Eldrige de Melo, um aventureiro angolano no mundo espacial

Eldrige de Melo nasceu no Huambo, planalto central de Angola, tem 32 anos, é pós-graduado em Comercialização e Empreendedorismo Espacial pela Universidade Espacial Internacional e Instituto de Tecnologia da Flórida, gestor de Projetos Espaciais, mestre em Gestão de Projetos Aeroespaciais pela ISAE-SUPAERO, em França, e um dos dois pontos de contacto de Angola para o Conselho Consultivo da Geração Espacial, em apoio à agenda espacial das Nações Unidas.

Com um exímio percurso académico, o jovem tem feito correr tinta nos meios de comunicação do país da Palanca Negra Gigante por ser o primeiro estudante angolano a frequentar a Universidade Espacial Internacional, em França, e estar inscrito no quadro de honra da instituição.

Tendo vivido parte da sua vida entre Luanda e Windhoek (capital da Namíbia), Eldrige é um eterno apaixonado por música, especialmente por acordes de violão, que se cruzou por acaso com o mundo aeroespacial.

“Sempre achei o mundo espacial muito fascinante, porém fora do meu alcance, porque os filmes sempre nos passaram uma imagem muito fora do nosso contexto. Em 2014 tive o primeiro contacto através de uma formação e comecei a perceber que era possível alguém como eu fazer parte dessa indústria e das inúmeras coisas que poderia fazer”, explicou à BANTUMEN em entrevista.

Entretanto, foi depois de estar a trabalhar no programa especial nacional “e ver o impacto que a tecnologia especial tem na humanidade e em como podemos utilizar a tecnologia espacial para facilitar na resolução de alguns dos problemas que temos no país, sobretudo aqueles que estão ligados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável”, que Eldrige percebeu o seu potencial na área.

Tentou uma candidatura no Programa de Pós-Graduação em Comercialização do Sector Espacial, Universidade Espacial Internacional, e foi aceite. Contudo, Eldrige não tinha como arcar com os custos da formação. Escreveu à instituição a explicar a sua situação e recebeu uma resposta inesperada.

“Fui contactado por Andrew Aldrin, o filho mais velho do Buzz Aldrin, companheiro de missão de Neil Armstrong, os primeiros humanos a pisarem a Lua. Contactou-me para saber se teria interesse em fazer a formação e que a fundação Aldrin Family Foundation iria custear as despesas. Aceitei na hora”, recordou Eldrige de Melo.

Segundo Melo, a universidade, apesar de ter mais de 50 anos de existência, ainda é “muito pequena e quase todo o mundo se conhece”. Principalmente entre os jovens africanos, que nesta área estão consideravelmente em número inferior em relação a outras etnias.

“Quando fiz o Mestrado em Gestão de Projectos Aeroespacias, em Franca éramos três negros numa turma de 30 alunos, já para a formação na Universidade Espacial Internacional éramos dois numa turma de 15 alunos.” Estes números acabam por facilitar, “muitas vezes”, como sublinha o jovem, um desenrolar de situações discriminatórias de teor racial. Afinal, “infelizmente, o racismo ainda tem muita força apesar de haver quem finja que não existe”.

Sobre a sua distinção no quadro de honra, Eldrige diz que deve ter sido pela qualidade do trabalho porque não sente que fez o suficiente para merecer tal distinção. “Diria que é uma questão de humildade e perfeccionismo, porque não alcancei algo impossível de se fazer. Acredito que muitas outras pessoas, com as mesmas oportunidades que tive, teriam alcançado o mesmo. Agora, é verdade que tive de trabalhar muito, e ainda trabalho muito, e mesmo assim ainda não estou satisfeito. Mas não posso negar também que me senti muito honrado e motivado por ser reconhecido no meio dos outros colegas.”

Sobre o potencial de Angola no setor, Melo indica que “o Estado tem investido muito nos últimos seis anos e Angola já conta com especialistas que estão a trabalhar para tornar esse futuro [promissor] possível”.

E para quem quiser seguir as suas pisadas profissionais, é preciso ter bem presente na memória que “trabalhar na área espacial requer estar permanentemente a aprender e a desenvolver. Cada ano que passa, surgem novas tecnologias para exploração espacial, a cada minuto surgem novas ideias e conceitos futurísticos a serem desenvolvidos”.

Porém, Eldrige frisa que “tudo é possível quando se trabalha arduamente com fé e amor. Hoje em dia, com a comercialização da área especial, existe um oceano de oportunidades para quem quer trabalhar na área ou desenvolver valências. Já não se precisa só de engenheiros e cientistas, precisa-se também de artistas, pessoas que entendem de medicina, de legislação, de marketing, de negócios, ambientalistas e etc. E os norte-americanos perceberam isso logo nos anos ’60, com a nomeção de James Webb para administrar a NASA. Foi durante a liderança dele, entre 1961 para 1968, que a NASA se preparou, desenvolveu e aperfeiçoou a tecnologia que levou o homem para a Lua, em 1969. James Webb, para mim, é um grande exemplo por ser um jurista de profissão, que tinha duas componentes importantes, a gestão e saber entender as pessoas”.

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Bruno Dinis