É quase impossível ficar indiferente a Márcia Borges e à sua carrinha. Afinal de contas, falamos de uma Mercedes 408, pintada de rosa-choque, com pestanas nos faróis dianteiros e que funciona como um salão de estética, oferecendo serviços de manicure, pedicure e tratamentos faciais. Por mais inusitado e irreverente que possa parecer, a verdade é que existe e não só é o primeiro modelo de negócio do género em Portugal, como tem vindo a ganhar cada vez mais destaque na comunicação social.

A BANTUMEN entrevistou Márcia Borges, a empreendedora que dá vida e cara ao projecto. Foi ao fim de quatro anos a trabalhar em navios de cruzeiro que Márcia, agora com 29 anos, decidiu que estava na hora de mudar a sua vida. Sem certezas do que iria fazer, mas certa de que queria regressar a Portugal e não queria um emprego “das nove às cinco”, a empreendedora demorou algum tempo a avançar com o projeto como agora vemos.

A ideia, confessou-nos, partiu da sua mãe. Ainda que tivesse demorado algum tempo, Márcia decidiu avançar e começar a trabalhar para que a ideia passasse do papel para um formato físico. O processo foi longo. Cerca de um ano e meio entre escolher a carrinha, pintar, fazer a remodelação interior e tratar das burocracias. Entre a ida ao Porto, para comprar a van, e as deslocações intercaladas ao Alentejo, para verificar como estava o processo de remodelação da carrinha, a empreendedora afirma que a mãe foi a sua companhia. “Ela esteve sempre lá”, conta-nos de sorriso no rosto afirmando que a mãe foi também uma das suas primeiras clientes.

“Eu sou a solução”

A Beauty Van, que agora também circula pelas áreas urbanas de Lisboa, Oeiras e Setúbal, dependendo do planeamento semanal feito por Márcia, começou a sua atividade nos grandes centros empresariais da capital. A rotina diária para muitos portugueses não é fácil e Márcia viu nessa dinâmica de trabalho-casa uma oportunidade para se fazer notar. “A resposta foi muito positiva”, afirma, acrescentando que era sobretudo à hora de almoço que tinha mais clientes. Afinal de contas, uma hora de almoço, por muito curta que possa parecer, às vezes é também o tempo suficiente para arranjar as unhas.

Ainda que o negócio esteja a correr bem, Márcia confessa-nos que nem sempre foi fácil. A par do investimento a rondar os 50 mil euros, fruto das suas poupanças, a empreendedora viu-se também debruçada sobre a fragilidade do contexto atual: a pandemia. Durante cerca de três meses o projeto esteve parado e Márcia só retomou as atividades em “meados de junho”. Com menos clientes, mas com os mesmos gastos, a empreendedora afirma que foi um período complicado. “Não tinha carteira de clientes, foi muito complicado. Continua a ser um desafio ainda”. E foi justamente no desafio e na adversidade que Márcia viu a oportunidade para fazer crescer o seu negócio. “Eu sou a solução”, afirma em jeito de brincadeira ao mesmo tempo que nos conta que o facto de haver algumas pessoas com receio de sair à rua fez com que o negócio crescesse. A Beatuy Van desloca-se até à morada do cliente e, cumprindo todas as normas de higiene e segurança, nas palavras da empreendedora, acaba por ser a solução ideal sobretudo para clientes pertencentes a grupos de risco. Um modelo de negócio “flexível e prático”, que tem vindo a ganhar cada vez mais notoriedade.

Com algumas passagens pela televisão e algumas entrevistas, a dona da Beauty Van afirma que o negócio tem vindo a ganhar cada vez mais projeção, embora nem sempre tenha sido assim. “Não tive retorno”, confessa-nos referindo-se à primeira vez que apareceu na televisão. Márcia acredita que o atual crescimento do negócio está relacionado com os números da pandemia e as recentes restrições impostas à circulação.

O segredo para o sucesso da empreendedora, além da resiliência, está também na estratégia de comunicação. “Estar muito nas redes socias e apostar no marketing” são para Márcia pontos indispensáveis na criação e manutenção da actividade. A esteticista confessa-nos que a sua comunicação passa pelo marketing estratégico e pela gestão das redes socias, mas também pelo “passa-palavra”. A atenção que presta às suas clientes faz com que recomendem os seus serviços, permitindo que o negócio cresça. E se dúvidas houvesse, a empreendedora conta-nos um episódio peculiar acontecido em Vialonga. “Fui lá com uma marcação, sai de lá com sete”, afirma acrescentando que foi também um dos momentos que mais marcou o seu percurso.

“Se [os amigos] ficarem para trás, é porque nunca foram”

Por agora, Márcia está focada em “melhorar o marketing, presença nas redes sociais, números e expandir a marca”. A Beauty Van tem-lhe permitido chegar a alguns investidores e a esteticista afirma que para a marca poder crescer os “números” são muito importantes.

Sobre o futuro, revela-nos querer ter mais carrinhas. A hipótese de franchising a nível internacional também faz parte dos seus planos e a empreendedora garante-nos que é algo que podemos “seguramente” esperar da Beauty Van nos próximos três a cinco anos.

Márcia largou um emprego estável e seguro para dar vida ao seu negócio. Não se arrepende, mas assegura que o processo não é fácil e que quem quer ter o seu próprio negócio tem que estar disposto a tudo. “Não pode faltar força de vontade, foco e saber filtrar críticas construtivas de críticas destrutivas”, afirma, acrescentando que “se tiver que cortar amizades, está tudo bem. Se [os amigos] ficarem para trás, é porque nunca foram”, reitera.

A Beauty Van é, além de um salão sobre rodas, um projeto do qual Márcia se orgulha muito. “É o meu biggest flex. É o meu orgulho”, finaliza.

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Inconformada por natureza, acredito que o sucesso é um processo de melhoria contínua. Apaixonada pelas liberdades e oportunidades que a vida tem para oferecer. Teimosa o suficiente para não desistir, inteligente o suficiente para saber quando desistir.