Volta e meia, falamos aqui de projetos empreendedores que são muito mais do que simples negócios. É o caso da Emadollsema, uma boneca criada em cima de uma relação que cruza o passado perspetivando o futuro, com o objetivo de construir um presente vigoroso.

A Emadollsema é uma coleção de quatro bonecas africanas, criada por Edviges Lima, empreendedora guineense a viver na Escócia.

Vestida com trajes africanos, Emadollsema é a representação simbólica do passado e futuro da própria criadora. “É uma junção entre os nomes da minha filha e das avós dos meus filhos. O significado desta boneca joga entre estas duas realidades: a tradição que nos é passada pelos nossos antepassados e a valorização da nossa cultura, mas também a demonstração que já é tempo da nossa história negra e mestiça estar presente nos bonecos para os nossos filhos, porque é de tenra idade que começam a formar-se os modelos. E se nós não tivermos representatividade, mantemos-nos no anonimato”, explica-nos Edviges.

O objetivo principal da marca, que nasceu em novembro de 2019, é assim empurrar as crianças para a exploração do imaginário, conhecimento de novas narrativas e da diferença entre seres da mesma espécie, porque “a diversidade é algo bonito e importante de ser cultivado”.

Por 20 euros, com portes incluídos, as bonecas podem ser adquiridas, numa primeira fase, via redes sociais e, numa segunda fase, através do site da marca que ainda está em desenvolvimento. O envio pode demorar cerca de duas semanas.

A Emadollsema está inserida no projeto Blessings&Love, que pretende “empoderar as crianças negras de forma subtil e lúdica na aceitação e elevação da sua autoestima. No entanto, para trabalharmos a aceitação da diferença, é imprescindível chegar ao outro, ou seja, a todas as crianças de todas as cores. É nesse sentido que abraçamos a diversidade, ao criarmos a união de todos através da inclusão”, reforça Edviges. 

A iniciativa surgiu com o facto de Edviges sentir a necessidade de se ver representada, sobretudo enquanto criança. “Sempre senti a necessidade de ter algo ou alguém negro que fosse visto pela sociedade como um herói ou uma mascote para as crianças negras, como eu. Não me fazia feliz ir à escola e aprender sobre a escravidão e saber que a palavra catinga (suor) é definida como o mau cheiro dos negros.  Ligar a TV e ser bombardeada com crimes cometidos por pessoas da raça negra. Sair à rua e ouvir “oh preta do c… volta para a tua terra!” e ainda ser obrigada a falar um bom português, sem sotaque, ter o cabelo liso, aceitar e sorrir de algumas “brincadeiras” de humilhação para com a minha raça para sentir que fazia parte da sociedade, pois era identificada como sendo uma preta “diferente”. Dura realidade da qual crescemos a tentar lutar contra, por vezes sem sucesso, mas só nos apercebemos da sua dura crueldade a partir do momento em que nos tornamos pais, pois não queremos que os nossos filhos tenham a mesma experiência”.

Hoje, com várias crianças de tons de pele diferentes na sua família, a empreendedora sente o dever de tornar a sociedade, nem que seja à sua volta, “mais tolerante e mais representativa, onde a diferença é algo a ser celebrado”. A sua própria experiência de vida é a base do seu projeto, “pois com uma boa educação, tornamo-nos resilientes para enfrentar o  futuro e as suas dificuldades e vitórias”.

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