BigZ Patronato

“Sou a prova viva de que a música salva vidas”, BigZ Patronato

Muitas vezes, questionamo-nos sobre o que é ser patrão ou como chegar a esse patamar. Esse questionamento é revelador da necessidade de singrarmos na vida, que para muitos traduz-se na liberdade de trabalhar por conta própria, independentemente da área profissional.

A sociedade onde estamos inseridos acaba por ser um jogo de escalada, onde os que estão em cima fazem os possíveis para lá se manterem e os que estão por baixo lutam para subir. É uma hierarquia. Os mais fortes ou os mais ricos mantém-se no topo da pirâmide e os mais fracos ou pobres estão na base. 

Então por que não ser a melhor versão de si mesmo, enquanto se está na base a lutar pela ascensão? Essa foi uma das perguntas que mais ecoou na vida do rapper Emanuel de Jesus Rodrigues Ramos, mais conhecido como BigZ Patronato. 

O artista é cabo-verdiano e vive atualmente na Linha de Sintra. Viver nas periferias ou em bairros sociais, à partida, é visto com uma conotação negativa. Para BigZ, “quem lá vive é considerado como um Zé ninguém ou um zero na sociedade”. Dessa premissa nasceu o seu nome artístico, que simplesmente significa um grande nada. 

Passo a explicar: Big traduzido para português é grande e o Z é de zero, representativo da falta de valor próprio. E porque Emanuel quer destacar-se e acrescentar valor ao que faz, daí Patronato, na qualidade ou autoridade de patrão. O rapper considera-se um patrão enquanto criador musical.

Em cada música que faz, dá o seu melhor e tenta superar as suas próprias expectativas, como se de uma competição se tratasse, dele para ele. Tem presente na sua cabeça que consegue melhorar a cada faixa, a cada letra e a cada melodia, assim como proporcionar uma melhor experiência a quem o ouve.

Por isso, Bigz sente-se na qualidade de patrão, dono do que faz e como faz. Hoje em dia é umas das referências no panorama musical crioulo. O seu Rap tem chegado a números que nem o mesmo pensava alcançar. Afinal, o rapper “veio de baixo” e está a conseguir, pouco a pouco, conquistar o seu lugar na música cabo-verdiana e com isso melhorar as condições de vida da sua família. O artista faz questão de manter presente na memória que já passou fome, dando assim um propósito à sua correria. O grande objetivo é quebrar barreiras para atingir o topo.

Numa conversa que cumpre todos os os requisitos e regras impostas pelas regras sanitárias, folheámos as páginas da vida de BigZ, a sua música, história, o que o move e os seus desejos.  

Em 2007, foi quando o rap veio ao teu encontro em Cabo Verde. Como o recebeste e quais as influências naquela altura?

Sim, em 2007 dei o meu primeiro passo na música. Foi uma experiência totalmente diferente do que eu tinha pensado. Foi incrível. Quando estou a cantar sinto-me num mundo à parte. Comecei a fazer Rap/HipHop porque nesse género sentia-me livre, não tinha fronteiras. Escrevia tudo o que sentia, toda a minha frustração, medos, derrotas, vitórias, conquistas, amor, amizades, pobreza, luta contra sistema, rivalidades e muito mais. Como qualquer outro cantor, seja qual for o género, temos sempre alguém que nos influencia.

Na minha época não tínhamos muito acesso à Internet e não tínhamos as plataformas que temos hoje em dia. O que predominava eram as emissões de rádio, as cassetes e depois o Mp3, onde podíamos ser nós a escolher a música. Mas no rap crioulo eu ouvia muito o Shade B, Karaka, Joe CVP, Kapeta. Já no rap feito nos Estados Unidos, como muitos, ouvia o 50 Cent, 2Pac, Notorious B.I.G, T.I entre outros.

Deste vida a Abismo em 2017 e Equilíbrio em 2019.  Fala-nos um pouco desses dois álbuns e o nascimento dos mesmos.

Quando ganhei o concurso local de Hip Hop em 2010/2011 em Cabo Verde, comecei a acreditar mais no meu talento e comecei a levar a música mais a sério. Foi quando comecei a lançar singles e mixtapes. Em 2017 senti que já estava preparado para elevar o meu trabalho e assim nasceu o meu primeiro álbum Abismo, com 11 faixas musicais e 11 videoclipes. Abismo retrata a minha vida, o meu quotidiano e as coisas negativas que afligem a nossa sociedade.

Em 2019 nasceu o meu segundo álbum, Equilíbrio, também com 11 faixas musicais. Neste álbum tentei trazer um pouco de tudo, explorar novas sonoridades e equilibrar o negativo com o positivo. Este titulo é um culminar da vida, porque nela quando conseguimos atingir um certo patamar, temos que equilibrar as coisas de forma a manter-mo-nos no mesmo patamar para que depois consigamos ir mais além. Se não conseguirmos encontrar esse tal equilíbrio, facilmente cairemos de onde estamos.

Ter um grupo de rap, os RB Scholl, e ter ganho um concurso local de Hip Hop moldou o teu caminho na música?

Isso mudou totalmente a minha forma de ver e fazer música em geral. Eu nunca tive um computador na minha vida e quando ganhei esse concurso de Rap, o prémio era precisamente um computador. Foi um sonho realizado.

Na altura, soube-me como se tivesse ganho o Euromilhões. Essa vitória motivou-me mais ainda, fez-me ver que eu consigo ter tudo o que quiser, desde que seja fiel aos meus princípios, trabalhe arduamente e nunca me deixe iludir com o brilho que a fama traz.

Ao viver em Portugal, sentes que o Rap crioulo feito em terras lusas é diferente do que é feito em Cabo Verde?

Sim, é diferente por causa da vivência, dos costumes e da cultura. As condições de vida também são diferentes, as pessoas têm uma forma diferente de ver as coisas. Sinto que em Portugal as pessoas estão mais abertas a certas linguagens e sonoridades do que em Cabo Verde e isso limita muito a forma de fazer Rap em Cabo Verde.

Como defines a música que fazes e as diferentes sonoridades que trazes nela?

As pessoas sempre me disseram que tenho um estilo próprio e inconfundível por trazer mais sentimento do que “batimento” nas minhas músicas. Considero-me ser um artista bastante versátil e não tenho medo de trazer cenas novas, explorar novos mercados e tentar incutir na mente e na sociedade em si, géneros e estilos novos, porque acredito que nesta arte, não há limites.

“Lágrimas” é o teu manifesto de amor e homenagem à tua avó?

“Lágrimas” é uma música que transmite muito sentimento não só para mim mas também para muitas pessoas. Muitos de nós fomos criados pelos nossos avós, deles recebemos muito amor, carinho e atenção.

A minha avó em particular, devo muito a ela. Essa música era o mínimo que podia fazer para a homenagear agradecer por tudo o que fez por mim e pela nossa família. Ela é a principal razão pela qual a minha família se mantém unida.

O que tentas passar com a tua música?

O que eu tento passar com as minhas músicas é simplesmente a minha vivência, os meus sentimentos e principalmente dar conforto para as pessoas que se identificam com as minhas letras. Quero que as minhas músicas sirvam de alavanca para um novo amanhã, porque acredito que as palavras têm força e a música pode salvar vidas. Sou a prova viva de que a música salva vidas.

Tenho testemunhos de muitas pessoas que seguem o meu trabalho, com as quais tive contacto e que quando chegavam perto de mim tinham os olhos lavados em lágrimas. Confessaram-me que as minhas músicas salvaram-lhes e isso para mim é uma gratidão enorme.

O que mudou na tua vida artística com a covid-19?

Família, o vírus mudou tudo. Principalmente na parte financeira e o facto de não poder dar concertos. Mas mesmo assim eu e a minha equipa Patronato Music não ficamos parados. Durante o ano todo de 2020, fomos lançando músicas, porque sabemos que existem pessoas que precisam da minha música como força ou veículo para seguir em frente.

Espero que consigamos ultrapassar essa situação o mais breve possível, para que tudo volte à normalidade. Precisamos de ter a mesma liberdade e viver as nossas vidas como antes.

Como tem sido tratada a classe artística neste contexto em Cabo Verde?

Em Cabo Verde, não vi nada a ser feito para ajudar os artistas. Foi mais do género ‘desenrasca-te sozinho, cada um por si’. Só graças ao YouTube e outras plataformas digitais que pagam pelo streaming é que alguns artistas conseguiram algum rendimento para satisfazer as suas necessidades básicas. Mas ainda temos muitos artistas a passar por muitas dificuldades por causa da Covid-19 e a falta de ajuda.

O que poderia ser melhorado?

Eu acredito que muito se poderia ter feito para ajudar os artistas, pelo menos nas necessidade primárias. Porque sem poder fazer shows os artistas não têm outra fonte de rendimento. Existem muitos artistas que não ganham nada com o streaming e mesmo os que ganham não é suficiente para conseguirem levar uma vida normal.

E em Cabo Verde o processo de monetização e o direito dos autores é muito complexo e há pouca informação por parte das entidades reguladoras aos artistas. Mas acredito que isso tudo vai melhorar com o tempo.

Qual seria para ti o auge da tua carreira?

O auge da minha carreira seria ter uma fonte de rendimento onde eu possa estar tranquilo, poder dar às minhas filhas tudo o que eu não tive. Poder também dar oportunidades a novos artistas.

Isso sim seria o auge da minha carreira, porque ter fama não é nada, eu quero é ter sucesso. A fama é passageira mas o sucesso fica para a vida toda.

Que podemos esperar de novo em 2021?

Em 2021 vai ser um ano de muito trabalho e muitas novidades. Novos planos, novas metas e novos sonhos. Quero quebrar barreiras e chegar o mais longe possível porque sei que sou capaz. Certamente um novo álbum que já está mesmo a caminho, e que brevemente iremos anunciar o nome e a data do lançamento. Fiquem atentos que tenho muitas músicas boas a caminho.

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BANTULOJA
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.