Há 20 anos que Mariama Barbosa é uma referência dentro dos eventos de moda mais relevantes em Portugal. A trendsetter, uma das mais importantes da terra de Camões da atualidade, é apresentadora do programa televisivo “Tesouras e Tesouros”, mas já serviu em bares, centros comerciais, restaurantes, foi assistente de moda, aderecista da ModaLisboa (onde atualmente desempenha o papel de Relações Públicas), teve um programa de rádio e escreveu um livro. A lista parece exaustiva, mas é um reflexo do percurso sinuoso e resiliente da luso-guineense, que abandonou o país que a viu nascer com apenas cinco anos.

Mariama vê na mãe uma musa inspiradora e, nas redes sociais, somos testemunhas de como as suas origens continuam a ser um pilar fundamental na sua construção enquanto pessoa.

Compilando o seu conhecimento sobre a arte de bem vestir, “Só é feio quem quer” é a frase que, depois de tantas vezes repetida, acabou por se tornar num livro onde explica como “vestir com pinta sem gastar uma fortuna”.

Seja pela postura, pela coroa que ergue orgulhosamente ou pela gargalhada que lhe é muito própria, Mariama tem uma presença indiscutivelmente carismática. O que terá contribuído para o seu sucesso.

Na primeira pessoa, a profissional do mundo da moda contou-nos um pouco sobre o seu percurso, as origens, a família e a importância de ser quem é sem pensar no que os outros vêem. No fim, ainda conseguimos uma avaliação de temas de atualidade, e não só, com as suas expressões – que são quase uma imagem de marca – como “Pau pau pau”, “Chupa Limon” e “Féché”.

A elegância que sempre viste na tua mãe foi o fio condutor para a ligação com a profissão que tens hoje e para a qual sempre lutaste?

Sim, a minha mãe foi esse fio condutor porque realmente ela sempre foi uma mulher muito elegante, muito discreta mas, além da minha mãe, também tenho as minhas tias e o meu tio, que sempre foram pessoas muito atenciosas na maneira de vestir. Não digo que sejam “fashion victims” mas, sempre tiveram cuidado e prazer em escolher as suas roupas. A minha mãe é das minhas maiores inspirações, assim como a minha tia, o meu tio António (nós chamamo-lo Toninho), aliás, ele que foi manequim nos anos 80 e isso influenciou muito o meu gosto pela moda.

Vir tão pequena da Guiné faz-te, ainda assim, viver uma dualidade cultural que se manifesta no teu dia a dia ou as memórias são tão escassas que a realidade portuguesa é a tua base?

Vim da Guiné muito pequenina. A realidade portuguesa é a minha realidade, é onde vivo, onde tive o meu filho, onde faço tudo, onde trabalho, aliás, onde conquistei tudo o que tenho hoje mas nunca esquecendo as minhas bases. Aliás, quase todos os dias falo com alguém da minha família na Guiné. Fisicamente já há muitos anos que não vou lá mas, realmente, existe uma dualidade muito presente, muito natural e diária e faz de conta que estou em África. Naturalmente que me faltam algumas coisas, como por exemplo, a liberdade da terra, os cheiros, as visitas inesperadas mas, sempre bem-vindas.

Há uma influência cultural guineense, direta e concreta, no teu trabalho?

Há uma influência até bem nítida. Às vezes, quando me falta alguma palavra em português, falo simplesmente em crioulo sem problema, acho que faz parte de mim. Não tenho de fugir daquilo que sou, não sou uma pessoa que sabe tudo e quando fico com algum bloqueio mental em português, e volto às minhas raízes, penso em crioulo e sai tudo em crioulo.

O cabelo é uma das referências icónicas da tua imagem. Tens uma autêntica coroa. Pode dizer-se que é um dos pontos fortes da tua imagem?

Muitas pessoas acham que é a minha imagem de marca. Eu sempre usei o cabelo de várias formas, é uma das características que nós africanos temos (lisos, comprido, tranças), fazemos de tudo mas já usei cabelo afro há uns anos mas voltei aos lisos e quando fiz 40 anos decidi não o desfrisar mais e assumir aquilo que realmente Deus me deu e faz parte do meu estilo. Mas a verdade é que também não sou pessoa de ficar presa a uma imagem que idealizam, até porque temos de ser nós a estar confortáveis com as mudanças pelas quais vamos passando. Agradeço também esse ensinamento passado por várias mulheres africanas para mantermos os nossos cabelos naturais tanto, homens como mulheres.

No meio em que te inseres, sentes necessidade de afirmares a tua identidade negra?

Acho que nem preciso dessa afirmação porque já me apresento como sou, com essa premissa de grande mulher negra. Não penso nisso pois é tão natural e real. É como eu sou e basta.

Sentes que acaba por ser um percurso solitário, no sentido em que a ausência de diversidade é uma realidade em várias áreas profissionais portuguesas e ainda mais na da comunicação social?

Sim, sinto falta de diversidade. Desde negros a indianos, ciganos, etc, mas, não acredito que seja uma realidade que esteja para durar pois o mundo está ajudar neste sentido e nós temos de mudar com ele, senão ficamos para trás. Falo de Portugal e de todos os outros países que têm características semelhantes neste aspeto. 

Uma vez, questionaram-me se em África existem muitos profissionais brancos à frente das câmeras e eu fiquei a pensar e respondi que não mas, mesmo que tivéssemos uma grande comunidade europeia a morar em África, não sei se as percentagens seriam as mesmas. De forma geral, gosto de pensar não na cor da pessoa mas sim no talento e nas capacidades que tem, que se lute pelos sonhos em que se acredita. Sou a favor da diversidade nos meios de comunicação e espero ver um dia a presença de pessoas de várias etnias nos grandes ecrãs de televisão. É o meu sonho.

Sobre a luta antirracista, onde consideras que se manifesta a tua responsabilidade ou contributo social para essa causa?

Sobre o racismo, o meu papel e a minha luta são diárias. Quando existe um movimente, naturalmente há envolvimento mas o essencial concentra-se nas acções do quotidiano. Quando vejo alguma situação de injustiça, de racismo, de xenofobia ou qualquer ato de perseguição, intervenho na hora. Todos temos de agir perante estas situações.

Quais são os teus principais ideais?

Os meus principais ideais concentram-se num único: “Só o amor interessa!” A partir deste pensamento, todos os teus atos têm de ser geridos e pensados de forma a entender que não farás aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem.

O teu forte é a comunicação, o styling ou os dois juntos?

O meu forte é o trabalho que me aparecer à frente. Se for styling faço a 100%, se for comunicação faço a 100%, assim como se for produção. Já fiz vários tipos de trabalhos e acredito que o futuro trará isso mesmo, diferentes desafios para além do styling e da produção e os trabalhos são realizados com o meu máximo de empenho.

Passaste por bares e restaurantes, entre outros trabalhos. Na moda, podemos considerar o Dino Alves como a tua porta de entrada para esse mundo?

Ah, o meu percurso passou por restaurantes, centros comercias, passou por várias outras coisas, cabeleireiros também, fiz imensa coisa. Trabalhei muitos anos com o Dino e depois conheci o Luís Pereira e depois passei para o trabalho nos bastidores como aderecista e a partir daí as coisas foram seguindo o seu rumo, mas seguramente que o Dino Alves representa o meu trampolim de apoio aquando da minha entrada no mundo da moda.

E neste setor, temos uma plataforma incontornável no teu percurso que é a Moda Lisboa.

É verdade, já trabalho na moda Lisboa há 20 anos. Como referi comecei como aderecista, comecei muito cedo e é um casamento duradouro, graças a Deus.

Ao longo destes 20 anos, o que mais te marcou?

O que mais me marcou foram as mudanças do mundo que se refletem no mundo da moda. A crise económica e a falta de poder de compra, as muitas mentes criativas que desistiram por não terem mercado e ver grandes sonhos minados. Marca-me sempre. Por outro lado, as grandes criações/invenções e a relação da moda com a evolução tecnológica que serve de empurrão para reduzir o impacto ambiental da indústria.

Vendo de fora, parece um mundo com alguma rotatividade. Como é que consegues manter-te tantos anos?

Pois, em 20 anos já presenciei muita rotatividade. O segredo, acho que está em saberes o teu lugar, seres uma boa comunicadora, ser simpática e eficiente. Muitas vezes amigos e familiares pedem favores mas respondo-lhes sempre com a questão de estar a representar uma entidade, uma organização que me obriga a ter ética e a minha interferência é sobretudo profissional, desde não passar por cima dos meus colegas a não fazer certas e determinadas cedências só por serem amigos ou familiares meus, como se se tratasse de um evento meu, por eu ser RP e ter algumas liberdades. Podes ser a dona do teu pedaço mas há que saber adequar essa postura em contexto profissional, onde se impõe, sobretudo, a humildade.

Agrada-te a atual intensidade no teu ritmo de trabalho?

Não me agrada a intensidade do ritmo de trabalho, queria poder ser eu a fazer os meus horários mas não me desagrada o que a vida me dá. Abraço todas as oportunidades que a vida me dá com muito amor e humildade e agradeço a Deus todas as oportunidades.

Consideras-te uma workahoolic?

Não me considero uma workahoolic mas também não deixo para amanhã o que posso fazer hoje.

Todas as outras portas que se abriram, profissionalmente, deveram-se à relevância do teu trabalho na Moda Lisboa?

Todas as portas que se abriram deveram-se à maneiro como trabalho. Além da ModaLisboa, também trabalho para o Portugal Fashion e para outros eventos que não são tão sonantes mas, o segredo está em fazer sempre bem as coisas, não ter medo de “sujar as mãos” e fazer tudo o que for necessário desde varrer o chão a ter de montar estruturas ou ir para a cozinha. E é também fundamental, conseguir trabalhar a coesão em equipa e que acreditem em ti e no teu trabalho. Uma coisa que aprendi na vida é que, nunca sabemos com quem realmente é que estamos a trabalhar. Isto é, a cozinheira, o manequim ou outra pessoa podem ser pessoas com contactos e se eventualmente reconhecerem valor no meu trabalho, mais tarde poderão abrir-me portas e isso é essencial.

Que influência achas que a forma como nos vestimos tem no nosso bem estar e na nossa afirmação pessoal?

Aprendi uma frase da Coco Chanel que diz “a moda desaparece mas o estilo fica” e acho que cada um deve ter o seu estilo próprio e não sermos macaquinhos de imitação. Temos referências mas o corpo de cada um ditará que tipo de roupas devemos usar, a nível de corte. As tendências não ficam bem a todos. Quem quiser pode seguir as tendências com total liberdade mas, devemos ter em atenção o que nos favorece.

Há uma panóplia de tendências, não nos enquadramos em todas elas mas certamente nos enquadramos numa ou noutra (tendências de cabelos, de cortes, de volumes…) e é dessa forma que evidenciamos os nossos melhores atributos.

A nossa forma de vestir reflete muito quem somos, se a nossa personalidade é mais extrovertida ou mais tímida. Às vezes, quando vemos alguém que não está na sua confort zone, rapidamente conseguimos perceber através da forma como está vestida e temos a sensação de que não está na sua própria pele.

“Só é feio quem quer”, porquê?

Só é feio quem quer porque, de facto, é a verdade, não é? A beleza sabemos que vem de dentro e não precisamos, externamente de ser iguais à Beyoncé ou à Cardi Bi, basta que saibamos cuidar de nós mesmos, apresentarmo-nos limpos e cuidados. Estar e ser bonito não tem nada a ver com usar roupas de marcas, essas são apenas um complemento ao que nós realmente somos. 

Faz um ano desde que usaste, nos Globos de Ouro, o irreverente vestido branco da Hyena Tailor Mate (que na verdade era um três em um). Foi uma das peças mais especiais e marcantes que já vestiste, porquê?

Foi umas das peças mais marcantes, já tive outras mas esta foi especial porque foi uma homenagem a um querido amigo nosso da moda, o Paulo Macedo, que foi durante muitos anos editor da Vogue Portugal e que já faleceu. Ele era um grande fã da Lady Gaga e da sua irreverência e ele dizia-me sempre “prefiro uma pessoa com mau gosto do que uma pessoa sem gosto nenhum”.

Aquele que representa sempre “a melhor parte do teu dia”, o teu filho Zé Maria, reage bem ao ver a mãe nas luzes da ribalta?

O Zé Maria é uma criança normal, não reage muito a não ser que algo o chame verdadeiramente à atenção. Ele fica contente e para ele sou apenas a mãe que está lá sempre para ele.

Que legado lhe queres deixar?

O legado que lhe quero deixar é de educação, carácter, humildade e muitas gargalhadas.

Olhando para a Mariama de há 15 anos, podias imaginar que hoje terias o estatuto que tens?

Não, nunca poderia imaginar mas o meu estatuto faço-o diariamente e tudo o que vai acontecendo é só um acréscimo. Nunca pensei estar nessa posição de figura pública mas considero-me uma pessoa da ribalta. Até quando vou ao supermercado faço as compras com primor, assim como quando faço a ModaLisboa ou o Portugal Fashion. Faço tudo com primor, é quase como se estivesse em cima de um palco, sempre a acreditar que iria dar frutos e deu.

Que conselhos podes dar em quem sonha fazer um percurso semelhante ao teu?

Os únicos conselhos que posso dar é  fazerem as coisas sempre com muito brio, muito amor, muita dedicação mesmo que sais de casa “chupa limon”, os outros não têm nada que ver com isso. Esforça-te, luta para seres a pessoa que idealizas mas, em momento algum permitas que te humilhem ou que façam de ti gato-sapato e que saibas dizer não nos momentos certos. E não esquecer que é muito importante sabermos manter a nossa sanidade mental.

És bastante conhecida pelas tuas expressões originais e divertidas. Vamos terminar usando algumas delas para “avaliar” situações aleatórias, sociais nacionais e internacionais, pode ser?

20 anos de Mariama no Moda Lisboa: Pau-pau-pau!

Situação política na Guiné: Chupa limon!

Saída da Cristina Ferreira da SIC para a TVI: Chupa limon!!!

Moda Lisboa com limite de pessoas na assistência: Fétché, que bom!!!

Campanha de angariação de fundos para a família de Bruno Candé: Pau-pau-pau.

Duas mulheres candidatas à presidência da República: Fogo, é mesmo Fétché, fétché, fétché!!!

Caldo mancarra: Ai meu Deus, caso já com quem fizer!

Donald Trump infetado pelo novo corona vírus: Epá, para o Donalda Trump acho que vou ter de inventar mas é mesmo Chupa limon.

Greta Thunberg: Só é feio quem quer.

Pataniscas com arroz de feijão: Pau-pau-pau.

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