a mobilização de dois milhões de dólares para resolver o problema.

Namíbia #ShutItAllDown

Também na Namíbia, a população tem apelado, através de protestos, ao presidente Hage Geingob que declare o estado de emergência por causa da violência contra as mulheres e o feminicídio, exigindo uma ação política imediata. Os protestos prometem continuar até que alguma medida seja tomada contra o feminicídio e abuso sexual.

A violência com base no género é um problema persistente na Namíbia. De acordo com a Al Jazeera, no início deste ano, pelo menos 200 casos de violência doméstica foram registados mensalmente, enquanto mais de 1.600 casos de violação foram registados nos últimos 18 meses até junho de 2020, com particular agravante durante o confinamento causado pela  pandemia da COVID-19.

Nigéria #EndSars

Várias celebridades, como Burna Boy, Davido, Diddy, Drake, Viola Davis, entre muitos outros, recorreram às redes sociais para expressar o seu apoio ao movimento #EndSars, que pede o fim da Brigada Especial Anti-Roubo (SARS na sua sigla em inglês) nigeriana.

Apesar do presidente do país já ter anunciado a dissolução da brigada, as manifestações têm continuado de forma massiva, devido à desconfiança que a população tem em relação ao dirigente. A resposta aos protestos pelas forças de segurança têm sido muitas vezes violentas, com organizações a revelarem que várias pessoas já foram mortas, sem ser avançado um número exacto. Por outro lado, o governo indica que apenas uma pessoa morreu. Num dos protestos em Lagos, o governo foi acusado de interromper o fornecimento de energia e rede móvel e ter disparado contra os manifestantes.

África do Sul #AmINext

Luta constante contra o feminicídio e a violação. Este é um problema grave na África do Sul que parece não ter fim. Um dos assassinatos mais chocantes foi o de uma mulher grávida de oito meses, cujo corpo foi encontrado esfaqueado e pendurado numa árvore, em Roodepoort, um bairro a oeste de Johannesburgo.

Dias mais tarde, outra mulher foi encontrada morta, parcialmente enterrada sob uma árvore no Soweto.

Uma mulher é assassinada a cada três horas naquele país. Sobre a problemática, o ativista queniano Jean Paul Murunga, citado pela DW, indica que “alguns governos, como o do Quénia, criaram um comité nacional para a violência com base no género. Mas outros fizeram o costume: declarações oficiais, comissões, mas não há as ações concretas necessárias para resolver a situação”, refere.

Costa do Marfim e Gana  #ChildTraficking

A US NORC (uma das maiores organizações de pesquisa social independente nos EUA) revelou um estudo que indica que um total de 1,56 milhão de menores são exploradas pela indústria do cacau no Gana e na Costa do Marfim, apesar dos esforços consideráveis de grandes fabricantes, organizações civis e governos da região.

Paul Schoenmakers, Chefe de Impacto [Social] da empresa Tony’s Chocolonely, indica que “o maior problema que precisa ser resolvido não está em África, mas no Ocidente: fazer com que as empresas coloquem os direitos básicos da criança antes do lucro. Isto não deve ser uma questão de escolha para as empresas. Precisamos de uma legislação de direitos humanos que responsabilize as empresas por abusos”.

Guiné Conacri #PrayForGuinea

Crise resultante do período pré e pós-eleitoral na Guiné Conacri, na corrida às presidenciais. O até então presidente Alpha Condé foi o candidato escolhido, tendo sido reeleito com 59.49% dos votos, para aquele que é o seu terceiro mandato. Condé está no poder desde 2010.

Pelo menos nove pessoas foram mortas desde a eleição, de acordo com o governo. A violência gerou condenação internacional pelos EUA e outros países. A ONU, através do Secretário Geral, António Guterres, já fez o apelo à resolução da crise através do diálogo e sem recurso à violência.