Há pelo menos duas semanas que vários ativistas preparavam uma manifestação em Angola, para esta quarta-feira, 11 de novembro, um ato simbólico considerando que a data, feriado nacional, celebra a independência do país.

Para se entender, em termos gerais, o que se passa atualmente em Angola a nível social e político, é preciso visualizar o mapa cronológico da História do país: Angola viveu quase 500 anos sob domínio e opressão portuguesa até à proclamação da independência, em 1975. Sem um vislumbre do que seria viver essa liberdade, seguiram-se 27 anos de conflito armado intermitente. Nestas contas, entram cerca de 40 anos de delapidação dos cofres do estado, que culminam nos dias de hoje com uma forte crise económica, agravada pela crise pandémica.

A Educação e a Saúde são pastas que mereceram, quase sempre, uma atenção secundária pelos dois governos que até agora lideraram o país independente, que, por arrasto, resultam nas altas taxas de iliteracia – e consequentemente de desemprego – e de ausência de cuidados médicos básicos para a maioria da população.

Em julho deste ano, analistas independentes consideraram que o Orçamento de Estado revisto para 2020 mostra que Angola terá “a maior contração dos últimos 38 anos”, em parte, devido à Covid-19. Com uma economia ainda muito sustentada pela indústria petrolífera, espera-se que um aumento da procura do petróleo ligado à recuperação das economias mundiais possa aliviar essa contração, estimada em -3,6% do PIB.

Com uma taxa de inflação a subir para os 22,2%, este ano, a população vê-se a braços com uma profunda instabilidade social e financeira.

Com o objetivo de apelar ao governo melhorias nas condições de vida e a marcação de uma data para as primeiras eleições autárquicas, em todo o país, realizaram-se várias manifestações, sendo a de Luanda alvo de repressão e violência extrema por parte das forças policiais.

De ressaltar que, o Governo Provincial de Luanda (GPL) rejeitou a realização da manifestação, alegando que o horário não é permitido – regra aplicada apenas aos dias úteis -, entre outros motivos.

Há vários vídeos (alguns sem possibilidade de se confirmar local e data de gravação) a circular pelas redes sociais onde se constata inclusive a presença de militares, armados até de morteiros, e polícias a cercarem a zona do 1.º de Maio – local onde estava prevista a concentração dos protestos -, revistando transeuntes e automóveis.

Pelo menos uma pessoa terá perdido a vida durante os protestos, facto desmentido pela polícia, mas corroborado por várias fontes presentes no ato, entre ativistas e comunicação social angolana.

A ativista Laura Macedo, uma das organizadoras da manifestação criticou a ação das autoridades. “Não estava a contar com este aparato e muito menos com mortes”, disse.

“Houve várias tentativas de grupos de jovens, mas tudo ficou desorganizado por causa da intervenção policial”, adiantou. À Lusa, Laura Macedo comentou que esperava “um bocadinho mais de civilidade” e “consciência” por parte do governo e não o que aconteceu.

Em vários pontos da Estrada de Catete, a polícia entrou nos bairros em perseguição dos jovens e lançou gás lacrimogéneo.

A polícia carregou várias vezes sobre grupos de jovens que procuravam manifestar-se e gritavam “Violência Não”, sendo dispersados em cada tentativa com recurso a gás lacrimogéneo e carros com canhões de água.

Laura Macedo viu-se também obrigada a “fugir para um quintal” do bairro Palanca onde ficou “barricada” durante a incursão da polícia que “estava a lançar gás”.

“Ninguém conseguiu chegar ao cemitério [de Santa Ana], o local que tínhamos marcado para a manifestação”, contou à lusa, explicando que um grupo de ativistas “conseguiu furar pelos Congolenses, mas depois foram empurradas para dentro do bairro”.

Segundo relatou, foi logo de manhã que a polícia, colocada nos principais pontos de acesso a Luanda, começou a travar os manifestantes.

“Revistavam as mochilas e impediram os transportes públicos de circular a partir de Viana, Cacuaco, Cazenga e outros bairros” de onde os jovens procuravam sair em direção ao centro da cidade. “Alguns mais afoitos conseguiram furar”, acrescentou.

Um jornalista da Reuters relatou ter sido agredido e ter ficado sem a câmara e o fotógrafo da Lusa foi atingido com um projétil cuja origem não conseguiu identificar.

Junto da polícia eram visíveis também carros dos bombeiros e ambulâncias prontos para socorrer vítimas dos confrontos.

O ativista Luaty Beirão recebeu ordem de detenção pela polícia quando transmitia em direto.

Nos segundos finais do vídeo que estava a ser transmitido em direto pelo Facebook, dois polícias aproximam-se do ativista, que tem também nacionalidade portuguesa, e, depois de Luaty dizer que não vale a pena tirarem o telefone porque está a ser transmitido pela internet, pedem-lhe para os acompanhar à esquadra, ao que o ativista pergunta se está a ser detido e um dos polícias responde: “Está detido”.

O vídeo, que dura menos de 15 minutos, retrata a viagem que o ativista, juntamente com outros presumíveis manifestantes, estava a fazer até à manifestação, e durante a caminhada Luaty Beirão vai interagindo com os companheiros e com quem lhe recomenda que não se manifeste.

“Não faça isso? Ó senhora, deixe as pessoas reclamarem, queremos que os filhos cresçam num país melhor, neste país a culpa é da vítima, sempre”, respondeu o ativista, que inicia o vídeo relatando um suposto roubo de uma câmara GoPro por parte das forças policiais.

Mostrando uma atenção frequente ao distanciamento social, pedindo várias vezes aos companheiros para se afastarem, Luaty lembrou que o Presidente angolano, “João Lourenço, inaugurou um hotel, mas aí já não é ajuntamento, só há ajuntamentos é na rua”.

“O país não tem dono, as ruas não têm dono, a gente quis acreditar que havia alguns espaços a serem dados, e há alguns espaços a serem dados, não pode é haver aceitação que esses espaços sejam retirados, esses recuos é que não podem ser tolerados, porque se recuas um passo, eles vão querer que recues 10, e depois quando te meterem o pé na garganta, podes-te queixar que ‘I can’t breathe’, o resultado é George Floyd”, disse, numa referência ao afro-americano que morreu nos Estados Unidos quando foi violentamente detido pela polícia na rua.

“O que já se conquistou não se retira, senhor Presidente, senhor Procurador-Geral da República, senhor comandante, Angola não é vossa, não é minha nem das pessoas que aqui estão comigo, é de todos”, acrescentou.

“Enquanto uns querem querem conversar e querem dialogar, outros vêm e começam a disparar”, disse Luaty Beirão em declarações registadas em vídeo pelo portal angolano Marimba. “Há notícias de pelo menos um rapaz que morreu, ele estava ajoelhado, ele estava com um cartaz que dizia ‘deixem-me viver’. Qual é a ironia que pode existir? Não pode haver. É uma tragédia.”

“O responsável moral principal por isto é o Presidente da República“, acrescentou Beirão, salientando que a morte do manifestante deve ser imputada a João Lourenço por “legitimar” a forma como a polícia agiu em repressão dos manifestantes. “Não podemos andar com rodeios nem com paninhos quentes”, disse. “No tempo do José Eduardo não se matava à queima-roupa assim. Matava de outra forma. Tiravam da manifestação, levavam aos jacarés e atiravam”, acrescentou. “Mas assim. Bala real, pessoas que estão com cartazes?”

Apesar das limitações impostas pelas autoridades e da repressão por parte da polícia, as medidas não impediram a realização de protestos na capital angolana, cujos números de adesão ainda não foram divulgados.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.