Intelektu é Moisés Simão, também cinhecido por Mutu Moxy. É o tipo de artista que não estamos habituados a ouvir nos dias de hoje. A sua vontade de fazer diferente, naquilo que é considerado o normal num percurso no hip hop, fê-lo compor músicas em kimbundu, uma das línguas nacionais de Angola.

Foi nos anos ’90, na sua terra mãe, Luanda, onde começou a rimar com apenas 11 anos.

A sua relação com o hip hop nasceu quando ainda vivia no bairro “Zengá” (Cazenga, periferia de Luanda), onde absorveu o melhor dos ritmos que batiam naquela altura, como Miriam Makeba, Fela Kuti, Bob Marley e sobretudo alguns artistas angolanos como Ngola Ritmos, Belita Palma, Luís Visconde, David Zé, Artur Nunes, Teta Lando, entre outros, que Intelektu considera como “artistas revolucionários”.

A dada altura, um vizinho que tinha residência fixa no Brasil deu a Intelektu três cassetes: a coletânea Hiphop Cultura, De Rua, com Thaíde e Dj Hum, e Código 13.

“Deu-me igualmente Public Enemy, o álbum Fear Of A Black Planet e a coletânea Consciência Black, onde participaram os Racionais Mc, DMN, etc. Logo comecei a emular o flow, a cadência e quando dei por mim já estava a fazer pois apaixonei-me por”, relembrou o rapper.

A sua primeira música aconteceu em português e caracteriza-a como um “rap engajado”. “Gravei em casa em 1990, num aparelho Lansonic e chamava-se “A Guerra”, sendo que Angola neste período mergulhava numa guerra civil cuja história gente sabe”, disse.

Hoje, Moxy caracteriza-se artisticamente como sendo criativo, resiliente, polivalente, recebendo destaque a sua capacidade de criar rimas multi-silábicas.

O facto de rimar sobretudo em kimbundu faz com que se destaque em relação aos outros artistas. “Acho autêntico e original apegar-me às minhas origens”, diz-nos. Essa particularidade não acontece porque quer agradar ao outros, muito pelo contrário. O objetivo é “rimar para a mente”.

“Angola é dos poucos países africanos onde não se faz rap em línguas autóctones, portanto, já sou um exemplo a seguir”, sublinha.

Intelektu acredita que é importante os artistas terem contato com as suas raízes, fazendo referência à frase do ativista politico jamaicano Marcus Garvey: “um povo que desconhece o seu passado histórico, assemelha-se a uma árvore sem raiz”, explicando que é necessário “mergulhar no passado, a fim de se construir um presente e um futuro bem sólido”.

Na sua discografia, contamos seis álbuns, EPs e compilações como produtor. O feedback que tem recebido é um bom indicador sobre o trabalho que tem feito. “A maioria das pessoas identifica-se com os flows, skills, fundo e beats com swing underground“, diz.

“Cada canção minha, transmite um sentimento único. Logo a grosso modo elas vão desde temas mais sofridos ao alegre. A mensagem é consciente e contundente entre factos, anedotas e ficção”.

Recentemente, o Intelektu lançou um álbum colaborativo com um MC francês, Alexx. Com o título Microphone Politique, a obra conta com 10 faixas musicais e é cantada em francês e inglês.

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Carrego a cultura kimbundu nas veias. A minha angolanidade está presente a cada palavra proferida. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O meu mantra é "o conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, portanto, não seja recluso da ignorância".