Ottoniela Ângela da Conceição de Sousa Santos Bezerra, nascida em Luanda em 1990, é a terceira de quatro irmãos. Escritora, licenciada em Direito pela Universidade Metodista de Angola, é apaixonada pela Literatura desde que “se conhece por gente” e aos 16 anos começou a escrever.

Inspirada por nomes como Manuel Rui Monteiro, Ondjaki e Uanhenga Xitu, Margarida Rebelo Pinto, Clarice Lispector, Martha Medeiros ou J.K. Rowling, as suas primeiras confissões da alma começaram n’O espelho da minha alma, o blog que criou ainda na adolescência. Ali, escrevia o que via, vivia e sentia necessidade de transmitir.

“Desde que me conheço por gente que tenho este amor por livros. Em casa sempre fui motivada a ter contato com livros, fazer redacções, resumos, então considero-me escritora nata”, disse-nos a escritora.

Foi nessa fase que Ottoniela Bezerra começou a escrever a sua primeira obra, Retratos de Uma Mulher (In)Comun. Agora, com outros três livros impressos e vários e-books publicados, Ottoniela Bezerra é também a fundadora da organização filantrópica OLA (Oficina Literária), que tem feito um trabalho social ímpar entre crianças desfavorecidas.

“Faço filantropia há sete ou oito anos, a criar e apetrechar bibliotecas, e a OLA surgiu com o intuito de proporcionar às crianças mais desfavorecidas este acesso à literatura”, explicou-nos.

Quando a questionamos sobre o que sente falta na indústria literária angolana, Ottoniela explica que “há vários aspetos que devem ser melhorados, mas deviam ser criados mais programas de fomento e incentivo à literatura por iniciativas públicas e privadas, a nível editorial, e mais apoio ao livreiros. Contudo, infelizmente, há uma crise mundial e que só se agravou com a pandemia”. Mesmo assim, baixar os braços não é opção e, por isso mesmo, além da OLA, a escritora está a desenvolver um programa de intercâmbio literário – que tem como objetivo conhecer novos autores da CPLP e dar a conhecer aos mesmos a literatura angolana.

Foram vários os escritores internacionais que se juntaram ao projeto, como Talita Ribolsas, Martha Medeiros, Fabrício Gardine e Rodrigo Funça, onde debateram temas como a escrita criativa, técnicas, métodos de divulgação de trabalho literário na Internet, entre outros. “Tem sido uma experiência enriquecedora de muito aprendizado, em todos os sentidos”, sublinha. “Eu acho que deveria existir mais interação entre a literatura angolana e lusófona. Até porque estas interacções fazem-nos crescer, é importante bebermos de outras experiências, termos contatos com outras realidades, a todos os níveis e sendo Angola parte da comunidade Lusófona é de todo relevante.”

Nos seus livors, Ottoniela sente necessidade de transmitir conforto ao leitor. Em Retratos de uma Mulher (In) Comum, publicado em 2013, é narrada a história de três mulheres guerreiras que lutam para alcançar a felicidade, assim como as diversas formas que as pessoas têm de superar a dor de perder alguém querido.

Já com Luara, a sua primeira obra infantil, quis tocar na camada jovem que tem a mesma idade de quando Ottoniela começou a interessar-se pelo mundo dos livros.

Luara é muito especial porque tirou-me da zona de conforto e foi gratificante conseguir contribuir para a literatura infantil angolana e ver que a obra foi bem recebida. Sempre desejei escrever para crianças, porque foi na infância que comecei a ter contacto com os livros e porque gosto muito de crianças.”

E a escritora salienta que todos os seus livros são “muito especiais”. Em O Amor conquista Tudo, por exemplo, foi um passo dado com um pouco mais de experiência, estive mais segura enquanto autora, porque não saí da minha zona de conforto.”

Sobre o panorama do meio literário angolano em geral, Ottoniela tem uma opinião positiva. “A literatura angolana é indiscutivelmente muito rica e fico feliz por ver que há por parte dos jovens cada vez mais vontade em dar o seu contributo.”

Sobre os seus projetos futuros, numa perspetiva a longo prazo, a escritora pretende ainda lançar a sua própria livraria.

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